sábado, novembro 11, 2006

Foto de João Espinho




Eh, como está triste o mar!
Faz lembrar um animal
Muito manso
E doente.

As ondas mal se mexem.
Parece mesmo
Que tiveram uma avaria.

Dá-me a impressão que o mar
teve algum desgosto
para assim estar…

Ou será a minha solidão que o contagia?

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Retrospectiva

Debruço-me para a infância.
Demoro.
Lá faz bom tempo. Há sempre um dia
Novo que começa.

A realidade zanga-se
E ordena-me que recolha.

… o sonho é um carro de bois
que nunca tem pressa

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Antigamente os velhos caiaram a vila,
os velhos mondaram o trigo,
antigamente carregaram o trigo,
amassaram o pão.

Os velhos hoje deixam
cair uma lágrima,
como o suor antigamente
nas terras do patrão.

Chora a lágrima dos velhos
suas pernas seus braços rijos dantes,
seu único bem que já não torna.

Hoje os velhos vão pedindo pelos montes,
hoje os velhos vão metendo no alforge
o pão e o toucinho da reforma

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A minha vida é um poema aos bocados
e quando ela terminar
o dobrar dos meus finados
é que o há-de recitar




(Sebastião Penedo - Poeta natural de Alvito)