terça-feira, dezembro 14, 2010

VAZIO






Pedra a pedra, esvazio este lugar onde outrora
nos encontrámos. Deixo-o limpo de versos e de
sílabas, seco de lágrimas e de suor, silencioso
como o espaço de onde as aves se ausentaram.


Depois, pedra a pedra, construo a memória
em que te vou guardar. Ergo-a desse campo
onde te abracei, sobre folhas e flores, ouvindo
a música do vento por entre ramos e sombras.


«Mas para que a queres?» perguntas-me. «Sem
mim, sem o calor da minha voz, sem o corpo
que amaste?» E pedra a pedra volto a esvaziar
tudo, como se estivesses aqui, sem nada encontrar.


Nuno Júdice

In O Estado dos Campo



Foto de Tatiana Ershova


3 comentários:

BRANCAMAR disse...

Lindíssimo, a ternura e o vazio em paralelo, dito de forma suave e tão terna.

Sempre uma partilha grande, a tua.
Beijos
Branca

DE-PROPOSITO disse...

E pedra a pedra
------
E pedra a pedra, construo um castelo.
-------
Felicidades.
Manuel

alfacinha disse...

Boas festas