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A mostrar mensagens de 2012

VOTOS DE BOAS FESTAS !

VENDAVAL

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio, Não achas, soprando por tanta solidão, Deserto, penhasco, coval mais vazio Que o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceano Faz louco lugar, caverna sem fim, Não são tão deixados do alegre e do humano Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza, Só têm a tristeza que a gente lhes vê; E nisto que em mim é vácuo e tristeza É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida! Tu, vento do norte, teimoso, iracundo, Que rasgas os robles - teu pulso divida Minh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia, A alma que tenho pudesses levar - Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento, Mar torvo do caos que parece volver - Porque é que não entras no meu pensamento Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência! Horror de sentir a alma sempre a pensar! Arranca-me, ó vento; do chão da existência, De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais escura, Pelo caos …

MÁGOA

Eu que cheguei a ter essa alegria de junto ao meu possuir teu coração, eu que julgara eterna a duração do voluptuoso amor que nos unia,
sou, apagada a última ilusão, morto o deslumbramento em que vivia, um cego que ao lembrar a luz do dia sente mais negra ainda a escuridão.
Tu me deste a ventura mais perfeita, perdi-a, e dei-te a chama insatisfeita dessa imensa paixão com que te quis...
Hoje, o que sinto, inútil, revoltada, não é mágoa de ser tão desgraçada, é pena, de ter sido tão feliz.
Virgínia Victorino
FOTO de Hamanov Vladimir


INSTANTE

Se nos olhos te beijarem esta noite,
se estremeceres com um doce suspirar,
e se por inusitado instante,
no teu peito ardente e ofegante
não te adormecer esse desejo,
se sentires nos lábios o sabor de um beijo,
é porque algum poema meu
navega no rio aceso do teu corpo.

Descobrindo trajectos sedutores,
caminhos nunca imaginados,
segredos nunca desvendados,
sonhos de ternura e fantasia.
E se vens comigo na viagem
plena de amor e de coragem,
a noite desabrocha em poesia.

Sinto então esta imparável ânsia,
a sensação profunda e suprema,
de não haver qualquer distância
entre a tua boca e o meu poema.



ALBINO SANTOS
(in Diálogo de Sombras")


Foto de Dieter Plogmann

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE

Tão bom viver dia a dia...

A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...


MÁRIO QUINTANA

QUANDO TE VI

A manhã era clara, refulgente.  Uma manhã dourada. Tu passaste.  Abriu mais uma flor em cada haste.  Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente. 
 E eu inundei-me dessa luz ardente.  Depois não sei mais nada. Olhei ... Olhaste ...  E nunca mais te vi ... - Raro contraste -  A madrugada transformou-se em poente. 
 Luz que nasceu e apenas cintilou !  Deixou-me triste assim que se apagou,  às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda ... 
 E há tanto sol dourando esses trigais !  Olhaste, olhei, fugiste ... Ai nunca mais,  nunca mais tive outra manhã tão linda ! 
 VIRGÍNIA VITORINO
(n. Alcobaça, em 13 de Agosto de 1895 - 1967) Poetisa e dramaturga .

A CASA FICOU POR CONSTRUIR ...

A casa ficou por construir Cheguei tarde E o ardor mútuo não impede Que os nossos caminhos  Sejam diferentes 
 A casa ficou por construir As várias salas Os longos corredores O quarto mais tranquilo Com seu leito 
 A janela rasgada Donde te veria surgir Todos os dias A lareira que nos protegeria Do que a vida tem de enregelado 
 O suceder das estações acompanhando O acumular dos anos e a confiança Que um amor profundo dissemina 
 Vivo num cacifo solitário No outro lado do oceano Longe tão longe donde tu nasceste 
Mas a casaNossa Ficou por construir 
 Pássaro ferido Sou um hóspede No teu coração 

 Alberto de Lacerda

LANÇAMENTO 15 DE SETEMBRO - MARIA MAMEDE

LANÇAMENTO 22 SETEMBRO - PAULA RAPOSO

POEMA DE AMOR

Esculpi-te na água
De todas as nascentes.
Nas raízes das árvores, nas folhas e nos frutos,
Nos troncos mais firmes
E nas copas brancas.
Esculpi-te nos ventos que vão para sempre
E nos que regressam à rosa quebrada
Carregados de cores.
Esculpi-te nas rosa-dos-ventos.
Esculpi-te no fogo diurno.
No avesso do fogo.
Esculpi-te na terra.
Esculpi-te na sombra, no silêncio...
--Levantaram-se chamas.


CRISTOVAM PAVIA

DEIXA O OLHAR DO MUNDO

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos!
Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.
Olha: não posso mais!
Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...
Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.
(Olavo Bilac)

ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO

Estou mais perto de ti porque te amo. Os meus beijos nascem já na tua boca. Não poderei escrever teu nome com palavras. Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me. 
 Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto. Quero a tua boca aberta em minha boca. E amo-te como se nunca te tivesse amado Porque tu estás em mim mas ausente de mim. 

 Nessa noite sei apenas dos teus gestos E procuro o teu corpo para além dos meus dedos. Trago as mãos distantes do teu peito. 
 Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte. Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim. E eu estou perto de ti porque te amo. 
 JOAQUIM PESSOA

LEMBRANÇAS DO LUGAR

Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!

Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...

Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...

Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...

Afonso Estebanez


MAR DE MIM ....

Quem me dera mar, ser teu irmão;
Ter por limite as linhas da distância;
Depois, poder voltar à minha infância
Num veleiro chamado coração.

Quem me dera mar, tua ambição;
Teu correr nas marés, tua fragrância,
Copiar-te das ondas a elegância,
Roubar teus tons de azul... p'ra uma canção!

Depois, espreguiçar-me em marés-cheias,
Beijar de qualquer praia, as areias,
Alternar um mar chão, com tempestade,

Cantar canções de amor com as sereias,
Enlear-me, inconsciente, em suas teias,
P'ra sepultar no mar... minha ansiedade !


ORLANDO FERNANDES

(In Nova Antologia de Poetas Alentejanos)

Foto de Petros L

Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata, Meu amor perdido que a saudade aquece. Na cidade exangue donde eu vim poeta Lembro a voz do vento que hoje me entristece...
Lembro as tuas faces, meu amor ausente, Que a lembrança guarda no seu fumo triste, Que paisagens novas me fizeram pobre Nesta alma exausta que hoje em mim existe.
Ó sol, meu padrinho, flor do céu ! Que alegria, amor, quando o sol perdoa. Há gemidos novos na paisagem nova Meu amor perdido que em minha alma soa.

ANTUNES DA SILVA, Canções do Vento

Pintura de Domenico Feti


TROVAS

Não é um sonho o teu corpo, nem ilusão o que em mim sente quando penso em ti, e o que penso faz o que sinto mais presente.
É tão real o que digo disto que me dizes quando falas, e te ouço dizer o que eu digo nesse instante em que te calas.
E esta imagem que possuo, se ta roubei, foi porque a deste sem que a pedisse, ao pedi-la no gesto com que a ofereceste.
Por isso digo que sou teu, e tu és minha, sem o dizer, apenas no sonho que trocamos deste amor que nos faz viver.


NUNO JÚDICE
In O Estado dos Campos

Foto de Alexander Motylev



A TUA BOCA. A TUA BOCA.

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor de rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.


JOAQUIM PESSOA

In Os olhos de Isa


Foto de Aleksandr Talyuka

NU

Despi-me na rua do teu corpo
E nu de mim fiquei à tua espera.
Mas que espera um corpo quase morto
Que lhe traga de novo a Primavera ?

Nu de mim, vazio de ti e absorto
Quedei-me nesta dor que desespera,
Sem saber se nasci ou sou aborto
Se sou animal manso ou bruta fera.

Nu de mim estou, porque não sei
Vestir-me do amor que te não dei
Cobrir-te com o amor que me inspiraste.

Nu e sedento estou por não beber
Na fonte dos teus olhos, do teu ser,
A água pura que em sorrisos me enviaste.


NOGUEIRA PARDAL


Pintura de William Bouguereau




AMOR DE LENDA

Formosa Né! Ó Musa dos meus versos !
Desprende os teus cabelos, que, dispersos,
Caindo sobre as luas dos teus ombros,
Me causes pasmo, admiração, assombros...
Desprende-os ... Vá ! Pareça o teu cabelo
Chuveiro d´ oiro em píncaros de gelo,
Ou, nos marmóreos ombros, loira amada,
A própria luz do sol, cristalizada ...
E vem, original, sem mais enfeite,
Lançar no meu pescoço as mãos de leite,
Com essas madrepérolas das unhas ...
Deixa o mundo falar, as testemunhas ...
Isso que tem !? Amemo-nos sem medo !
Jamais dum grande amor se fez segredo !
És minha ! Deus ungiu da mesma sorte
O teu viver e o meu até à morte !
Hesitas ? ... Vem ! Os dois, se nos amamos,
Cruzemos nossas vidas como os ramos,
Em tudo irmãos, quer na alegria ou luto
E, qual os ramos, dêmos flor e fruto,
Que o nosso amor seja o maior, mais puro,
Na história do passado e do futuro !
E digam todos com razão e espanto :
"Amor de lenda - pois se querem tanto ..."

GENTIL DE VALADARES

25-02-1916 // 17-09-2006


Foto de D…

PÁGINA DE DIÁRIO

Assim que, aportando, a primavera
trouxe o rastro de rosas e andorinhas
à janela do quarto onde habito
trouxe também a pomba que, noturna
vigilante velou do parapeito
minha saudade da janela antiga
de um quarto onde dormia, bem-amadaenquanto as pombas lá fora iam ruflandoas asas que abriam a madrugada


MARIA DE LOURDES HORTAS



SEI QUE O SILÊNCIO MORDE A MINHA BOCA

Sei que o silêncio morde a minha boca.
Hoje, na melancolia de um fim de tarde,
Chamei por uma estrela solitária.
Essa que morreu antes de chamar pelo teu nome.
Sei hoje que a tua ausência
É a voz do silêncio do meu corpo,
O tempo que faltou ao nosso encontro,
Se pudesse ser outro que não eu
Talvez me pudesse despir de antigas mortes
E olhar-te na madrugada súbita dos teus olhos
E dizer-te que amanhã
É sempre o dia em que te procuro.
Amanhã, será sempre o dia em que te digo
"Amo-te" .

PAULO EDUARDO CAMPOS

In "Na serenidade dos rios que enlouquecem"

SONHOS

Sonho-te que sonhando-me sonhas-me, em teus braços, mil beijos sussurrados

 Sonho-te e sonhando-me amo-te no rasgar da pele buscando carícias longas entregando-me 
 Sonho-te no abraço incontido corpo entregue vencido em noites de vendaval 
 E esse perfume errante --- seiva quente --- dá vida dá alento mesmo que não passando de ilusão, que se desfaz em nada, tal qual nuvem em tarde de verão. 
 Sonho-te que sonhando-mesonhas-me... 

 amando-te... OTÍLIA MARTEL 
 Foto de Julia Nikonchuk

CANTIGA

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.


CABRAL DO NASCIMENTO

1897/1978


Foto de Svetlana Melik-Nubarova

BALADA DO GELO

há nestas noites perdidas a dor gelada do teu corpo ausente do abraço das tuas pernas fendidas desabrochando num sorriso quente.
é a saudade dolorida das tuas mãos cruéis que me rasgam a pele ferida, desenhando no meu corpo o mapa do teu desejo, a mordedura da tua boca salgada percorrendo-me insaciada na tortura de um longo beijo.
sempre nestas noites perdidas, a dor gelada do teu corpo ausente, da prisão das tuas pernas rendidas desabrochando num gemido quente.
e quando o sol começa a despontar e eu consigo adormecer, juro-te, minha querida, que nunca mais quero acordar.

ANTÓNIO MAGA

Foto de Alexander Eliseev


MARIA

Todo o passado, para mim, é morto,
e, no futuro, há só esperança infinda
que eu sinto n' alma quando lembro, absorto,
essa mulher divinamente linda.

Queria viver, nas sombras de algum horto,
longe do mundo, o sonho que não finda !
Viver com ela, viver nela, e absorto,
morrer com ela, enamorado ainda !

Que a vida, sem amor, é desventura ;
e, se a não vejo, eu vejo fatalmente,
em toda a parte, a dor que me tortura.

Ah, mas se a vida é o seu amor somente,
porque sinto, meu deus, esta amargura
de a não poder amar eternamente ?


GUILHERME DE FARIA

1907/1929



TE AMO

MULATA

corpo de mulata corpo de batuques e luar corpo de serpente a enroscar-se na árvore corpo de mel e malícia onde mãos buscam frementes poemas de luz e cor onde beijos estremece entre seios ponteagudos onde o sexo é uma flor a oferecer as sementes aos quatro cantos do mundo corpo esguio e feiticeiro por onde passa o amor e fica ainda mais belo. 

 MARIA OLINDA BEJA 
 Maria Olinda Beja Martins Assunção, nasceu em Guadalupe em 1946 (São Tomé e Príncipe), sendo porém de nacionalidade portuguesa. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) pela Universidade do Porto, Olinda Beja é docente do Ensino Secundário desde 1976. Ensina também Língua e Cultura Portuguesa na Suíça, é assessora cultural da Embaixada de São Tomé e Príncipe e dinamizadora cultural. Publicou os livros de poemas 'Bô Tendê?', 'Leve, Leve', 'No País do Tchiloli', 'Quebra-Mar' e 'Água Crioula', os romances 'A Pedra de Villa Nova', '!5 Dias de Regresso&#…

NINGUÉM

Embriaguei-me num doido desejo
e adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
não me encontro, não me vejo -
perscruto a imensidade

E fico a tactear na escuridão
ninguém. ninguém
nem eu, tão pouco !

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco


JUDITH TEIXEIRA

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE

Ela não foi, dentre todas, a mais bela, mas me deu o amor mais fundo e longo. Outras me amaram mais; e, no entanto, a nenhuma desejei como a ela. 
 Talvez porque a amei de longe, como a uma estrela desde minha janela… e a estrela que brilha mais distante nos parece que tem mais reflexos. 
 Tive seu amor como uma coisa distante como uma praia cada vez mais solitária, que unicamente guarda da onda uma umidade de sal sobre a areia. 
 Ela esteve em meus braços sem ser minha, como a água no cântaro sedento, como um perfume que se foi no vento e que volta no vento todavia. 
 Me penetrou sua sede insatisfeita como um arado sobre a planície, abrindo em seu fugaz desprendimento a esperança feliz da colheita. 
 Ela foi o próximo no longínquo, mas preenchia todo o vazio, como o vento nas velas do navio, como a luz no espelho quebrado. 
 Por isso ainda penso na mulher, aquela, a que me deu o amor mais fundo e longo… Nunca foi minha. Não era a mais bela. Outras me amaram mais… E, no entanto, a nenhuma…

ACORDANDO

Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta Este meu vão sofrer; esta agonia, Como sobe cantando a cotovia, Para o céu a minh'alma sobe e canta. 
 Canta a luz, a alvorada, a estrela santa, Que ao mundo traz piedosa mais um dia... Canta o enlevo das cousas, a alegria Que as penetra de amor e as alevanta... 
 Mas, de repente, um vento humido e frio Sopra sobre o meu sonho: um calafrio Me acorda. — A noite é negra e muda: a dor 
 Cá vela, como d'antes, ao meu lado... Os meus cantos de luz, anjo adorado, São sonho só, e sonho o meu amor! 
 ANTERO DE QUENTAL 
 Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842 — Ponta Delgada, 11 de setembro de 1891) foi um escritor e poeta Português, nascido na Ilha de São Miguel, Açores .  A poesia de Antero de Quental apresenta três faces distintas: -A das experiências juvenis, em que coexistem diversas tendências; -A da poesia militante, empenhada em agir como “voz da revolução”; -E a da poesia de tom metafísico, voltada para a expres…

O SEU NOME É MUITO PRÓPRIO DELA

O seu nome é GRAcioso e muito próprio dela: Respira um vago tom de música inocente; E lembra a placidez de um lago transparente; Recorda a emanação tranquila duma estrela.
Lembra um título bom, que logo nos revela A ideia do poema. E todo o mundo sente Não sei que afinidade entre o seu ar dolente, a sua morbidezza, e o próprio nome dela.
E chego acreditar - ingenuamente o digo - Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo Em traduzi-lo enfim numa expressão qualquer:
De forma que a mulher suave e GRAciosa Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa, E este nome gentil faz parte da mulher.
GUILHERME DE AZEVEDO

Pintura de Iman Maleki
Guilherme Avelino Chave de Azevedo (1839-1882) nasceu em Santarém e faleceu em Paris. Estudou Humanidades no liceu de Santarém, tendo fundado e dirigido o jornal O Alfageme (1871). Fixa-se em Lisboa, onde se junta à Geração de 70, participando nas Conferências do Casino. Colaborou na Lanterna Mágica e no Álbum das Glórias, este último ilustrado com caricaturas de Rafael…

A D E U S

Mon coeur, encore plein d'elle, errait sur son visage Et ne Ia trouvait plus. MUSSET.


 Porém de súbito acordou do ergástulo
O precito, que ali jazia há pouco...
E o pensamento habituado às trevas
Atirado na luz... — pássaro louco!

Vi de repente o passado
Erguer-se em face de mim...
A rir... a rir, como espectro,
De uma ironia sem fim.

 A orquestra, as luzes, o teatro, as flores
Tu no meio da festa que fulgura
Tu! sempre a mesma! a mesma! Tu! meu Deus!
Não morri neste instante de loucura ...

 Quebra-te pena maldita
Que não podes escrever
A horror de angústias e mágoas
Que então me viste sofrer.

 A mesma fronte que amei outrora!
O mesmo riso que me vira um dia!
O mesmo olhar que me perdera a vida!
A mesma, a mesma, por quem eu morria!

 Que saudades que eu tenho do passado,
Da nossa mocidade ardente e amante!
Meu Deus! Eu dera o resto de existência
Por um momento assim... por um instante.

 Mas não! entre nós o abismo
Se estende negro e fatal...
— Jamais! — é palavra escrita
No céu, …

VIVO NA ESPERANÇA DE UM GESTO

Vivo na esperança de um gesto  Que hás-de fazer.  Gesto, claro, é maneira de dizer,  Pois o que importa é o resto  Que esse gesto tem de ter.  Tem que ter sinceridade  Sem parecer premeditado;  E tem que ser convincente,  Mas de maneira diferente  Do discurso preparado.  Sem me alargar, não resisto  À tentação de dizer  Que o gesto não é só isto...  Quando tu, em confusão,  Sabendo que estou à espera,  Me mostras que só hesitas  Por não saber começar,  Que tentações de falar!  Porque enfim, como adivinhas,  Esse gesto eu sei qual é,  Mas se o disser, já não é... 
 REINALDO FERREIRA 
 Foto de Vyacheslav Sokhin

ESTRELA DA TARDE

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia 
 Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia 
 Meu amor, meu amor Minha estrela da tarde Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde Meu amor, meu amor Eu não tenho a certeza Se tu és a alegria ou se és a tristeza Meu amor, meu amor Eu não tenho a certeza 
 Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram 
 Foram noites e noites que numa só noite nos acontec…

FADO SONETO

Cada manhã era a véspera da surpresa,
de silêncio em silêncio anunciada.
De encanto se tecia e de tristeza
essa noite cada vez mais desejada.



Do teu corpo prometido ainda o cheiro,
do teu ventre revelado ainda a chama.
A saudade do que foi um dia inteiro
na moldura do que foi a nossa cama.



Cada minuto um punhal impaciente,
cada gesto uma carícia antecipada,
cada suspiro um excesso de ar eloquente.



E a surpresa da surpresa desejada:
o sabor desse teu corpo adolescente
de mulher em cada beijo renovada.



FERNANDO TAVARES RODRIGUES

Professor universitário, sociólogo e escritor, Fernando Jácome de Castro Tavares Rodrigues (1954 - 2006) nasceu em Lisboa, no dia 7 de Março de 1954. Faleceu em Lisboa a 1 de Março de 2006.


Pintura de Iman Maleki

POEMA DA CULPA

Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.

Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.

Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.

Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?

Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.

Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá u…

POEMA MELANCÓLICO A NÃO SEI QUE MULHER

Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.



Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...


MIGUEL TORGA


Pintura de Tamara Lempicka