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AUTO-RETRATO





Eu sou … aquilo que sou – nem mais nem menos,
Alguém que vai vivendo ... bem e mal...
Um ser que vai soltando amargos trenos
Na ânsia de fugir a ser banal,

De não se definir nos epicenos
(Difusa luz que aspira a ser fanal!).
Alguém que o muito amar, letal veneno,
Tornou em triste vate do seu mal.

Deambulando oníricos roteiros,
Numa evasão aos rumos prisioneiros
Que a vida nos limita, coactiva,

Eu, que sou Eu, resista quem resista,
Quero manter o dom desta conquista
De ser quem sou, aonde quer que viva.

ANTÓNIO DE ALMEIDA


Pintura de William Bouguereau

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Cantiga para não morrer de Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 
.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar

Como a noite descesse...

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só e desesperado diante dos horizontes que se fechavam,
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Onde, entretanto, quem me disesse
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Se eu estava só, só e desesperado,
por que gritar tão alto?
Por que não dizer baixinho, como quem reza:
- Ó doce e incorruptível Aurora...
se só as estrelas é que me entenderiam?

Emílio Moura



Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902Dores do Indaiá28 de setembro de 1971Belo Horizonte) foi um poetamodernista, integrante do grupo de modernistas mineiros que ajudaram a revolucionar a literatura brasileira na década de 1920. Foi redator de cadernos literários dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também professor universit…

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António Botto
Foto de Aleksandr Krivickij