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ATÉ SEMPRE PROFESSOR FERNANDO PEIXOTO




FERNANDO PEIXOTO Professor de História do Teatro na ESAP - Escola Superior Artística do Porto. Na Universidade do Porto investigador de História Contemporânea na área da Política Institucional .
Estava doente há poucos meses, mas era grave e não conseguiu ganhar esta batalha.





TEATRO

Para o Marcelo Romano, com a admiração do autor


Fazer teatro, não é
deixar a vida correr,
cruzar os braços, viver,
deixar correr o marfim;
e se às vezes se diz sim,
muitas vezes se diz não.
Embora custe ao actor
manter o direito ao pão,
não hesita em dizer NÃO
quando um NÃO é a verdade,
e mantém a liberdade
de dizer que não, que sim,
por questão de dignidade,
porque o Teatro é assim.
Porque o Teatro é a vida
e a verdade é o seu norte,
o actor desafia a sorte
e a mentira é vencida.

Mas na luta desigual
entre a verdade e a mentira,
se nuns despoleta a ira,
noutros reforça o Amor,
e nesta dicotomia
que é o Teatro, afinal,
vence o Bem, que é a Verdade,
cai a Mentira, que é o Mal.
E a máscara da ilusão
com que o homem se disfarça
fica prostrada no chão
ante o humor de uma farsa.

Sempre assim foi e será
(é essa a nossa certeza)
porque o Teatro é a manhã
que dá vida à natureza,
porque o Teatro é a alegria
de saber que vale a pena
transferir o dia-a-dia
para o âmago da Cena.
E repleto de esperança,
sereno, firme e seguro,
o actor é uma criança
que acredita no futuro.

E faz da crença um Amor
tão largo, grande e profundo,
que mesmo pobre, o Actor,
é o mais rico do mundo!


FERNANDO PEIXOTO

Portugal

Comentários

Brancamar disse…
Que bela homenagem aqui deixas a este nosso amigo.
Percorri desde ontem de manhã vários sítios com os seus poemas, com a sua biografia, mas este é o primeiro poema de Fernando Peixoto que leio sobre teatro. Estou a ler a "Linguagem do silêncio" que tive o previlégio de ter há poucos meses generosamente oferecido pelo próprio e onde se vê bem o génio do autor, também as marcas de uma guerra colonial que deixou cicatrizes. Mal soube do triste aconteceimento em cima da hora das cerimónias fúnebres, encontrei em http://chavedapoesia.blogspot.com/ o seu último poema, que passei para o meu sítio, e que é impressionante pela forma como marca uma despedida antecipada em poucos dias, de uma sensibilidade e gentileza tremendas, como só o Fernando sabia. Deixo-to aqui.
Bem hajas.
Beijinhos.

« RE-PARTINDO... »

Sei que contigo vão partir
memórias de um tempo partilhado,
dias breves que hoje são passado
e podiam no entanto ser porvir.

Sei que levas na bagagem a lembrança
dos olhos nimbados de tristeza
mas também o brilho da bonança
que alimenta a tua natureza.

Mas se partes, apenas uma parte
vai contigo rasgando o mar e o vento:
que outra parte de ti já se reparte
na minha memória e pensamento.

24 de Agosto de 2008
FERNANDO PEIXOTO


* 25 de Julho de 1947
+03 de Outubro de 2008
Vila Nova de Gaia - Portugal
Anónimo disse…
Agora será sem duvida uma estrela que ilunirá do céu todos os palcos...
lembro-me de ter declamado esse poema numa aula e de como fiquei emocionada...
Era GRANDE este SENHOR! sinto que ainda tinha tanto para me ensinar...



Vera Barbosa
Olhos de mel disse…
Oie lindinho! Como sempre um belo cantico poético! Uma homenagem a pessoas que realmente, merecem!
Beijos
Sophiamar disse…
Obrigada, amigo! Recordaste um amigo inesquecível. Lá, onde ele vive agora, que a paz o acompanhe. Aqui,continuará nos nossos blogs, no nosso pensamento, nos nossos corações.
Bem hajas!

Beijinhos
Anónimo disse…
Obrigada por tudo!
Abraço
Paulo Pato

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Cantiga para não morrer de Ferreira Gullar

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moça branca como a neve,
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.
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.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar

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Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

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