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A mostrar mensagens de 2013

ETERNIDADE

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ETERNIDADE
Quero acender na noite, uma alvorada Que seja luz intensa apetecida, A iluminar a minha caminhada, Quando um dia voar, pr’a lá da vida.
Quero nas ondas do mar, uma nau alada, Que me há-de transportar e dar guarida, E que branca gaivota descuidada, Leve no voo, me ajude na subida.
Quando minha alma, no espaço já vogar, Pela nuvem mais bela que encontrar, Hei-de enviar-te ainda, um beijo ardente;
E se da terra, à noite, olhares as estrelas, Hás-de sentir, que vivo numa delas, A esperar por ti eternamente.
(Inédito)
Orlando Fernandes
(Nova Antologia de Poetas Alentejanos)

AMOR

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Foto de Светлана Дракина





Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!

Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?

IRENE LISBOA


Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu no dia 25 de Dezembro de 1892 e faleceu a 25 de Novembro de 1958. Foi e…

A MULHER NUA

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A Mulher NuaHumana fonte bela, 
repuxo de delícia entre as coisas, 
terna, suave água redonda, 
mulher nua: um dia, 
deixarei de te ver, 
e terás de ficar 
sem estes assombrados olhos meus, 
que completavam tua beleza plena, 
com a insaciável plenitude do seu olhar? 

(Estios; verdes frondas, 
águas entre as flores, 
luas alegres sobre o corpo, 
calor e amor, mulher nua!) 

Limite exacto da vida, 
perfeito continente, 
harmonia formada, único fim, 
definição real da beleza, 
mulher nua: um dia, 
quebrar-se-á a minha linha de homem, 
terei que difundir-me 
na natureza abstracta; 
não serei nada para ti, 
árvore universal de folhas perenes, 
concreta eternidade! 

Juan Ramón Jiménez, in "La Mujer Desnuda"
Tradução de José Bento
Foto de Vabalas

PINTURA ABSTRACTA

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PINTURA ABSTRACTA

Eu, genial pintor me imaginava,
Pintando teu perfil, o teu regaço,
Enquanto que ao alcance do meu braço...
Teu corpo juvenil, p'ra mim posava.

A minha insana mente desenhava
Tua gentil figura, de um só traço,
E em sonhos, envolvi-te num abraço...
Mais forte do que as cores com que pintava.

Sorrias-me em ondas de ternura,
Incentivando a pueril loucura
Em que eu, alucinado me perdia,

Posaste para mim, a noite inteira,
Amei, como se fosse a vez primeira...
Só acordei do sonho... era já dia !

ORLANDO FERNANDES

OS ANOS SÃO DEGRAUS

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OS ANOS SÃO DEGRAUS


Os anos são degraus, a vida a escada
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
Só Deus pode fechá-la,
Pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
Outros ao sol, na plena luz dos astros,
Com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
Nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
À humana condição.
Degrau após degrau,
Tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença.
Imaginar, sequer, que ao fim da Estrada
Se encontre após esta ansiedade imensa
Uma porta fechada
E mais nada?


FERNANDA DE CASTRO



SAUDADE

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SAUDADE

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

MIA COUTO

Foto de Hamanov Vladimir

AMOR

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Amor o teu rosto à minha espera, o teu rosto 
a sorrir para os meus olhos, existe um 
trovão de céu sobre a montanha. 

as tuas mãos são finas e claras, vês-me 
sorrir, brisas incendeiam o mundo, 
respiro a luz sobre as folhas da olaia. 

entro nos corredores de outubro para 
encontrar um abraço nos teus olhos, 
este dia será sempre hoje na memória. 

hoje compreendo os rios. a idade das 
rochas diz-me palavras profundas, 
hoje tenho o teu rosto dentro de mim. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

Foto de Sergey Ryzhkov

POEMA DA DESPEDIDA

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Poema da despedida



Não saberei nunca dizer adeus
Afinal, só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo, só nós não podemos ser
Talvez o amor, neste tempo, seja ainda cedo
Não é este sossego que eu queria, este exílio de tudo, esta solidão de todos
Agora não resta de mim o que seja meu e quando tento o magro invento de um sonho todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra alcança o mundo, eu sei Ainda assim, escrevo
MIA COUTO

Foto de Sergey Ryzhkov

AINDA TE NECESSITO ...

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AINDA TE NECESSITO ... Ainda não estou preparado para perder-te Não estou preparado para que me deixes só. Ainda não estou preparado pra crescer e aceitar que é natural, para reconhecer que tudo tem um princípio e tem um final. Ainda não estou preparado para não te ter e apenas te recordar. Ainda não estou preparado para não poder te olhar ou não poder te falar. Não estou preparado para que não me abraces e para não poder te abraçar. Ainda te necessito. E ainda não estou preparado para caminhar por este mundo perguntando-me: Porquê? Não estou preparado hoje nem nunca o estarei. AINDA TE NECESSITO. Pablo Neruda

QUEM ERA ?

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QUEM ERA ?

Em volta olhei... a ver se oculto via Alguém que de meus olhos se ocultava: Voz carinhosa o coração ouvia... Voz carinhosa ao coração falava...
Voltei a olhar... e vi que me enganava ! Mas sempre o mesmo engano me iludia : Voz carinhosa ao coração falava... Voz carinhosa o coração ouvia...

Ansiosa, então, e sempre e mais olhando, Sem nada ver, meu Bem, certeza eu tive De que eras tu e a tua voz falando :

Tu -  minha Vida ! Tu  - minha Esperança ! Falando na saudade que em mim vive, Vivendo no Amor e na Lembrança.

Maria Isabel da Camara Quental

Foto de Aleksandr D.

VOLUPIA DE JUDITH TEIXEIRA NA VOZ DE LUIS GASPAR

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AMORES PROIBIDOS

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Onde está quem amamos quando amamos
outro corpo de fogo em movimento?
Pra que abismo corremos, pra que enganos,
quando as promessas são poeira ao vento?

De que matéria alheia mal tentamos
fugir quando a verdade mora dentro
de alguém a cujo céu nos entregamos
numa noite de sonho e de tormento?

Ainda somos humanos se traímos
por instinto um amor de tantos anos
e só àquele instante obedecemos?

Ainda somos humanos? Ou seremos
a febre que há no sangue quando vimos
de súbito morrer num corpo e vamos
em busca do inferno que merecemos?

Talvez por um momento então sejamos
sonâmbulos fantasmas do que fomos
reflectidos num espelho que não vemos

Ou talvez nesse corpo descubramos
a memória da alma que perdemos
pra sempre no momento em que transpomos
a fronteira dos gestos quotidianos
e ao sabor de um desejo destruímos
todas as intençõe

CORAÇÃO SEM IMAGENS

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Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem as imagens ?


Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.


Preciso habituar-me
ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.


Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.


Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.


Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.


Posso passar sem as imagens
assim como posso 
passar sem ti.


E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho (n. de Alvito - 1920-1984)

Foto de Igor V Kapustin




C O R P O

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CORPO

 Corpo serenamente construído 
Para uma vida que depois se perde 
Em fúria e em desencontro vivido 
Contra a pureza inteira dos teus ombros. 


 Pudesse eu reter-te no espelho 
Ausente e mudo a todo outro convívio 
Reter o claro nó dos teus joelhos 
Que vão rasgando o vidro dos espelhos. 


 Pudesse eu reter-te nessas tardes 
Que desenhavam a linha dos teus flancos 
Rodeados pelo ar agradecido. 


 Corpo brilhante de nudez intensa 
Por sucessivas ondas construído 
Em colunas assente como um templo. 



 Sophia de Mello Breyner Andresen 


Foto de Andrey Voytsehkov