Alentejo



"«Terra» por excelência, nem rocha, nem hortejo, nem pinhal, terra vasta, grave, sortílega, fecunda, envolvente, terra chã – do áspero montado, dos sobreirais sangrentos, charnecas e olivais, e das searas com que os olhos comungam o infinito – o Alentejo é das províncias de Portugal aquela que na nossa literatura aparece como figura sobressalente e decisiva mesmo quando devera ser cenário.

É a sua grandeza, no quadro geográfico português, grandeza não só feita de extensão mas sobretudo de feitio, que a sua gente reflecte, gente do espaço vazio, que nada ou quase nada possui, materialmente, e, por isso mesmo, em certos momentos, como que possui tudo. Nos planaltos e nas planícies medram as searas humanas destinadas aos maiores cometimentos, essas que em longas apatias incubam o sonho e depois, de chofre, à sua imagem, o esfolham no vento. Nas ondas das messes alentejanas viu Miguel Torga o prenúncio dos mares das Descobertas. Outros mares interiores cachoam silenciosamente, grandes heroísmos secretos, sonâmbulos e perdidos, na calma luminosa dos montados. Caracteres afeiçoados pela paisagem, que tem a nobreza da serenidade, temperados pela solidão e pela pobreza, por uma lisa pobreza vertical – tais, como uma emanação da terra alentejana, seu fruto e seu sangue, os místicos alentejanos (místicos com ou sem Deus), tímidos e orgulhosos, os mais fraternos dos portugueses, homens, através dos tempos, de chapéu na cabeça, de mãos vazias, o ar severo e triste, prestes a colherem o amor ou o ódio, a medirem-se, instintivamente, pelo seu espaço."



(Excerto de O Alentejo - Urbano Tavares Rodrigues)

Comentários

wind disse…
Bom excerto que caracteriza o Alentejo:) beijos
paper life disse…
Meu querido Urbano, como ele sabe e descreve bem o nossp Alentejo!

Obrigada pelo post. Lumif.

Bjs

Madalena :)
Rufa77 disse…
Caro amigo da blogoesfera e companheiro de terras quentes, gostava de lhe pedir auxilio na divulgação da ANIMATU - 05 mostra de cinema de animação que esta em destaque no tem avondo esta semana, para que Beja, ganhe também ela o seu espaço nem festivais de cinema. Sines, Evora, Serpa, Moura contam já com reconhecidos temas dedicados ao cinema e é aposta nossa conseguir também nós um espaço dedicado ao cinema. Um bem haja !

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