sábado, outubro 11, 2008

Luis de Camões

Pintor Adophe-William Bouguereau



Quem pudera julgar de vós, Senhora,

que com tal fé podia perder-vos,

e vir eu por amor a aborrecer-vos?

Que hei-de fazer sem vós somente uma hora?



Deixaste quem vos ama e vos adora;

tomastes quem quiçá não sabe ver-vos.

Eu fui o que não soube merecer-vos

e tudo entendo e choro, triste, agora.



Nunca soube entender vossa vontade

nem a minha mostrar-vos verdadeira,

ainda que está tão clara esta verdade.



Em mim viverá ela sempre inteira;

e, se para perder já a vida é tarde,

a morte não fará que vos não queira.



Transparências do Pintor Abreu Pessegueiro



Busque Amor novas artes, novo engenho

para matar-me, e novas esquivanças;

que não pode tirar-me as esperanças,

que mal me tirará o que eu não tenho.



Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças,

andando em bravo mar, perdido o lenho.



Mas, conquanto não pode haver desgosto

onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê.



Que dias há que na alma me tem posto

um não sei quê, que nasce não sei onde,

vem não sei como, e dói não sei porquê.



O beijo da pintora Maria Helena Pais de Abreu





Correm turvas as águas deste rio,

que as do Céu e as do monte as enturbaram;

os campos florecidos se secaram,

intratável se fez o vale, e frio.



Passou o verão, passou o ardente estio,

umas coisas por outras se trocaram;

os fementidos Fados já deixaram

do mundo o regimento, ou desvario.



Tem o tempo sua ordem já sabida;

o mundo, não; mas anda tão confuso,

que parece que dele Deus se esquece.



Casos, opiniões, natura e uso

fazem que nos pareça desta vida

que não há nela mais que o que parece.