terça-feira, agosto 30, 2005

Ausência






Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.

Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.

E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.




(Vinícius de Moraes)



(Foto de Nuno Belo-Solidão-Fotografia na net)

6 comentários:

wind disse...

O amor na sua plenitude como só Vinícius o sabia "dizer":) beijos

Isabel-F. disse...

Oi Lumife...

Um lindo poema...

deixo-te 1 bj e o meu Obrigada.

Caracolinha disse...

A isto se chama um regresso em GRANDE.

Beijinho encaracolado ~:o)

segurademim disse...

Vinicius e os seus nostálgicos e belos poemas de amor! bonito. bj

Menina_marota disse...

Um belo poema de Vinícius... a força do amor...

Um abraço ;)

batista filho disse...

Velho e bom Vinicius!
... e bom mesmo é que já estejas na ativa, amigo. Um abração.