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Foto de José Luis Mendes - Pontos de Vista




ALENTEJO REVISITADO


Ele queria ser sinónimo de Alentejo velho


foi-lhe dito que a urze quando nasce
é o lápis que risca a roxo a linha do montado
e divide em horizonte o Céu e o resto do mundo;
foi-lhe dito que a geografia duma azinheira
termina em cabelos de fogo e que seus braços
espreguiçados ao calor são o descanso da terra


falaram-lhe que as ribeiras soltas tinham vida
e que cada gota cheirava a suor e lágrimas
presas à lâmina pujante duma enxada na semente;
alguém lhe disse que os riachos eram de sabão
e que emanavam cânticos de mulheres selvagens
protegendo os filhos debaixo dos aventais lavados


contaram-lhe que as tardes eram só os dias longos
enrolados no vento maestro das searas espigadas
só à espera do ouro para alimentarem os alforges;
disseram-lhe que os açudes do rio eram o sisal
que cingia o trigo secado e embalado nos braços
de uma ceifeira quase morta pelo cansaço


foi-lhe dito que os espinhos da esteva são aves
e deles brotam flores alvas formando as paredes
das moradas plantadas no meio do caminho;
foi-lhe dito que à planície menstruada de papoilas
se chamava sangue quente no barro ao lume
misturado com pobreza e cheiro a poejo pisado


falaram-lhe que nos montados se corre descalço
e que dos pés brotam os beijos quentes da lavra
debulhando a canção analfabeta das planícies;
contaram-lhe que do entendimento das estações
se acalentam as monções da eira e do vento sul
com a esperança de uma meia sardinha no pão


disseram-lhe das mãos que se entrelaçam no frio
e que das palavras entreabertas no postigo
sobra o odor a infusas de chuva e pés de hortelã;
foi-lhe dito que a fortuna das gentes é o canto dorido
e das gargantas dos frutos nascidos vive o quebranto
tragado no cucharro que partilha a lavoura de cem


alguém lhe disse que as camisas de preto eram véus
e os chapéus o respeito pela cara caiada de Deus
que das feridas da terra protegia a fome do povo;
foi-lhe dito que o passado não retorna nos calos das mãos
que o velho se tornou saudade na charneca do sonho
e que de Alentejo só a memória de quem já viveu tudo.



Rita Beja (Antologia de Escritas nº 3)

Comentários

Lord of Erewhon disse…
Belo texto.

P. S. E Al´Mutamid... interessa-te?
Gostei do texto sim! Mas confesso que a imagem é lindíssima porque retrata o silêncio!

E eu gosto do silêncio por demais!



Belo post!
Jofre Alves disse…
Depois de alguns dias sem cá vir, regressei e li o que tinha perdido com a minha curta ausência: as Jornadas Europeia do Património, a confraternização dos militares, a Rota do Fresco, etc. e fiquei, claro agradado com o que vi. Motivo para regressar brevemente. Bom fim-de-semana.
Kalinka disse…
OLÁ
Hoje vi um comentário teu no Miguel, pai da Matilde, quando ele aceitou escrever sobre o Amor.
Fui eu que lhe fiz o desafio e também o faço a TI.
E, se alguém lhe perguntar:
O que é o Amor?
aceite o desafio e participe.

Beijos e bom fim de semana.
manuel maria disse…
Há um texto parecido e lindíssimo sobre o Alentejo do fialho de almeida, que era de Cuba...
MARIA VALADAS disse…
A paisagem deixou-me impávida e serena...com uma recordação da minha adolescência em que corria como uma cotovia por aqueles descampados silvestres. Hoje, resta
apenas a memória dos sons do silêncio que dela emana!

Ao ler o texto...chorei!!!!!

Um abraço Lumife
Maria
Manel do Montado disse…
(...) falaram-lhe que nos montados se corre descalço (...)
Sem mariquices que não sou disso, mas este poema deixou-me os olhos rasos de lágrimas, tão bem cantado está o meu Alentejo.
Sinto-o como se de família fosse, meu e só meu.
Grande momento passei hoje aqui a ler e a reler este retrato escrito da terra que mais amo, como se da minha vida se tratasse.
Obrigada por me o dares a conhecer.
Um abraço... e o cheiro a poejos pisados?
adesenhar disse…
revisitando o alentejo com prazer.

está melhor o blog, já não bloqueia,
deve ser da entrada do outono.

abraço
Lisa disse…
Lindo post...
Vim desejar um belo final de semana com carinho...
Um grande abraço com ternura para a linda Carolzinha e outro pra vozito...

Beijosss...
Que linda homenagem ao Alentejo. O Alentejo te reconhece como um dos seus filhos.Lumife força e continua a cantar o Alentejo.Os filhos enaltecem os pais e assim também tu.Só para dizer que é um poema muitissimo lindo. Um abraço
Mily disse…
Aqui no teu blog está registrado um texto belíssimo do Miguel Torga falando sobre o Alentejo. Agora esse maravilhoso e sentido poema da Rita Beja. Para mim, amigo, que estou em terras de 'além-mar' foi com inusitado prazer que fiquei a conhecer um pouco mais desse pedaço de chão que tanto amas e que vens nos trazer assim, vez em quando, em bandejas de pura prata, ornado com teu imenso amor à terra-pátria. São pessoas assim, que amam o chão onde nasceu, ou que simplesmente adotou no coração, que nos tocam profundamente a alma, principalmente quando devotamos ao nosso "torrão-natal" a mesma espécie de amor e admiração.

Obrigada, amigo querido, pelos momentos lindos que sempre passo por aqui.

Que teus dias continuem plenos de alegria, de paz, de amor, junto aos teus entes queridos.

Beijos no coração, sorrisos na alma, e flores no teu caminhar.
Bartender disse…
(...) alguém lhe disse que as camisas de preto eram véus
e os chapéus o respeito pela cara caiada de Deus (...)

Viva o Alentejo, porra!
Um abraço
Grilinha disse…
Que bela imagem e palavras do Alentejo em pleno Outono.
Isabel-F. disse…
Maravilha de texto.
Adorei.

Há duas semanas atrás dei um passeio pelo teu Alentejo ...para matar saudades ...

Boa semana
Bjs
O Turista disse…
texto belo...
e foto deslumbrante....
Fabuloso...
Abraço amigo,
O Chaparro disse…
olá, compadre.
passei pra deixar um abraço e desejar boa semana
Teresa David disse…
Vim há pouco do Alentejo e a imagem e o texto que acabo de ver e ler transmitiu-me alguns dos sentimentos que aquelas paragens sempre me transmitem. É sempre bom ir até lá e respirar paz e higiene por todo o lado.
Bjs
TD

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