sexta-feira, maio 12, 2006







A JANGADA


Gostava de fazer uma jangada
Com os destroços do meu barco à vela,
Meter-me ao Mar, e, em lírica jornada,
Beber a Luz da minha antiga estrela.


Fugir de toda a gente, não ter nada,
Senão os próprios olhos fixos nela,
Alheio mesmo aos golpes da nortada
Que os mares e os lagos encapela.


E fui ao Mar. Nas ondas, uma a uma,
Busquei e rebusquei, sofregamente,
Os restos dessa antiga embarcação.


Não trouxe mais que uns frémitos de espuma,
E alguns punhados dessa areia ardente
Onde se perde a voz do coração!




(António Celso in Asas Cinzentas)