sexta-feira, setembro 16, 2005

Negra era a noite ...



Negra era a noite, e a praia solitária,
E pesados os ares,
E tremendo o tufão, que Deus mandara
Varrer os largos mares

Nem astro, nem farol, nem luz, nem facho!
Nada. Rochas escuras,
A praia solitária, o mar imenso...
E Deus lá nas alturas!

Lívido o raio, atravessando as nuvens,
Veloz fendia o ar,
E com fita de fogo imensurável
Ao céu prendia o mar;

E a chama fugacíssima, rompendo
As trevas carregadas,
Mostrava as rochas nuas, quais se fossem
Gigantescas ossadas.

Enxofrados clarões, correndo ao largo,
Os campos inundavam;
E mil estranhas formas, despertando,
Incertas vacilavam.

Ruge, ruge, tormenta desvairada,
Ó filha do Deserto!
Na selva ruge, ruge nos rochedos,
Ao longe ruge, e ao perto!

Pálida e triste, a flor, medrada a custo
Na fenda de um rochedo,
Pendido o cálice, trémula vertia
Como um pranto, em segredo!

Do vendaval cortada, foi seu fado
Nascer, sorrir, findar!...
Teve por salva o estrondo da tormenta,
E por sepulcro o mar!

Na densa mata o secular carvalho,
Da força imagem fera,
Possante, contrastava até na morte
A flor da Primavera!

Não vergou, nem cedeu, curvando a fronte
Ao braço impetuoso
Do bulcão furibundo; o tronco duro
Lhe opôs, de si vaidoso!

Não vergou, mas, quebrado nas raízes,
Revolto, e destroncado,
Foi ludíbrio do vento, e do combate
Despojo malfadado!

E o rijo turbilhão corria ao largo,
Sem fim, sem rumo certo!...
Ruge, ruge, tormenta desvairada,
Ó filha do Deserto!




(José da Silva Mendes Leal)



(Foto de André Viegas - Olhares)