sexta-feira, março 06, 2009

PARABÉNS PARA TI - POEMAS DE ALBINO SANTOS

Foto de Bruno Abreu - Olhares


O Mar expande-me a um infinito horizontal. A Montanha esmaga-me o seu peso na vertical. Perco a essência de mim com primeiro e sinto-me comprimido com a segunda. A pequenez em mim é a mesma por dissolução ou compressão. O êxtase e a humildade, a constante agitação e a imobilidade eterna.

Como o contraste me arrebata!...

I

Não sei se Mar ou se Montanha,
tenho os meus afectos repartidos
por duas paixões que mal sustento,
duas ânsias opostas nos sentidos
dois pólos de atracção no pensamento

II

Mar!
Feito de sal e azul liquefeito
de céu, de gaivotas, vendavais
de abismos profundos e mortais
que o sol escolheu para seu leito,
onde o céu se debruça a ver corais

Onde habitam lendas e sereias,
ninfas nuas e de longas tranças
que alimentam sonhos de crianças,
namorados que se amam nas areias
da imensa praia de águas mansas

Onde posso beber sol e liberdade
longe de angústias e de medos,
sentar-me no colo dos rochedos
perder-me no azul que me invade
e contar ao mar os meus segredos

III

Montanha!
Hino supremo à imortalidade,
arrasadora e telúrica erecção,
feita da substância da eternidade,
onde as pedras parecem ter vontade
de fecundar o seu próprio chão

Imponente e austera grandeza
convertida em arte e formosura,
poesia esculpida em fraga dura
que a força e o poder da natureza
com o passar do tempo mais apura

TU, que acordas o sol na hora de nascer
entre a bruma e o cheiro de jasmim,
no teu perfil agreste, sem ter fim,
repousas a grandeza do teu ser
como eu próprio repouso sobre mim!...


ALBINO SANTOS






Foto de Marta Ferreira - Olhares


Quando a luz amadurece
chegas como quem esquece
os lençóis incandescentes
onde sempre eu anoiteço…
Mas trazes sempre as sementes
da flor com que adormeço…

Assim me vem a noite,
em pequenas chamas
florescendo entre os lábios
e os dedos dóceis…

um a um, suaves,
teus gestos me poisam no peito
como faminto bando de aves…

Línguas de sal na escuridão acesa!


ALBINO SANTOS




Foto de Bela-Olhares


Um poema deve ser silencioso
como uma carícia...
Macio
como o toque dos dedos sobre a pele...
Doce
como um olhar de amor,
abrindo caminho através dos teus olhos...
Imprevisto
como o voo dos pássaros...
Imóvel
como a sombra no tempo...
Suave
como prelúdio de belas melodias...
Tranquilo
como quando tua mão descansa sobre a minha...
Ousado
como as últimas borboletas que adormecem
na erva já ressequida depois do último beijo...

ALBINO SANTOS





Foto de Nuno Manuel Baptista - Olhares

Caminho sobre um murmúrio
de vozes transparentes.
Sou a síntese de todos os ecos
que se projectam
através de mim,
os gritos que calei
para que outros irrompessem!

Na minha memória
vestida de saudade,
respiro o teu corpo
pelo fôlego das palavras
com que faço este poema.
Elas nascem límpidas
e partem depois,
húmidas de desejo...

Molham-se os meus versos,
chove-me a saudade,
inundam-me as noites,
silenciosas,
deliciosamente lascivas
como asas de pássaro
escorrendo o teu orvalho.

Um pingo mais
desse liquido ardor,
e o poema transborda
de amor…

ALBINO SANTOS





Foto de António Carreteiro - Olhares


Se de amor me falasses!
Um dia… abstractamente,
como um leve rumor
ao som de uma serenata!
Mas fala-me somente
palavras de amor,
quando a noite deixar ver
claramente
o sítio onde o teu corpo
se refracta

Se de amor me falasses!
De amor ardente
sem a alma fria
em ti tão abstracta!
Na carícia fugidia
e tão surpreendente,
que trazes nessa boca
irreverente
onde a paixão é sempre mais exacta!

Se de amor me falasses!
Nesta noite incandescente
e tão ingrata!
Do amor que se sente
e tantas vezes se mata!
Da loucura de um beijo
no teu corpo cor de prata,
onde o amor e o desejo
tantas vezes se retrata…


ALBINO SANTOS