terça-feira, maio 27, 2014

A MULHER QUE PASSA



A Mulher que Passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa. 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
tem sete cores nos seus cabelos 
sete esperanças na boca fresca! 

Oh! Como és linda, mulher que passas 
que me sacias e suplicias 
dentro das noites, dentro dos dias! 

Teus sentimentos são poesia 
teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pêlos leves são relva boa 
fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
longe das vozes da ventania. 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 

Como te adoro, mulher que passas 
que vens e passas, que me sacias 
dentro das noites, dentro dos dias! 

Porque me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
que te perdia se me encontravas 
e me encontrava se te perdias? 

Por que não voltas, mulher que passa? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida 
para o que sofro não ser desgraça? 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
a minha amada mulher que passa! 

No santo nome do teu martírio 
do teu martírio que nunca cessa 
meu Deus, eu quero, quero depressa 
a minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacifica 
que é tanto pura como devassa 
que bóia leve como a cortiça 
e tem raízes como a fumaça. 

Poema de Vinicius de Moraes, in ‘Antologia Poética’
Gosto ·  · 

sábado, maio 24, 2014

SONETO DA SAUDADE

Foto de Aleksey Ershov

Em minh'alma chove tanto
que não há como esconder
entre os olhos tanto pranto
que meu pranto faz chover...

Para encanto ou desencanto
em minh'alma é anoitecer
com saudade do teu canto
no encanto do amanhecer...

Num jardim sem claridade
mora em mim tua saudade
com o meu modo de viver...

E a saudade não consegue
esquecer que me persegue
para eu nunca te esquecer

Afonso Estebanez