PRIMEIRO DIA DE OUTONO

Primeiro dia de Outono.
Primeira névoa de mágoa
Nos meus olhos rasos, mudos
De tristeza e de abandono
Onde o sonho é nostalgia...
O sol enfraqueceu - está doente;
E a paisagem parece adormecida
Na sua diluída rebeldia.
Um desalento vago, uma incerteza
Cinge o teu gesto sóbrio de quem busca
Uma nova ilusão para vencer...
A natureza mostra o derradeiro
Sorriso nos jardins... Tudo esmorece
Na graça deste lindo anoitecer!
Não ponhas essa dúvida na fronte,
Não entristeças, ri - foge ao compasso
Das longas atitudes lentas;
Reforça mais o teu riso
E pensa que na vida quem é forte
Retarda as intenções mortais da própria morte.
Outono! A sombra é a luz
Em prece de saudade!
Abre a janela e vê
se o mundo não disfarça
Os seus motins de sangue
neste silêncio d'oiro
Que vem do infinito...
Não falas? E porquê?
Tudo isto que eu te digo
E o mais que no meu peito me fica por dizer,
Amor, pode ser triste,
Mas olha que é verdade
E tem razão de ser!
ANTÓNIO BOTTO
1 comentários:
Gosto muito de António Botto e este poema é lindíssimo. Um verdadeiro hino ao Outono, uma estação de transição com cor e luz muito especiais.
Bem-hajas!
Abraço fraterno
Enviar um comentário