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FONTE DE INSTABILIDADE

Opinião de Paulo Martins - Jornal de Notícias

Fonte de instabilidade

O político português que mais vezes se apresentou como ardoroso defensor da estabilidade política acaba de tornar-se uma fonte de instabilidade. Logo agora que os portugueses escolheram um caminho, é a Presidência da República que abre fogo cerrado, autorizando suspeitas de que Cavaco Silva vestiu a farda, pronto a dirigir as tropas da Oposição a partir de Belém. Fazendo, afinal, o mesmo que criticou a um seu antecessor, Mário Soares, quando ele próprio chefiava o Governo.

Não passa pela cabeça de ninguém que o cenário possa ainda ser pior do que um clima de guerrilha institucional que regresse aos remotos tempos em que os encontros entre primeiro--ministro e presidente eram gravados. Porém, se levadas à letra, as palavras ontem proferidas por Cavaco Silva arrepiam qualquer mortal.

Se o presidente desconfia que gente próxima do Governo (na comunicação ao país, aludiu a "destacadas personalidades do partido do Governo") lhe anda a vasculhar os emails, então deve ser consequente. E ser consequente, nesta altura do campeonato, é não indigitar José Sócrates para o cargo de primeiro-ministro. Não é de suspeitar que o chefe de Estado ainda esteja à espera das contas finais das legislativas - faltam os votos dos emigrantes - para ver se PSD e CDS ultrapassam o PS em número de deputados e assim convidar Ferreira Leite a formar Governo com Paulo Portas? Seria um golpe de Estado institucional, claro. Mas a verdade é que a Constituição não o obriga a entregar ao partido vencedor as chaves do Executivo. Sejamos claros: um presidente que se sente objecto de ultimatos vindos do Governo pode até vir a alegar que está em causa o regular funcionamento das instituições democráticas.

Que o caldo está entornado é mais do que evidente. Cavaco manteve-se em silêncio nas vésperas das eleições, alegando que não desejava condicionar a campanha - logo, as opções dos portugueses. Ao falar depois delas, condiciona, no mínimo, o Governo ainda em funções. Até porque a sua declaração explicou sem explicar o famoso "problema de segurança".

Um exemplo: não se percebe a alusão a um email trocado entre dois jornalistas, publicado por um jornal, associada à presumível violação do correio electrónico da Presidência. E também não se percebe por que não atacou mais cedo o problema, tão grave era. Discretamente, com pinças, com recurso a especialistas em informática que tornassem inexpugnáveis os computadores de Belém e com puxões de orelhas a quem tinha de puxar. Nunca na praça pública. Se o mais alto magistrado da Nação precisa de comunicar os seus receios ao povo em matéria tão sensível como a segurança das comunicações é caso para apreensão.

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