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A mostrar mensagens de Abril, 2012

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE

Ela não foi, dentre todas, a mais bela, mas me deu o amor mais fundo e longo. Outras me amaram mais; e, no entanto, a nenhuma desejei como a ela. 
 Talvez porque a amei de longe, como a uma estrela desde minha janela… e a estrela que brilha mais distante nos parece que tem mais reflexos. 
 Tive seu amor como uma coisa distante como uma praia cada vez mais solitária, que unicamente guarda da onda uma umidade de sal sobre a areia. 
 Ela esteve em meus braços sem ser minha, como a água no cântaro sedento, como um perfume que se foi no vento e que volta no vento todavia. 
 Me penetrou sua sede insatisfeita como um arado sobre a planície, abrindo em seu fugaz desprendimento a esperança feliz da colheita. 
 Ela foi o próximo no longínquo, mas preenchia todo o vazio, como o vento nas velas do navio, como a luz no espelho quebrado. 
 Por isso ainda penso na mulher, aquela, a que me deu o amor mais fundo e longo… Nunca foi minha. Não era a mais bela. Outras me amaram mais… E, no entanto, a nenhuma…

ACORDANDO

Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta Este meu vão sofrer; esta agonia, Como sobe cantando a cotovia, Para o céu a minh'alma sobe e canta. 
 Canta a luz, a alvorada, a estrela santa, Que ao mundo traz piedosa mais um dia... Canta o enlevo das cousas, a alegria Que as penetra de amor e as alevanta... 
 Mas, de repente, um vento humido e frio Sopra sobre o meu sonho: um calafrio Me acorda. — A noite é negra e muda: a dor 
 Cá vela, como d'antes, ao meu lado... Os meus cantos de luz, anjo adorado, São sonho só, e sonho o meu amor! 
 ANTERO DE QUENTAL 
 Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842 — Ponta Delgada, 11 de setembro de 1891) foi um escritor e poeta Português, nascido na Ilha de São Miguel, Açores .  A poesia de Antero de Quental apresenta três faces distintas: -A das experiências juvenis, em que coexistem diversas tendências; -A da poesia militante, empenhada em agir como “voz da revolução”; -E a da poesia de tom metafísico, voltada para a expres…

O SEU NOME É MUITO PRÓPRIO DELA

O seu nome é GRAcioso e muito próprio dela: Respira um vago tom de música inocente; E lembra a placidez de um lago transparente; Recorda a emanação tranquila duma estrela.
Lembra um título bom, que logo nos revela A ideia do poema. E todo o mundo sente Não sei que afinidade entre o seu ar dolente, a sua morbidezza, e o próprio nome dela.
E chego acreditar - ingenuamente o digo - Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo Em traduzi-lo enfim numa expressão qualquer:
De forma que a mulher suave e GRAciosa Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa, E este nome gentil faz parte da mulher.
GUILHERME DE AZEVEDO

Pintura de Iman Maleki
Guilherme Avelino Chave de Azevedo (1839-1882) nasceu em Santarém e faleceu em Paris. Estudou Humanidades no liceu de Santarém, tendo fundado e dirigido o jornal O Alfageme (1871). Fixa-se em Lisboa, onde se junta à Geração de 70, participando nas Conferências do Casino. Colaborou na Lanterna Mágica e no Álbum das Glórias, este último ilustrado com caricaturas de Rafael…

A D E U S

Mon coeur, encore plein d'elle, errait sur son visage Et ne Ia trouvait plus. MUSSET.


 Porém de súbito acordou do ergástulo
O precito, que ali jazia há pouco...
E o pensamento habituado às trevas
Atirado na luz... — pássaro louco!

Vi de repente o passado
Erguer-se em face de mim...
A rir... a rir, como espectro,
De uma ironia sem fim.

 A orquestra, as luzes, o teatro, as flores
Tu no meio da festa que fulgura
Tu! sempre a mesma! a mesma! Tu! meu Deus!
Não morri neste instante de loucura ...

 Quebra-te pena maldita
Que não podes escrever
A horror de angústias e mágoas
Que então me viste sofrer.

 A mesma fronte que amei outrora!
O mesmo riso que me vira um dia!
O mesmo olhar que me perdera a vida!
A mesma, a mesma, por quem eu morria!

 Que saudades que eu tenho do passado,
Da nossa mocidade ardente e amante!
Meu Deus! Eu dera o resto de existência
Por um momento assim... por um instante.

 Mas não! entre nós o abismo
Se estende negro e fatal...
— Jamais! — é palavra escrita
No céu, …

VIVO NA ESPERANÇA DE UM GESTO

Vivo na esperança de um gesto  Que hás-de fazer.  Gesto, claro, é maneira de dizer,  Pois o que importa é o resto  Que esse gesto tem de ter.  Tem que ter sinceridade  Sem parecer premeditado;  E tem que ser convincente,  Mas de maneira diferente  Do discurso preparado.  Sem me alargar, não resisto  À tentação de dizer  Que o gesto não é só isto...  Quando tu, em confusão,  Sabendo que estou à espera,  Me mostras que só hesitas  Por não saber começar,  Que tentações de falar!  Porque enfim, como adivinhas,  Esse gesto eu sei qual é,  Mas se o disser, já não é... 
 REINALDO FERREIRA 
 Foto de Vyacheslav Sokhin