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Foto de João Espinho




Eh, como está triste o mar!
Faz lembrar um animal
Muito manso
E doente.

As ondas mal se mexem.
Parece mesmo
Que tiveram uma avaria.

Dá-me a impressão que o mar
teve algum desgosto
para assim estar…

Ou será a minha solidão que o contagia?

*************

Retrospectiva

Debruço-me para a infância.
Demoro.
Lá faz bom tempo. Há sempre um dia
Novo que começa.

A realidade zanga-se
E ordena-me que recolha.

… o sonho é um carro de bois
que nunca tem pressa

*******************


Antigamente os velhos caiaram a vila,
os velhos mondaram o trigo,
antigamente carregaram o trigo,
amassaram o pão.

Os velhos hoje deixam
cair uma lágrima,
como o suor antigamente
nas terras do patrão.

Chora a lágrima dos velhos
suas pernas seus braços rijos dantes,
seu único bem que já não torna.

Hoje os velhos vão pedindo pelos montes,
hoje os velhos vão metendo no alforge
o pão e o toucinho da reforma

***************

A minha vida é um poema aos bocados
e quando ela terminar
o dobrar dos meus finados
é que o há-de recitar




(Sebastião Penedo - Poeta natural de Alvito)

Comentários

Peter disse…
O poema fala-me da minha infância. A foto é espectacular.

Bom Domingo
wind disse…
Excelentes poemas!:)))))
beijos
Paulo Sempre disse…
"o sonho é um carro de bois que nunca tem pressa". Tal como o Alentejo: Nostalgia, desassossego, lonjura, vento suão...e muita infância incenciada nos "charocos" das manhãs de Inverno...
Mas o sonho, esse..., comanda a vida....
Abraço
Paulo
mfc disse…
O mar é mais bonito revolto.
Quando assim está...fala connosco!
António disse…
Olá!
Bom domingo!
O Sebastião Penedo é um poeta popular, claramente se vê pelo estilo.
Mais do que poemas eu li pensamentos de quem já muito viveu e padeceu.
De quem já tem o estatuto de sábio.

Obrigado pela visita e pelo comentário.

Um abraço
Charlie disse…
Estendo as mãos a par
e num traço semicerrado
que dos meus olhos fazem o Horizonte,
descubro no branco da cal nostalgias do viver de ontem.
Não!
Não há céu maior que este mar,
nem sentir luz mais profundo
Que o trigo em folha a abanar
o Cante num Tejo Além do ar:
- Aqui é o infinito do Mundo. -
olinda bonito disse…
ler Sebastião e saber que não o temos connosco. leva-nos a sentir ainda mais a sua partida.
obrigada Sebastião.Estamos contigo
ernesto esteves disse…
Bonita imagem... as rugas da vida estampadas na face... quantas histórias vividas... quantas mágoas sulcadas...
Parabéns!
Um óptimo fim-de-semana.
Abraço
della-porther disse…
lu

foto incrível e o poema muito bonito.

beijos

saudades

della
Cris disse…
Voltei , Lumife, após o descanso necessário..Beijos e te aguardo lá.
Soberbo para poupar palavras que não as há par fazer digna justiça aos poemas, bela imagem também. Boa semana.
Ludinais disse…
Obrigada pelos pedaços do seu tempo que "gasta" com os amigos.
Tocantes estes pensamentos de Sebastião Pendedo e a reveladora foto que os ilustra.

Beijos.
O Chaparro disse…
passei pra desejar boa semana. abraço
Lisa disse…
Olá Lu...

Poema lindo...

Vim desejar a ti uma semana super linda com mta paz e amor...

Beijos com ternura no teu coração...
Mily disse…
Atualizei e leitura, meu querido, e me encantei com a postagem anterior, com a foto e com o poema sobre os amigos. Uma integração perfeita para encantar os olhos e o coração.

Na postagem atual, também uma foto enternecedora (me comovem crianças e idosos... acho-os tão belos em sua fragilidade... ensinam-nos tanto!).

A poesia de Sebastião Penedo, apesar de bela, nos chega de forma nostálgica, pesarosa, e nos toca profundamente.

Dois belos momentos, meu amigo, aqui vividos por mim. Grata por eles!

Na oportundidade, apesar de sempre fazê-lo por email, agradeço também pelas lindas mensagens que tens me enviado. Trazem-me doces momentos de enlevo.

Deixo-te beijos, sorrisos e flores, para enfeitar o teu caminhar, e o desejo de que tua vida continue linda, doce e perfumada ao lado dos teus familiares queridos.
Obrigado pela visita e pelo comentário. Espero que tenha gostado. Volte sempre. Cumprimentos
gato_escaldado disse…
Belos Poemas! os das vida...

Gostei muito. Abraços
Teresa David disse…
Cara curtida pelo sol e pelo sal, mas tão expressiva, que deita por terra a miragem que as rugas destroiem a beleza dum rosto, neste caso só lhe transmitem uma expressão intensa.
Bjs
TD
Há muitos anos (o homem já deve ter falecido) conhecido na Lagoa de Santo André um poeta de cadeira de rodas que tinha uma mercearia à beira da estrada... Um ser excelente e optimista, vou ver se encontro o livro que me ofereceu: comparava-se num poema a um lagarto! (Ficou paralítico em pequenito com um coice de uma mula.)
O Alentejo e seus poetas do povo são um filão de grande riqueza!

P. S. Ando atrás de um post sobre Fialho de Almeida mas ainda não saíu como quero.

Abraço!
Os poetas alentejanos escrevem os seus poemas sábios que embalam nos cânticos afinados com que deliciam os nossos sentidos.
Um abraço
Rogério Martins Simões
batista filho disse…
versos a mancheias, nem sempre alegres, mas sempre belos, intensos, postados nesse teu sítio. valeu, amigo! deixo o meu abraço fraterno.
Jofre Alves disse…
Sexta-feira entro para a sala de visitas deste blogue, e enquanto saboreio um café – o café de Coura é dos melhores do mundo, devido às propriedades da sua água –, assim também saboreio o que me é dado ver aqui, com gosto, com prazer, na linha da qualidade deste blogue aprazível, e ao partir, donde sempre fui bem recebido com fidalga galhardia, deixo o desejo de bom fim-de-semana.
MARIA VALADAS disse…
Cada vinco marcado, é uma revelação da vida... anos de sabedoria e de experiências vividas!!
A foto está espectacular,,,,faz-me regressar aos tempo da minha infãncia!
Como eu via os " velhos" do meu Alentejo!

O poema retrata....as minhas memórias!!

Um bom fim de semana ..para ti Lumife...para a carolina...muitos beijinhos...e cumprimentos á linda familia que tens!

Maria
Amigo,
Recebi mais uma vez a tua visita ao meu humilde blog de poesia. Quanto à tua sugestão para colocares um poema meu, no teu lindo blog, muito me honra tal como terei muito gosto que copies ou eu te mande uma foto de alguma tela pintada pela minha companheira, Elisabete Maria Sombreireiro Palma, que nasceu precisamente em Beja. Acima de tudo seria com grande orgulho ver uma tela desta grande mulher Alentejana que eu carinhosamente trato por Bete.
Quantas histórias ela conta, da sua/tua terra onde nasceu, em 1948, nomeadamente, a de triste memória que a marcou, o assassinato de Catarina.
Saudades
Rogério Simões
Nilson Barcelli disse…
Um excelente conjunto de poemas.
Com uma foto muito boa.
Abraço.
Isabel-F. disse…
Adorei. Não conhecia.

Bfds
Bjs
Mikas disse…
Gosto particularmente da parte que fala dos velhos, é uma realidade triste
agua_quente disse…
Que belos poemas!
Bom domingo. Beijos
APC disse…
Esta foto é divinal!!!
Adorei também o texto do post imediatamente seguinte em data.
Entrei (vinda do blog de Baptista filho) porque "Lumife" não me pareceu nada estranho... (?)
Um abraço.
A.Mello-Alter disse…
Meu Caro
o Crónicas do Planalto trocou de morada.

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