quarta-feira, setembro 17, 2008

JORGE VICENTE





Hoje trago a esta galeria "Dando Voz Aos Poetas" o meu amigo JORGE VICENTE.

Gostaria de possuir um pouco da cultura que preenche este Amigo e o dom da palavra para o poder apresentar condignamente.
Na ausência dessas qualidades arrisco, no entanto, a apresentá-lo como um Poeta promissor já com obra publicada (Ascensão do Fogo), escritor, crítico de cinema e de música. Convido-vos a visitar o seu blog AMORALVA e a colher ali todo um manancial de conhecimentos e opiniões que JORGE VICENTE partilha connosco.

Também aproveito a ocasião para o felicitar pelo seu aniversário que festeja hoje desejando-lhe muitas felicidades.

Um grande abraço do amigo

Lumife




Algumas palavras de JORGE VICENTE retiradas do seu blog AMORALVA:


o meu corpo é da carne do alentejo:
a flor, sedenta, apenas dá fruto
quando o poema anoitece e o
descampado se revela
na sua ascese de séculos

jorge vicente


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gabriel. deixa-me escrever-te um poema. um poema que diga do meu nome, da sabedoria inerente a todas as coisas. dessas pequenas palavras que só os justos conhecem, como se fosse algo imanente ao mundo. e partisse dele. e o rebentasse.

deixa-me ser um rebento azul. anterior à terra e à sementeira das águas. nunca poderei ser mãe. nem pai. apenas um invólucro de giz envolto em mil pontos de luz.

deixa-me escrever-te um poema, como se fosse uma carta. ou um rol de pedidos dirigido às mais altas entidades. nunca perceberei o significado de ser pai ou mãe. ou uma terra aberta no desfloramento da alma.

anuncia o teu amor. anuncia-me. e cai. cai como se fosses único, como se a cor vermelha não te afligisse e visses o homem no lugar do anjo.

jorge vicente


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o casario estendia-se muito para além do silêncio das casas. era noite e a madrugada adormecia os homens, pequenos pontos vermelhos que iluminavam a grande noite alentejana. o vento carpia nuvens de fogo, alimentado por corpo de trovoada, que circundava os homens. e as suas paredes de cal, construídas quando o sol ainda era pleno e a grande estrela do oriente iluminava silves, a bem-amada.

o casario estendia-se e a queimada carpia no incêndio de deus, mais antigo que as casas, mas submisso ao amor e à memória.

Jorge Vicente


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na casa da minha avó, havia paredes e mobílias velhas, pequenos segredos guardados por dentro, cheios daquelas memórias simples que evocamos sempre que ouvimos trovoada.

na casa da minha avó, escondíamo-nos debaixo dos lençóis brancos, feitos de tecido antigo, da época da monarquia, numa era em que a pedra representava a montanha e o rio a memória.

na velha casa, a serra parecia parir fogo e a criança que era em mim pensou tratar-se de vulcão. eram apenas faíscas que se lançavam da cruz alta, com o fantasma d'el rei d.fernando olhando serenamente para o repouso silente dos homens.

no velho moinho e na velha casa, a minha avó dormia. e o rei guardava a serra, mirando o seu belo trabalho artístico e ajuntando os meus lábios ao rasto dos dedos que esculpiam a pedra.

Jorge Vicente


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na mais antiga noite do mundo,
silêncio haveria sempre,
silêncio de palavras,
como se a rocha ainda não esvaziasse
o sentido da pele,

da pele clara e seca da terra,
da terra simples e boa
que os antigos cultivavam ao raiar da treva.

na mais antiga noite do mundo,
só restaria a pedra e o mar
encapelado da palavra
encoberta.

Jorge Vicente