segunda-feira, julho 28, 2008

VONTADES e NA TUA VIDA





VONTADES


Tenho vontade
duma coisa doce
como se fosse
vontade de ti;

Tenho vontade
duma coisa suave
como canto de ave
que a cantar sorri;

Tenho vontade
de algo diferente
que deixe semente
agora e aqui;

E tenho vontade
de dizer ao mundo
que dói, muito fundo
a vida, sem ti!...




NA TUA VIDA


Eu quero ser na tua vida um gesto!
A ternura dum beijo dado a medo
nem passeata, discurso ou manifesto
canção de ninar ou de protesto
um gesto, um simples gesto
ou um segredo!
Eu quero ser na tua vida, um ponto!
ponto de combustão, ponto do prumo
ponto cardeal ou contra ponto
o ponto final dum texto pronto
um ponto
partida ou chegada a qualquer rumo!
Eu quero na tua vida o nada!
Ausência total, coisa nenhuma
vazio absoluto, nada, nada
nada de porta aberta, escancarada
o nada
todo brisa, todo bruma!
Eu quero ser na tua vida cheiro!
Forte, que perturba, que inebria
mas não de poder ou de dinheiro
um cheiro de povo
um simples cheiro
de giesta de serra e maresia!...


MARIA MAMEDE

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DE AMOR E DE TERRA

sábado, julho 26, 2008

AO LUAR

Pintura de Jaoni



Que linda vai a noite, que calor!
Tudo em repouso já ... Só o luar
Nostálgico e morno anda a boiar
Encharcando de luz tudo em redor


Que aroma subtil, jasmins em flor...
Há restos de canções ainda no ar
E dentro em mim o sangue, a latejar,
Arde em desejos loucos de amor

Ah, pudesse eu beijar-te, longamente...
Apertar-te em meus braços como outrora,
Aninhar-te em meu peito ternamente,


Sentir-te toda minha nesta hora.
Já que tão triste e só e descontente
Sem ti, a minha vida corre agora!



António Melenas


terça-feira, julho 08, 2008

ÚLTIMA FRONTEIRA

Foto de Arian Bahrami


Delirando entre sonhos,
verdades, desejos
e loucuras,
entre o toque da caneta no papel
e o teu sorriso,
é tão curta a distância
dos meus braços aos teus.
É tão fácil tocar os nossos lábios.
É tão curto o caminho.

Fico a pensar o que busco em ti,
na cor do silêncio nocturno
enquanto o desejo alastra,
insubmisso,
como se procurasse
um esconderijo urgente.
Como se a penumbra tivesse olhos
e pudesse ver através da noite.

Depois,
deslizas como o vento
propagando sem destino
surpresas e carícias,
suavidade e tumulto.
Tão subtil, tão viva,
azul... sempre azul…
Júbilo da nudez,
insana fantasia
num delírio fulvo de luz.

Encantado gozo
como rios de prosa a versejar
ao longo do teu corpo
transbordando poesia.
Corpos ondulantes
em delírios de amor,
esperando suplicantes
o momento redentor.


ALBINO SANTOS

domingo, julho 06, 2008

PRESENTE

Foto de Gregória Correia - Olhares



PRESENTE


Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.


Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.


E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas, nem repetir as palavras do poema,
para saber o que significa o amor.


Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.



Nuno Júdice

O Estado dos Campos

quarta-feira, julho 02, 2008

NÃO ADORMEÇAS: O VENTO AINDA ASSOBIA NO MEU QUARTO

Foto de Nuno Manuel Baptista-Olhares





Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.



Maria do Rosário Pedreira
de A Casa e o Cheiro dos Livros