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TALVEZ

Mendigo de Rembrant




Dá-me os andrajos vis com que mendigas,
E empresta-me o teu gesto à minha mão.
Das minhas mãos faz tuas mãos amigas,
E ensina-me a cantar essa canção.

Empresta-me os ouvidos com que escutas,
Mais tristes do que as tuas amarguras,
As gargalhadas dessas prostitutas
Que choram escondidas, às escuras.

Ensina-me a passar, como tu passas,
Medindo a imensidão de mil desgraças,
Por onde a dor, e sempre a dor, persiste.

Talvez que eu me contente com bem pouco,
E fique menos pobre e menos louco,
E o céu, ao meu olhar, bem menos triste.


António Celso – Asas Cinzentas


Comentários

Susana disse…
Olá Alvito!

Agosto é o mês das festas E TRADIÇÕES.

Tenho um desafio para si:

Desafio-o a participar na próxima blogagem colectiva "Festas e tradições" a decorrer em Agosto de 10 a 31. É um boa oportunidade para partilhar connosco as vossas festas e tradições únicas da sua terra, e quem sabe, ainda ganha admiradores visitantes para as conhecer.

Para participar, basta enviar, até dia 8 de Agosto, um e-mail com um texto original( Máx 25 linhas) e uma fotografia para : aminhaldeia@sapo.pt

Conto consigo!

Abraço, Susana
Andresa disse…
Talvez que eu me contente com bem pouco,
E fique menos pobre e menos louco,
E o céu, ao meu olhar, bem menos triste


Muito verdade... expetacular , adorei...



Andresa Araujo
mfc disse…
a vida é assim...
MARIA disse…
O poema é muito bonito.
Por vezes observando outra dor avaliamos melhor a dimensão da nossa.
Contudo isso não nos consola : só cada um é que sabe o que lhe trás sofrimento e, o que, mesmo pouco significando para terceiros, pode trazer-lhe um pouco de céu na terra...


Um beijinho, Lumife.

Maria
dida disse…
...também eu me contento com pouco. talvez.
visita-me.
antonior disse…
Gostei da sensibilidade que passa como um fio condutor por todo o conteúdo deste espaço.
Gostei deste post. Do poema e do desenho de Rembrandt.
Os clássicos são o esqueleto em que a contemporaneidade se deve estruturar.

Até breve.
Isabel-F. disse…
achei lindo este poema ... que não conhecia

bjs
Pjsoueu disse…
É sempre retemperante" voltar a este lugar, lendo os nossos poetas...

Lumife, obrigado!

Abraço

Pj
leonor costa disse…
Não conhecia este poema e achei interessante, pois abre-nos janelas parar vermos além de nós.Precisamos de dar mais valor à vida e, para isso, temos de olhar à nossa volta, em vez de nos centrarmos em nós próprios. Há muito que não vinha aqui...
Um abraço

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Cantiga para não morrer de Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
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.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
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me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
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menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar

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- Renasceste: liberta-te!

Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?

Emílio Moura



Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

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António Botto
Foto de Aleksandr Krivickij