segunda-feira, julho 16, 2007

A MORTE DE MADRUGADA





UMA CERTA madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbedo
Ou se tinha a morte n’alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
... Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río...




De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei... não sabia nada...
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.
Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.



Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se punha horizontal.



Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra-seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada...
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.



Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.



Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.



Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: A morte
É simples, de madrugada...


Vinicius de Moraes

10 comentários:

Papoila disse...

Vim cheirar um pouco da planicie ... a ver se agarro girassóis perdidos, encontro Vinicius de Morais, poesia profunda.
~
beijos
bf

Isabel-F. disse...

belissimo ...

bjs e boa semana

Anónimo disse...

Jantar da Associação Cantinho dos Animais de Beja

Sexta-feira – 20 de Julho
Pelas 20.30 horas
Restaurante “Manjar do Rei”
(Centro Comercial D. Manuel I, perto do “Jardim de Bacalhau”)


Marcações: No próprio restaurante ou pelo tlm 934454683
Custo do Jantar: 11€ por pessoa. Inclui: Entradas, dois pratos (carne e peixe), bebidas (excepto bebidas brancas e garrafas), café e sobremesa.
Nota: No acto da inscrição é necessário deixar um sinal de 5€.
Mais informações: 967788295

Contamos com a vossa presença!

bitu disse...

Garcia Lorca...Vinicius de Morais...bela escolha....só podia vir mesmo do Alentejo.
beijocas e boa semana

Manel do Montado disse...

De pé, embora não me vejas, aplaudo este teu post por tudo de bom e até de mau que me recorda.
Parabéns, está extraordinário este poema de Vinicius dedicado à memória de Garcia Lorca, barbaramente assassinado pelas hordas falangistas de Franco.
Um abraço

peciscas disse...

Quem melhor do que o imortal Vinicius para cantar esse ignóbil assassinato do poeta de Granada?

Um Momento... disse...

Vinicius...que tanto gosto
Parabéns , por relembrar
Beijo ... bem aí(*)

Entre linhas... disse...

O grande imortal Vinicius...
adorei.
Bjs Zita

Menina_marota disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Menina_marota disse...

Vinicius a "cantar" uma morte, cuja crueldade do seu fuzilamento, não será esquecida e viverá através das suas palavras para todo o sempre.


Um abraço