quinta-feira, outubro 13, 2005

Saudades do Alentejo




Sou filho da terra quente,
das searas, do montado …
Trago das canções dolentes,
o passo cadenciado.


Saudoso das leiras trigo,
vivendo em terra emprestada,
nas longas noites sem sono,
perdido neste abandono,
vou desfiando comigo,
contos perdidos na estrada …


Tenho na pele marcados
os traços de mil suões,
e os olhos tristes, magoados,
que eu herdei dos ganhões.


Guardo raízes profundas
dum campo velho, cansado,
onde mesmo em tempo agreste,
nascia uma flor silvestre,
naquelas terras fecundas,
de Alentejo ignorado.


Eu nasci p’ra lá do Tejo,
guardo da terra a lembrança …
Eu pertenço ao Alentejo,
que me conheceu criança!


Voltarei um destes dias,
com um bando de pardais …
hei-de voar pelos montes,
beber as águas das fontes,
cantar velhas melodias,
e embebedar-me em trigais.


Orlando Fernandes in Fronteiras do Sonho

“O poeta é natural do país-do-Sonho. Entre o país-Comum e o país-do-Sonho existe uma fronteira a que chamamos condição-humana. Só é possível passar tal fronteira com um cavalo-alado. Para o país-do-Sonho não é preciso levar bagagem material. No país-do-Sonho as grandes cidades são construídas com Amor, Liberdade, Infinito e Eternidade.
Que num qualquer mágico dia-físico nos possamos lá encontrar!”

Ângelo Rodrigues


O “BEJA” tem o grato prazer de editar estes trabalhos de Orlando Fernandes e, em breve, de novo voltaremos às Fronteiras do Sonho.
Bem haja !




VOLTAVA A GOSTAR DE TI




Sonhos perdidos na bruma,
Quimeras feitas de espuma
São rendas que a vida tece;
Dá-se às vezes por cegueira
Uma vida toda inteira
A quem depois nos esquece.


Olho as linhas desenhadas
Em rotas desencontradas
Que as pombas traçam no ar;
Lembram-me os caminhos meus
Que por destino dos céus
Percorri p’ra te encontrar.


Hoje estou de alma serena,
Pois sei que valeu a pena
Cada hora que vivi;
E se por destino ou fado
Voltasse atrás ao passado…
Voltava a gostar de ti!



Orlando Fernandes in Fronteiras do Sonho










SOLIDÃO



Quero mergulhar no fundo dos teus olhos,
Este amor gritar perdidamente;
Esquecer que a minha vida é mar de escolhos,
Barco solto levado p’la corrente.


Sentisse uma só vez o teu carinho,
Um gesto de ternura ou de afeição,
E não me quedaria tão sozinho
Na minha louca e triste solidão.


Dou vida em cada dia à falsa imagem
Dum sonho renovado, uma miragem
Que se esfuma para lá do horizonte.


Falho de amor, de esperança e de coragem,
Caminheiro perdido na viagem,
Morto de sede … à beira de uma fonte!



Orlando Fernandes-in Fronteiras do Sonho