sábado, novembro 29, 2008

CASTRO ALVES


Castro Alves, o condoreiro. Símbolo maior do romantismo brasileiro




"Castro Alves e outros poetas quase meninos"

"Eram quase meninos. Todos geniais, aqueles poetas românticos do século XIX. Rapazes de amores, desamores, amados e desamados, atormentados, inquietos, arrojados na vida e fiéis à escola literária que consagraram. Sem favor nenhum, formaram a mais fecunda e bela geração da poesia brasileira. Eis alguns deles: Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire. Quase todos morreram no verdor da mocidade.
Castro Alves (1847-1871) foi o que voou mais alto nas asas da poesia. Tuberculoso no começo da juventude, viveu cada dia como se fosse o último."

Fonte: OVERMUNDO






Foto de Angelica - Olhares


Boa-noite

Boa noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio...
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa noite!... E tu dizes – Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não me digas descobrindo o peito,
– Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve.. a calhandra
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-dalva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo dalvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
– Desmanchado o roupão, a espádua nua –
o globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
– São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
– Boa noite! –, formosa Consuelo...



foto de Marco Niemi - Olhares

Beijo eterno

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!

...

Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!




Foto de J.P. Sousa - Olhares

“Oh! eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
- Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas.
Vem! formosa mulher - camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas,
Minh'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas ...
E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: - impossível!”

quinta-feira, novembro 20, 2008

ALDA GUERREIRO


Foto de JOÃO ESPINHO



ALDA GUERREIRO

Nasceu em Santiago do Cacém, a 6 de Janeiro de 1878.

Educada num ambiente de intensa sensibilidade artística, desde muito cedo se interessou pela poesia, e também, talvez por influência familiar, dado que, foi cunhada de António Manuel Freire de Andrade, um dos fundadores da comissão concelhia do Partido Republicano Português, por problemas sociais e pelas ideias republicanas..

Em 1909 escreveu:
"Fundemos escolas com todas as condições modernamente empregadas, onde as creanças se desenvolvam, se instruam, se eduquem".

Em 1 de Janeiro de 1910, fundou a Associação Liberal de Santiago do Cacém, que manteve, pelo menos até 1914, a Escola Liberal, instituição, onde esta poetisa-professora, desempenhou um papel notável, sobretudo na organização de actividades, que hoje chamaríamos de complemento curricular, como "festas da árvore", "visitas de estudo" e "sessões comemorativas do aniversário da escola".

A partir de 1909, dinamizou ainda uma outra escola particular, em sua casa, até praticamente ao final da sua vida: a "Escola Livre de S. Thiago do Cacém", por onde passaram gerações de jovens, algum dos quais ainda vivos.

Ainda em sua casa, criou uma outra "escola" de ensino artístico de bordados, aberta às jovens de Santiago .

Na década de 30 colaborou na revista "Portugal Feminino" .

Apoiou e colaborou um pequeno jornal de Sines, dedicado aos jovens "A Juventude".

Idealizou, fabricou e distribuiu um interessante jornal manuscrito, intitulado "O Jornal das Creanças".

Para Alda Guerreiro, a imprensa desempenhava um importante papel na educação popular, com vista à formação de uma consciência liberal e democrática.

Mais conhecida pela poesia, que viu publicada e dispersa por inúmeros jornais e revistas, foi incluída em duas importantes antologias, uma sobre Poetisas Portuguesas, em 1917, e outra sobre os Poetas Alentejanos do Século XX, em 1984.

As suas ideias e acção foram um marco no seu tempo. Militou pelo ensino popular, sob a bandeira republicana e bateu-se pela ideia generosa de formação integral dos jovens.O seu exemplo e a sua obra ignorada, marcaram a vida social e cultural do Alentejo Litoral.

Faleceu em 1943 (?)

Fonte: Centro Actividades Pedagógicas-Alda Guerreiro





Sementeira

Na encosta de uma serra havia um carrascal
Onde nascia o tojo, a esteva, um matagal.
Um dia entrou com êle a foice roçadoura;
Meteram a charrua e fez-se a lavoura.
Foi revolvida a terra e feita a sementeira.
Algum tempo depois, já parecia um mar
O vento sobre o trigo ao longe a ardear!
Foi crescendo, crescendo; a espiga bem dourada
Com o calor do estio em pouco foi ceifada.
E produziu bom pão o terreno maninho,
Onde apenas vencia a urze e o rosmaninho!


Agora quando eu olho essa encosta da serra,
Vejo que é uma lição que nos ensina a terra!


A sociedade é o monte. A escola é o arado.
Quando abrindo o sulco, olhai vá bem guiado...
Depois é semear. Será bela a colheita
Se a semente fôr bôa, e a lama fôr bem feita.


Também hão de dar pão essas searas novas
E darão muita luz à humanidade inteira...


Abri a terra, abri, fazei a sementeira...



Foto de JOÃO ESPINHO




A minha terra

No inverno a vida apraz-nos meditar.

Quando ao entardecer, aqui na Minha Terra
Se vê sumir o sol no longe azul do mar,
O pensamento vôa e vai de serra em serra
No campo do passado às vezes a sonhar.

O oceano lembra os feitos arrojados
Do velho Portugal!
Aquem, alvos casais, em fundo verdejante
De grande pinheiral,
Fala-nos de trabalho e vida, actividade,
Saúde e alegria, e sol, e liberdade...

No antigo castelo abrigo de tristezas
Muralhas, que ouviriam a mouros e princezas
Trocar frases de amor,
Unidas num abraço, agora enegrecidas
Rodeiam condoidas
Um circulo de dôr!

É como que em contraste ao campo sorridente
Que atesta mocidade,
À sombra do castelo erguido ao Oriente
Aqueles que eu perdi descançam docemente
Envoltos em saudade.

Horas de entardecer agrada meditar.
O pensamento vôa e vai de serra em serra...
O sol mergulha além na fita azul do mar
No dôce pôr do sol da minha linda Terra!



Foto de JOÂO ESPINHO






O ALENTEJO É LÁ


É lá onde o Sol desce a violar

a terra provocante de nudez,

que emprenha uma e outra e outra vez,

de Sonhos, que já cansa de abortar...



É lá onde a lonjura por lavrar

nem sombras a dividem lés-a-lés...

Só a noite a parcela e faz mercês

erguendo muros brancos de luar.



É lá onde se chora de cantiga

no embalar dolente a dor antiga

que desperta, se agita e faz ruim...

Onde há suor em bagas pela eira,

e esp'ranças crepitando na lareira,


- O ALENTEJO é lá ... e é EM MIM.

REPONDO A VERDADE: Até hoje supunha, por lapso, que o poema anterior e o seguinte eram de autoria de ALDA GUERREIRO mas acabo de receber a informação de que são de ADA TAVARES. Apresentei desculpas à verdadeira Autora através de sua Filha Elsa Vieira e aqui venho também dar o seu a seu dono.
10 de Março de 2010



Foto de MARIA MADALENA PERCHEIRO-OLHARES





HOJE HÁ PÃO ALENTEJANO?



Esta frase tão ouvida

neste tom interrogado

não é sentença perdida

nem um pregão inventado,

nem dito voando à toa ...

Oh senhores, mas quem diria

que eu ia ouvir isto um dia

aos balcões de Padaria

desta moderna Lisboa?!


"Hoje há pão alentejano?!"



E se o empregado diz:

-"Olhe, acabou de chegar."

ri a freguesa feliz

e estende o saco apressada

pois não vá ele acabar ...

e pede firme, sem graças,

que não pode haver engano:

"Ponha-me aí dez carcaças

e um pão alentejano".


Ai é vê-lo meus amigos,

este pão que era só nosso,

o nosso Bem de raiz,

sem pretensões, sem ganância,

como ganhou importância,

como ganhou um País.

Todos o querem agora,

por inteiro ... uma fatia ...

umas migalhas ... um naco

...Pão nosso de toda a hora

que é farinha doutro saco.


Venham vê-lo na Taberna

ou no fundo duma Adega

como alegra o camponês:

-ensopa o copo de três

-abafa raios e coriscos

-faz de cama prós petiscos

...e aconchegada a barriga

logo a voz se faz cantiga,

põe-se o Sol, vai-se a fadiga

que a noite mal começou,

e..."às quatro da madrugada

um passarinho cantou..."



Ó pão do meu Alentejo

que bela lição tu deste

na tua nobre humildade,

e como tu aprendeste

a usar fraternidade.?

E sem briga, e sem guerra,

sem essa confusão louca,

deste nome à nossa terra,

levaste-a de boca em boca...

Pois também vai a banquetes

e a solenes beberetes

nas salas bem afamadas,

posto assim em pedacinhos,

feito "tapas" e "entradas",

regado com os melhores vinhos.

É o mais requisitado, pedido

por encomenda,

e vai em naperons de renda

até à mão de ministros.

E deu no goto a estrangeiros

e a certos senhores bem vistos

que o acham uma riqueza

e o querem na sua mesa ...

Não se recusa a ninguém,dá-se a ricos,

pobrezinhos,a crianças e a velhinhos

e aos doentes também.


Pão de Paz ! Pão de Alegria !


Pão de Amor! Pão de Verdade!


É como nós neste dia,

uma mistura sadia

de renovo e de saudade.

quarta-feira, novembro 12, 2008

MANUEL ALEGRE




Eu pescador
Eu pescador que pesco por um instinto antigo
e procuro não sei se o peixe se o desconhecido
e lanço e recolho a linha e tantas vezes digo
sem o saber o nome proibido.

Eu de cana em punho escrevo o inesperado
e leio na corrente o poema de Heraclito
ou talvez o segredo irrevelado
que nunca em nenhum livro será escrito.

Eu pescador que tantas vezes faço
a mim mesmo a pergunta de Elsenor
e quais águas que passam sei que passo
sem saber resposta. Eu pescador.

Ou pecador que junto ao mar me purifico
lançando e recolhendo a linha e olhando alerta
o infinito e o finito e tantas vezes fico
como o último homem na praia deserta.

Eu pescador de cana e de caneta
que busco o peixe o verso o número revelador
e tantas vezes sou o último no planeta
de pé a perguntar. Eu pescador.

Eu pecador que nunca me confesso
senão pescando o que se vê e não se vê
e mais que o peixe quero aquele verso
que me responda ao quando ao quem ao quê.

Eu pescador que trago em mim as tábuas
da lua e das marés e o último rumor
de um nome que alguém escreve sobre as águas
e nunca se repete. Eu pescador.



Poema de Manuel Alegre



Imagem de Osvaldo Barreto (In Veneza dos Brasileiros)

domingo, novembro 09, 2008

terça-feira, novembro 04, 2008