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A mostrar mensagens de 2014

AMAR E SER AMADO !

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Amar e Ser Amado

Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano,
Beijar teus lábios em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante, amado
Como um anjo feliz... que pensamento!?


Castro Alves

1847/1871

Imagem de Dorina Costras

Pus de parte a modéstia e o pudor

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Pus de parte a modéstia e o pudor
Pus de parte a modéstia e o pudor e fui contando à Vida tudo que tinha sido a minha vida. Não ocultei sequer um pormenor.
Ora foi depois desta confissão que ela se me deu nua, sem disfarces, como se eu fora o seu primeiro homem…

Sebastião da Gama

Foto de Emilevna

SONETO DA SAUDADE

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Soneto da saudade

Quando sentires a saudade retroar 
Fecha os teus olhos e verás o meu sorriso.
E ternamente te direi a sussurrar:
O nosso amor a cada instante está mais vivo!

Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E a te expressar que este amor em nós ungindo
Suportará toda distância sem problemas...

Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.

Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos... 
Nem a distância apaga a chama da paixão



Autor - Guimarães Rosa

Foto de Andrey Bondar








É TEMPO DE AMAR AINDA MAIS...

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É tempo de amar ainda mais
quando a fogueira que em nossa vida ainda não ardeu
desperta a mão da brisa que de novo se acendeu ...

É tempo de amar ainda mais
quando o desejo tem a força da maré que nos agita
e o silêncio que fustiga os nossos lábios tanto grita ...

É tempo de amar ainda mais
quando as nossas mãos se recusam a se soltar
cada vez mais presas ao desejo que queremos saciar ...

É tempo de viver o amor rasgando todos os fantasmas.
É tempo de amar ainda mais, como se a luz não existisse,
ou uma remota e cintilante estrela se extinguisse ...

Não quero viver fugazes instantes de uma tarde de amor,
uma fracção de segundo. Poeira cósmica. Meteorito.
Por ti ... serei o sol a arder no infinito !

ALBINO SANTOS

in " A Evocação do Teu Nome"

Foto de Arian Bahrami



POR DECORO

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Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;

quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;

os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,

que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.

Artur Azevedo
(1855-1908)


Foto de Alexander Motylev

OLHANDO-SE

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Olhando –se
O espelho enche-se com a tua
imagem; e queria tirá-lo da tua
mão, e levá-lo comigo, para
que o teu rosto me acompanhe
onde quer que eu vá. 

Mas sem ti, o espelho
fica vazio; e ao olhá-lo, vejo
apenas o lugar onde estiveste, e
os olhos que os meus olhos procuram
quando não sei onde estás.

Por que não fechas os olhos 
para que o espelho te prenda, e 
outros olhos te possam guardar, 
para sempre, sem que tenham de olhar,
no espelho, o rosto que eu procuro?
Nuno Júdice

Foto de Andrey Gogolev

HORA DE SAUDADE

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Hora da saudade

Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave Maria o sino , que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
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O AMOR
Deus — talvez esteja aqui, neste pedaço de mim e de ti, ou naquilo que, de ti, em mim ficou. Está nos teus lábios, na tua voz, nos teus olhos, e talvez ande por entre os teus cabelos, ou nesses fios abstractos que desfolho, com os dedos da memória, quando os evoco.
Existe: é o que sei quando me lembro de ti. Uma relação pode durar o que se quiser; será, no entanto, essa impressão divina que faz a sua permanência? Ou impõe-se devagar, como as coisas a que o tempo nos habitua, sem se dar por isso, com a pressão subtil da vida?
Um deus não precisa do tempo para existir: nós, sim. E o tempo corre por entre estas ausências, mete-se no próprio instante em que estamos juntos, foge por entre as palavras que trocamos, eu e tu, para que um e outro as levemos connosco, e com elas o que somos, a ânsia efémera dos corpos, o mais fundo desejo das almas.
Aqui, um deus não vive sozinho, quando o amor nos junta. Desce dos confins da eternidade, abandona o mais remoto dos infinitos, e senta-se aos pés da cama, como um cão, …

RENASCER

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Foto de Irina Z

Solto as amarras do sonho;
São os versos que componho
Loucuras do dia a dia,
Fruto de mil frustrações
Do meu mundo de ilusões;
Quimeras e nostalgia.

Entre descrença e saudade
Procuro a minha verdade,
Busco a paz do meu viver.
Não me prendam, não me parem,
Ao passado não me agarrem,
Quero voltar a renascer.

Vou esperar, ser paciente,
Num torpor inconsciente.
Os deuses velem por mim !
Preciso virar a sorte,
Superar a própria morte;
Que a morte não seja o fim !


Orlando Fernandes

QUANDO O NAVIO PARTIU

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QUANDO O NAVIO PARTIU
Quando o navio partiu do cais, cheio de gente - O cais que era, nessa hora, todos os cais do mundo -, Um só vulto ficou na amurada, indiferente.
Em terra, os lenços acenavam, como um grande incêndio branco Que se propagou ao navio. - E o vulto era indiferente ao grande incêndio branco.
A sirene de bordo começou a vibrar desesperadamente, Em toada de naufrágio. - E o vulto era ainda alheio a esse som plangente.
O grande paquete afastou-se, com rumo ao mar de sempre, à eterna rota; Na distância ficou o cais, cheio de lenços brancos, como espuma à flor da vaga; E abandonou a esteira do navio a última gaivota.
A noite veio – a enorme teia cheia de gotas de orvalho tremeluzindo ao vento; Depois, surgiu a lua – a grande aranha senhora dessa enorme teia; E do navio subiu para a lua o coro de todos os lamentos.
Um só vulto ficou, olhando o mar e os astros, Indiferente ao Futuro, indiferente ao Passado, Lendo as oitavas que, no Céu, iam escrevendo os mastros.
Esse vulto era eu! Eu que, de ta…

A MULHER QUE PASSA

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A Mulher que Passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa. 
Seu dorso frio é um campo de lírios
tem sete cores nos seus cabelos
sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
que vens e passas, que me sacias
dentro das noites, dentro dos dias!

Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
que te perdia se me encontravas
e me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
a minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu…

SONETO DA SAUDADE

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Foto de Aleksey Ershov

Em minh'alma chove tanto que não há como esconder entre os olhos tanto pranto que meu pranto faz chover...
Para encanto ou desencanto em minh'alma é anoitecer com saudade do teu canto no encanto do amanhecer...
Num jardim sem claridade mora em mim tua saudade com o meu modo de viver...
E a saudade não consegue esquecer que me persegue para eu nunca te esquecer
Afonso Estebanez

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PRECISO DE TI

Hoje, eu preciso de ti

Preciso da tua presença louca

Preciso dos teus devaneios

Preciso de beijar tua boca

Preciso de olhar teus seios

Preciso dos teus braços

Preciso do teu calor

Preciso dos teus abraços

Hoje, preciso do teu amor

Como sempre

L.M.

Foto de Ognyan Geshev

SONETO DO AMOR E DA MORTE

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quando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer 
fica junto de mim, não queiras ver 
as aves pardas do anoitecer 
a revoar na minha solidão. 

quando eu morrer segura a minha mão, 
põe os olhos nos meus se puder ser, 
se inda neles a luz esmorecer, 
e diz do nosso amor como se não 

tivesse de acabar, sempre a doer, 
sempre a doer de tanta perfeição 
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura a minha mão. 

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

VULCÃO DOS SENTIDOS

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Vulcão dos sentidos

A minha alma anima-se no reflexo cristalino 
Do Sol da vida, espelhado nas águas
Das minhas memórias!
Traz-me lembranças daquele amor,
Que um dia me sufocou de tanto doer,
De paixão e emoções exacerbadas,
No sentir de prazeres desatinados,
Levados em voos sem rumo,
Sobre as areias quentes de um fogo,
Feito vulcão nas entranhas do nosso ser!
Na ausência do ar, estrangulado no beijo,
De anseios rebuscados sob o manto do luar;
Pensamentos esmorecidos na sensação,
Carinhosa do teu forte amplexo
E na carícia da tua pele sedosa,
Perturbadora dos meus sentidos;
O murmúrio dos teus lábios,
Quando beijavam os meus ouvidos,
Fazendo-me desfalecer
Num torpor de extasiante volúpia!

Acabam-se-me as lembranças
Que se levam na suavidade
Do crepúsculo que me desperta.


José Carlos Moutinho

SONETO A QUATRO MÃOS

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Soneto a Quatro Mãos
Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado. Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado. Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse. Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos

ALÉM DA TERRA, ALÉM DO CÉU

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Foto de Pierre Dumas



Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

NUM SONHO

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Em minhas mãos tomo teu rosto agora
E não sei se esse gesto vai ferir-me.
Não sei se fico aqui, pensando em ir-me, 
Ou se a teus pés sucumba sem demora.


Tenho medo de amar! Vou demitir-me
Desse ofício de sonhos. Vou-me embora.
Mas, o Amor me chama e nele ancora
O meu jeito de ser e de exprimir-me.


Tomo teu rosto, então, por um minuto.
Um grande amor, do eterno  claro fruto, 
Envolve-me de todo e com loucura.


Entregue fico então ao meu desejo
E ficas em meus braços e te beijo
E morres de prazer e de ventura.


ARTUR EDUARDO BENEVIDES


Foto de Mikhail Svetlov

O GUARDADOR DE REBANHOS

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Pintura de SILVA PORTO



Eu nunca guardei rebanhos, Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr de sol Para a nossa imaginação, Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela. Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso. Como um ruído de chocalhos Para além da curva da estrada, Os meus pensamentos são contentes. Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais. Não tenho ambições nem desejos Ser poeta não é ambição minha É a minha maneira de estar sozinho. E se desejo às vezes Por imaginar, ser cordeirinho (Ou ser o rebanho todo Para andar espalhado por toda a encosta A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, Ou …