domingo, setembro 30, 2007

Antigamente havia em mim...

Foto de Mariah-Olhares



Antigamente havia em mim um nome gravado a fogo e eu
morria por ele. Eu fechava os olhos e o nome pedia-me a luz,
a manhã, a música. Antigamente eu imaginava a delicadeza,
as florestas, os bosques reduzidos ao silêncio pelos subterrâneos

da tarde, e ser tocado no rosto era ser ferido por uma imensa
beleza, pelos olhos da planície, como um animal adormecido,
como um lugar onde deitar a cabeça e adormecer sonhando
com o deserto. No deserto eu estava a salvo, caminhando nos

declives e havia palavras imensas, palavras como o trigo e o mar
e as raízes e os relâmpagos e um rosto e os campos do Outono
e isso era como ficar cego no meio da luz estremecendo entre
as poeiras, as cores da manhã, as veredas dos bosques. E eu olho

fixamente esse rosto de fogo, toco uma vez essas mãos, amo
demoradamente a distância, comovo-me perdido na sua
voz, enquanto passa no mundo uma estranha ventania.



Francisco José Viegas

sábado, setembro 29, 2007

Uma noite com... Che Guevara





Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um Revolucionário.

(Che Guevara)



No dia 8 de Outubro completam-se 40 anos sobre o assassinato de Che Guevara, na Bolívia.

No dia 13 de Outubro próximo, Movimentum - Arte e Cultura em colaboração com o Grupo Dramático e Musical Flor de Infesta, apresenta "Uma Noite com... Che Guevara", com a participação de Albino Santos, Carlos Andrade, Fernando Fernandes, Fernando Peixoto, Maria Mamede e Roberto Merino.





Não esquecer:

"Uma noite com... Che Guevara"


Sábado, 13 Outubro 07

21,30 horas

ANFITEATRO DO GDM FLOR DE INFESTA

Rua Padre Costa, 118

4465 S. Mamede Infesta


Hasta Siempre, Comandante Che Guevara

Aprendimos a quererte
Desde la historica altura
Donde el sol de tu bravura
Le puso cerco a la muerte

Estribillo:

Aqui se queda la clara
La entraniable transparencia
De tu querida presencia
Comandante Che Gevara

Vienes quemando la brisa
Con soles de primavera
Para plantar la bandera
Con la luz de tu sonrisa

Estribillo

Tu mano gloriosa y fuerte
Sobre la historia dispara
Cuando todo Santa Clara
Se despierta para verte

Estribillo

Seguiremos adelante
Como junto a ti seguimos
Y con Cuba te decimos
Hasta Siempre, Comandante

sexta-feira, setembro 28, 2007

Mais uma noite, amor

Foto de Alina Lebedeva





Mais uma noite, amor. Ao recordar-te
retomo os fins do mundo, a cinza, os dias
manchados de outras lágrimas. Sabias
como eu a cor das sombras, essa arte

que nos engana agora e se reparte
por esquinas e cafés. Já não me guias
os muitos passos vãos, as fantasias
da minha falsa vida. Vou deixar-te

fugindo-me. Na chuva, sem ninguém,
apenas alguns vultos, o que vem
«e dói não sei porquê» - este deserto

onde te vejo, imagem outra vez,
até de madrugada. O que me fez
sentir o muito longe aqui tão perto?



Fernando Pinto do Amaral

quinta-feira, setembro 27, 2007

Sê suave no pisar...

Foto de Sergey Rizhkov



Tivesse eu os tecidos bordados dos céus,

Lavrados com a prata e o ouro da luz,

Os tecidos azuis e foscos e de breu

Que têm a noite, a luz e a meia-luz

Estenderia esses tecidos a teus pés:

Mas eu, porque sou pobre, apenas tenho sonhos;

São os meus sonhos que eu estendi a teus pés;

Sê suave no pisar, que pisas os meus sonhos.



YEATS


"William Butler Yeats nasceu em 13 de junho de 1865, em Dublin, Irlanda, onde se desenvolveu em um meio culto e criativo. Poeta e autor teatral, Prêmio Nobel (1923) de Literatura. Foi o representante máximo do Renascimento irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX.Faleceu em 1939"

terça-feira, setembro 25, 2007

Dilema

Foto de Gary Whalen



Você passou por mim despercebida,
Levando em cada passo uma saudade.
E ao perceber tamanha realidade,
Fui definhando em toda a minha vida.

As ilusões, os sonhos, na verdade
Você levou em rápida corrida...
Restando uma lembrança dolorida,
Desse romance morto em tenra idade.

No mais, tudo passou rapidamente.
Você partiu precipitadamente,
Deixando esse vazio que ficou...

E ao relembrar o nosso antigo ninho,
Sinto esse medo de ficar sozinho,
Sem mesmo nem saber quem hoje sou!



Alberes Cunha

segunda-feira, setembro 24, 2007

O meu amor não cabe num poema





O meu amor não cabe num poema ― há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
os quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto ―
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura a mão que protege a chama que estremece.

O meu amor não se deixa dizer ― é um formigueiro
que acode aos lábios com a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente os segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome ― é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. nenhum poema
podia ser o chão a sua casa.



Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, setembro 20, 2007

Carta de Amor

Foto de Matthew Bowden



Para te dizer tão-só que te queria
Como se o tempo fosse um sentimento
bastava o teu sorriso de um outro dia
nesse instante em que fomos um momento.

Dizer amor como se fosse proibido
entre os meus braços enlaçar-te mais
como um livro devorado e nunca lido.
Será pecado, amor, amar-te demais?

Esperar como se fosse (des) esperar-te,
essa certeza de te ter antes de ter.
Ensaiar sozinho a nossa arte
de fazer amor antes de ser.

Adivinhar nos olhos que não vejo
a sede dessa boca que não canta
e deitar-me ao teu lado como o Tejo
aos pés dessa Lisboa que ele encanta.

Sentir falta de ti por tu não estares
talvez por não saber se tu existes
(percorrendo em silêncio esses altares
em sacrifícios pagãos de olhos tristes).

Ausência, sim. Amor visto por dentro,
certezas ao contrário, por estar só.
Pesadelo no meu sonho noite adentro
quando, ao meu lado, dorme o que não sou.

E, afinal, depois o que ficou
das noites perdidas à procura
de um resto de virtude que passou
por nós em co(r)pos de loucura?
Apenas mais um corpo que marcou
a esperança disfarçada de aventura...

(Da estupidez dos dias já estou farto,
das noites repetidas já cansado.
Mas, afinal, meu Deus, quando é que parto
para começar, enfim, este meu fado?)

No fim deste caminho de pecados
feito de desencontros e de encantos,
de palavras e de corpos já usados
onde ficamos sós, sempre, entre tantos...

Que fique como um dedo a nossa marca
e do que foi um beijo o nosso cheiro:
Tesouro que não somos. Fique a arca
que guarde o que vivemos por inteiro.


Fernando Tavares Rodrigues


(Fernando Jácome de Castro Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa, no dia 7 de Março de 1954. Professor universitário, sociólogo e escritor, faleceu em Lisboa, no dia 1 de Março de 2006.

Formado pela Universidade Nova de Lisboa em Ciências Humanas e Sociais (Economia e Sociologia), estudou também Comunicação Social e preparou tese de doutoramento em Ciências da Informação e da Comunicação, no Instituto de Psicologia Social Louis Pasteur, em Estrasburgo.

Interessou-se também pela carreira diplomática acabando, porém, por se iniciar no jornalismo em 1974. Como jornalista ingressou em 1974 no Diário Popular tendo, posteriormente, transitado para o Correio da Manhã, mas é ao ensino que dedica grande parte do seu tempo, assim como actividade literária, especialmente à poesia.
Publicou diversos livros, entre os quais, "Memórias de corpo inteiro", "(Ur)gente", "(A)mar", "Concerto para uma voz", "Talvez amanhã", "Depois do amor" , "O amor (im)possível" e "XXI Sonetos de Amor".

ALVITO - DIA MUNDIAL DO TURISMO E JORNADAS EUROPEIAS DO PATRIMÓNIO









A Câmara Municipal de Alvito, à semelhança de anos anteriores, preparou um programa de actividades de bastante interesse para comemorar o Dia Mundial do Turismo e as Jornadas Europeias do Património, que integra o programa nacional do IGESPAR, I.P. (ex- IPPAR).

Sob o lema, O Património em Diálogo, foi elaborado o programa das comemorações, que pretende divulgar o património nas suas várias dimensões e chamar a atenção de todos para a necessidade de o preservarmos e o valorizarmos enquanto herança de um povo.

Programa

27 de Setembro
Inauguração da Exposição de Fotografia, "Scintille" de Nicola di Nunzio
Centro Cultutal de Alvito, às 18h00

29 Setembro
Concerto com Coro Polifónico de Almada
Igreja Matriz de Alvito às 18h00

30 Setembro
Inauguração do Percuso Pedestre "Rota de Sant'Águeda"
Praça da República de V.N.Baronia às 8h30
(haverá transporte de Alvito para V.N. Baronia às 8h15, na Praça da República)

30 de Setembro e 1 de Outubro
Jornadas sobre Olivais e Azeites
Centro Cultural de Alvito

domingo, setembro 16, 2007

Seus olhos tão negros...

Foto de Alex Krivtsov



Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta
De noite cantando, — mais doce que a frauta
Quebrando a solidão,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travessos; — causando tormento,
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto humedece
Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquilo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
Às vezes do céu
Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se veste
De pranto co'um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.


Gonçalves Dias

sexta-feira, setembro 14, 2007

Desafio





Desafio lançado por Jorge Vicente, Amoralva:

1- Pegar no livro mais próximo

2- Abri-lo na página 161

3- Procurar a 5ª frase completa

4- Colocar a frase no blog

5- Não escolher a melhor frase nem o melhor livro (usar o mais próximo)

6- Passar o desafio a 5 pessoas

"E andei eu a viver a morte que vivia disfarçada em amor na minha cela!"

(Miguel Torga, Antologia Poética, pg. 161

As 5 pessoas:

CARTAS SEM VALOR

O BOM GIGANTE

MARIA

ESTRANHOS DIAS E CORPO DE DELITO

FUNDAMENTALIDADES

Poema do regresso

Foto de Stanmarek (One Photo)


Venho do fundo escuro de uma noite implacável,
e contemplo os astros com um gesto de assombro.
Ao chegar à tua porta me confesso culpável,
e uma pomba branca se me pousa no ombro

Meu coração humilde se detém em tua porta,
com a mão estendida como um velho mendigo;
e teu cachorro me late de alegria na horta,
porque, apesar de tudo segue sendo meu amigo.

Ao fim cresceu o roseiral aquele que não crescia
e agora oferece suas rosas atrás da grade de ferro;
Eu também hei mudado muito desde aquele dia,
pois não tem estrelas as noites do exílio.

Talvez tua alma está aberta atrás da porta fechada;
porém ao abrir tua porta, como se abre a um mendigo,
olha-me docemente, sem perguntar-me nada,
e saberás que não hei voltado... porque estava contigo.



José Angel Buesa
Tradução Maria Teresa Almeida Pina

quinta-feira, setembro 13, 2007

Cheguei a casa há pouco...

Foto de Rui Cardoso




Cheguei a casa há pouco e amanhã
celebrarei contigo pla primeira vez
esse dia que alguém convencionou
ser para os namorados: eu e tu,
dois seres quase sonâmbulos,
afogados em histórias mal cicatrizadas
que extravasam ao longo de conversas
plas estradas nocturnas por onde fugimos
da vida que nos dói: velhos amores
refulgindo na tua memória,
na minha fantasia que os volta a viver
em ti, por ti, como se também eu
ressentisse na pele o sabor desses beijos
esvaindo-se no tempo, que lhes toca,
ao de leve, com lábios de veludo,
e os arrasta num caudal de espectros
de vagas silhuetas, na penumbra
que foi a minha vida até chegar a ti.


Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, setembro 11, 2007

ALENTEJO - NOTÍCIAS

Dórdio Gomes



Projectado há algum tempo só hoje foi possível publicar na blogosfera o ALENTEJO - NOTÍCIAS.

Por razões óbvias começámos a sua publicação pelo Baixo Alentejo mas pretendemos englobar nesta idéia também o Alto Alentejo.

As fontes de pesquisa para composição deste blog são as Câmaras Municipais, seus sites e boletins além doutras informações credíveis que nos cheguem pelas mais diversas vias.

Neste blog reuniremos assim, para facilidade de consulta, todas as informações sobre os mais diversos acontecimentos a decorrer no nosso Alentejo.

A apresentação será pela ordem alfabética dos Municípios.

Esperamos seja do agrado geral e em particular de todos os Alentejanos.

Noite

Foto Galerie Von Karl-Heinz




Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que julguei perdida.

Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,

Rios de palidez que escorre
Sobre os campos a lua cheia,

Ansioso subir de cada voz
Que na noite clara se desfaz e morre.

Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem

Tristeza das cigarras a cantar.

Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, setembro 09, 2007

Ardente Desejo

Foto de Oleg Kosirev







Vem dormir nos meus sonhos,

Traz promessas aos meus desejos.

Sem pejo, despudoradamente,

Pressente meus anseios,

Me banha com teus beijos,

Me inunda de paixão,

Conduz a minha mão

Ao encontro dos teus seios

E, sem pressa, devagarinho,

Ensina-lhe o caminho,

E deixa que meus dedos,

Na avidez da ansiedade,

No roçar de mil meneios,

Te incendeiem de emoção o peito.

Flutuarás então na excitação,

A mesma que todas as noites

Me põe na tua direção,

Vagando em pensamentos

Buscando nossos momentos,

Esperando que de repente, num açoite,

Saltem do imaginário pro real

E nos atirem do sonho para o leito.



Autor : Francisco Simões.

terça-feira, setembro 04, 2007

Poema del renunciamento

Foto Piotr Kowalik



Passarás por minha vida sem saber que passaste
Passarás em silêncio por meu amor e, ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
de dor de querer-te... e jamais o saberás.


Sonharei com o nácar virginal de tua testa;
sonharei com teus olhos de esmeralda de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos... e jamais o saberás


Talvez passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca... e jamais saberás.


Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca conseguirei realizar;
e o longínquo perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos... e jamais o saberás


E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento
o tormento infinito que devo ocultar
te direi sorridente: "não é nada...foi o vento".
Me enxugarei a lágrima... e jamais o saberás


José Angel Buesa - Poeta cubano 1910/1982

Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

segunda-feira, setembro 03, 2007

Quanto, quanto me queres ?

Foto Anthony Schuber



Quanto, quanto me queres? - perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...

Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...

Não perguntes, não sei - não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.

António Botto (1900-1959)

domingo, setembro 02, 2007

O PALÁCIO DA VENTURA




Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, O deserdado...
Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d’ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!


Autor - Antero de Quental


Foto - William Chapman

sábado, setembro 01, 2007

MULHER




Chamam-te linda, chamam-te formosa,
Chamam-te bela, chamam-te gentil...
A rosa é linda, é bela, é graciosa,
Porém a tua graça é mais subtil.


A onda que na praia, sinuosa,
A areia enfeita com encantos mil,
Não tem a graça, a curva luminosa
Das linhas do teu corpo, amor e ardil.


Chamam-te linda, encantadora ou bela;
Da tua graça é pálida aguarela
Todo o nome que o mundo à graça der.


Pergunto a Deus o nome que hei-de dar-te,
E Deus responde em mim, por toda parte:
Não chames bela – Chama-lhe Mulher!


Poema de Rui de Noronha
(Escritor moçambicano 1909-1943)


Foto de Sergey Ryzhkov