ANTÓNIO SARDINHA - POETA DE MONFORTE DO ALENTEJO

Pintura-Jean-Hippolyte Flandrin-1809-1864


VELHO MOTIVO

Soneto de Jacob, pastor antigo,
– soneto de Raquel, serrana bela...
Oh! quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras Ela!

O que eu servira para viver contigo,
– tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!

E vou sofrendo a minha pena amarga,
– pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!

Raquel não era dele, e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia,
aquela que me tem por seu senhor!




Foto Carla Salgueiro


NO DESERTO

Chegaram os camelos junto ao poço,
Quando Rebeca tinha a urna cheia.
Foram momentos esses de alvoroço,
Bem raros de encontrar em terra alheia.

Também meu coração, menino moço,
Nos cardos do caminho se golpeia.
Ouço-te os passos, dentro de alma eu ouço
O eco dos teus passos sobre a areia.

Busquei-te no deserto longamente...
Como Rebeca outrora, condoída,
Surgiste, calma, na poeira ardente.

De ânfora baixa, à boca da cisterna,
Ficaste assim, para toda a tua vida,
Matando a minha sede, que é eterna!




Pintura de Gaudenzio Ferrari



TOADA GÓTICA

Seguem-se os alicornes mansamente,
Pastando neve na montanha azul...
Que a tua mão, Senhora, os apascente
Sem nada que os altere ou que os macule!

O céu, coalhado, tem um ar ausente
Que nem parece o dum país do Sul.
E os alicornes pastam mansamente
— E a neve brilha na montanha azul!

Ondeiam nos pauis fantasmas brancos.
Tal como um sonho que se apaga e esfuma,
Anda a bailar o Inverno nos barrancos.

E tu sorris, atrás dos alicornes...
Ó pastorinha de vitral e bruma,
Que sobre mim a tua graça entornes!






António Maria de Sousa Sardinha (1887-1925) nasceu em Monforte do Alentejo no dia 9 de Setembro, e faleceu em Elvas. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Com Alberto de Mosaraz e Hipólito Raposo, fundou em 1914 a Nação Portuguesa, revista de cariz nacionalista que viria a dar origem ao Integralismo Lusitano. António Sardinha torna-se director em 1922 do diário A Monarquia, defendendo o nacionalismo monárquico. Exilou-se em Espanha após o fracasso do movimento da Monarquia do Norte. Obras poéticas: Tronco Reverdecido (1910), Epopeia da Planície (1915), Quando as Nascentes Despertam (1821), Na Corte da Saudade (1922), Chuva da Tarde (1923), Era uma Vez um Menino (1926), O Roubo da Europa (1931), Pequena Casa Lusitana (1937). Ensaio: O Valor da Raça (1915), Ao Princípio Era o Verbo (1924), Ao Ritmo da Ampulheta (1925), entre outras.
(Informação Projecto Vercial)

Comentários

Olinda Bonito disse…
achei o primeiro tão bonito que po outros lindos também se esgotam . mais não +osso dizer
Entre linhas... disse…
Que bom recordar a poseia tradicional construída por grandes mestres das palavras sábias,com toda a sua simplicidade.
Bom fim de semana
Bjs Zita
EMALMADA disse…
A CENSURA na comunicação social existe, está aí. Por isso...
Para lá de uma certa Almada virtual na televisão e nos encartes de jornais, há quadros, cenas e imagens de uma Almada real escondida e esquecida que os almadenses não gostam de ver.
http://emalmada.blogspot.com
C Valente disse…
Lindos poemas, belas imagens a condizer. Os mestres não se esquecem, recordam-se
Saudações amigaveis
Olhos de mel disse…
Lindos e os dois primeiros encerram uma tristeza... Mas todos são maravilhosos.
Que sua semana seja de grandes realizações.
Bjs.
jorge vicente disse…
António Sardinha foi um mestre. Apesar das suas opiniões políticas de direita, foi um sábio (mesmo na política).

Um grande abraço
Jorge
MARIA disse…
Lumife, dando-nos sempre o melhor.
Encantando sempre.
Afortunada Raquel ...

Beijinhos
Maria
Olhos de mel disse…
Eu aqui pra reler tanta coisa bonita e deixar um beijo
Charlie disse…
É sempre uma viagem que sabe a pouco, visitar este espaço de especial bom gosto e qualidade. Sempre voltado para o imenso Alentejo, esse "infinito do mundo" como eu lhe gosto chamar, numa alusão à imensidade que lhe fica para além da extensão territorial. O seu blog é um desses horizontes deste infinito. Um desdobrar eterno de si mesmo enquanto se avança. Um Alentejo que fica tanto maior quanto mais se lê.

5 *****

Carlos
Olhos de mel disse…
Boas férias e uma super semana, cheia de realizações.
Bjs
Anónimo disse…
O tema musical tambem é bonito
lembra-nos ofilme Dr Jivago

odete

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