quarta-feira, julho 22, 2015

AMOR VIVO




AMOR VIVO

Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos -
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará o sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

© ANTERO DE QUENTAL
In Sonetos, 1861


Foto de Eriks Racenis

sexta-feira, julho 17, 2015

UM ROSTO






Um Rosto

Apenas
uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.

NUNO JÚDICE
Foto de Sergey Eliseev

sexta-feira, junho 19, 2015


EM FRENTE DO MAR

Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar ? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou à nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir, 
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.


NUNO JÚDICE

O Estado dos Campos

Foto de Alex Krivtsov



quarta-feira, maio 27, 2015

POEMA PARA TI !





POEMA PARA TI !

Habitas o silêncio dos meus olhares
Ainda que minhas mãos me delatem
Tem a saudade esta urgência desmedida
Desejosa por ser expressa, anunciada
Grafitando os muros contidos da ausência
Os dedos surpreendem a vigília dos olhos
E é teu nome que transborda na página
Deixando-se escrever nos lábios da palavra

Sobram-me ternuras, quando digo-te em mim
Sobram-me vontades, quando penso-me em ti
Enquanto me faltas, insinuo-me em poesias
São meus versos ressonâncias de ti
Melodias inequívocas, que te dedilham
Entrelaçando sensações e gestos
Que cedem as confissões do recordar
Apascenta-me o percorrer das minhas mãos
Pela alameda das letras, onde vou esculpindo
Horizontes apenas pretendidos e sonhados
Sussurrando e afagando as metáforas
Que nem sempre as linhas adivinham

Nada sei dessas tuas distâncias de mim
Não assimilo ou percebo esta ausência
Nem qualquer hiato no saber de ti
Guiam-se para ti os barcos do meu pensar
Quando em qualquer rota, destino-me
E sinto em mim tua boca tão próxima
Que a ânsia do meu beijo, mistura-se ao teu
Meus mapas somente conhecem os caminhos
Onde nossos olhares se unem
Em algum lugar chamado saudade



Fernanda Guimarães

Foto de Giada Lysa

quinta-feira, maio 21, 2015

RAZÕES DE AMOR



Razões de amor...
I
Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...

Gosto de tua voz, tranqüila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...

II

Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;

de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;

– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...

Gosto de ti
desesperadamente;

gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...

(J.G. de Araújo Jorge)

Foto de Sergey Ryzhkov

terça-feira, maio 19, 2015

POEMA DA DESPEDIDA



Poema da despedida

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
MIA COUTO

sexta-feira, maio 01, 2015

SAUDADE



SAUDADE.

Por que sinto falta de você? Por que esta saudade?

Eu não te vejo mas imagino suas expressões, sua voz, teu cheiro.

Sua amizade me faz sonhar com um carinho,

Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.

Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono 

me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...

Só não quero perder sua amizade, esta amizade... 

Que me fortalece me enobrece por ter você.


Machado de Assis.
Machado de Assis (1839 - 1908) foi um escritor e poeta brasileiro. Foi o fundador da Academia Brasileira de Letras.
foto de Александр Макеев

domingo, abril 26, 2015

QUANDO TE VI



QUANDO TE VI

A manhã era clara, refulgente.
Uma manhã dourada. Tu passaste.
Abriu mais uma flor em cada haste.

Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente.

E eu inundei-me dessa luz ardente.
Depois não sei mais nada. Olhei... Olhaste...
E nunca mais te vi. . . - Raro contraste! –
A madrugada transformou-se em poente.

Luz que nasceu e apenas cintilou!
Deixou-me triste assim que se apagou,
às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda...

E há tanto sol dourando esses trigais!
Olhaste, olhei, fugiste... Ai, nunca mais,
nunca mais tive outra manhã tão linda!

Virgínia Vitorino

1895-1967


Foto de Alla S.

domingo, abril 19, 2015

REGRESSO





Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina (1943 - 2012)

domingo, abril 12, 2015

SONETO DO CATIVO



Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira.

sábado, março 28, 2015

NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS




NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS
Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos
ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.
Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor.
Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes
a nossa alma líquida e atormentada

desvendará em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa.


Foto de Hamanov Vladimir






quinta-feira, março 05, 2015

AMIZADE




De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,

Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: "Espera e confia!"

E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.



Carlos Queirós (Poeta Português, 1907-1949)



Foto de Рябок Андрей 

AMO-TE POR TODAS AS RAZÕES E MAIS UMA


Amo-te por todas as razões e mais uma

Por todas as razões e mais uma. Esta é a resposta que costumo dar-te quando me perguntas por que razão te amo. Porque nunca existe apenas uma razão para amar alguém. Porque não pode haver nem há só uma razão para te amar.Amo-te porque me fascinas e porque me libertas e porque fazes sentir-me bem. E porque me surpreendes e porque me sufocas e porque enches a minha alma de mar e o meu espírito de sol e o meu corpo de fadiga. E porque me confundes e porque me enfureces e porque me iluminas e porque me deslumbras.Amo-te porque quero amar-te e porque tenho necessidade de te amar e porque amar-te é uma aventura. Amo-te porque sim mas também porque não e, quem sabe, porque talvez. E por todas as razões que sei e pelas que não sei e por aquelas que nunca virei a conhecer. E porque te conheço e porque me conheço. E porque te adivinho. Estas são todas as razões.Mas há mais uma: porque não pode existir outra como tu.
Joaquim Pessoa em Ano Comum

Foto de Sergey Ryzhkov

domingo, março 01, 2015

O TEU SORRISO




O TEU SORRISO


Sorrio ao ver o teu sorriso
no rosto das crianças


encontro o teu sorriso
em tudo por onde passo

reparo nas pessoas
que revelam o teu sorriso

sorrio ao pensar em ti
recordando o teu sorriso

olho o espelho
onde se reflecte o teu sorriso

Foge o tempo e mais tempo
sempre me acompanha o teu sorriso

passo os dias e as noites
sonhando com o teu sorriso

esse sorriso
me chama
me atrai
me sufoca
é por esse sorriso
que te amo
que te quero
que me perco

sempre
quero sempre lembrar
esse sorriso.


28Fev2015
Lumife
foto de Igor

sexta-feira, fevereiro 13, 2015

PORQUE EXISTES...




De ti, quero apenas a saudade
dum passado nosso, há tanto tempo
de ti, quero apenas a verdade
dum tempo loucura e sentimento.

Nada te peço, nada mais desejo
que a pálida sombra dessa era
vida em que tivemos o ensejo
de vivermos os dois em primavera.

Depois, foi o adeus, outras viagens;
e perdidos na bruma do instante
perdemo-nos de nós e fomos tristes...

encontrei-te hoje; outras paragens
vai-se a bruma com o sol radiante
e sou de novo feliz, pois tu existes!...

MARIA MAMEDE

NÃO DEIXES...


NÃO DEIXES...

Não deixes que meus dedos se entrelacem
nos fios da saudade;
Não deixes que meus olhos entardeçam
na luz doutros olhos
nem que outros beijos sulquem a minha boca
se são os teus que ela procura...
não deixes que meus dedos se espraiem
noutra almofada
que meu corpo, ávido de carícias
estiole noutros braços
que minha alma
padeça as raivas da perdição
por ser doutro a cama, o corpo a essência...
não deixes que sequem em mim
as flores da recordação
os prados da esperança
os rios do amor;
não deixes que meus dedos
se entrelacem
nos silvados da dor!...


MARIA MAMEDE
Foto de Dobrijan Aleksandr

"É lindo este poema..... não deixarei que te esqueças de mim pq eu tb jamais te esquecerei..... " 28jun2011-momentos

terça-feira, fevereiro 10, 2015

SAUDADE



SAUDADE.
Por que sinto falta de você? Por que esta saudade?
Eu não te vejo mas imagino tuas expressões, tua voz, teu cheiro.
Tua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder tua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você.
Machado de Assis.
foto da net

quinta-feira, janeiro 29, 2015

DIZ O MEU NOME





Diz o meu nome 
pronuncia-o 
como se as sílabas te queimassem 
                                  [os lábios 
sopra-o com a suavidade 
de uma confidência 
para que o escuro apeteça 
para que se desatem os teus cabelos 
para que aconteça 

Porque eu cresço para ti 
sou eu dentro de ti 
que bebe a última gota 
e te conduzo a um lugar 
sem tempo nem contorno 

Porque apenas para os teus olhos 
sou gesto e cor 
e dentro de ti 
me recolho ferido 
exausto dos combates 
em que a mim próprio me venci 

Porque a minha mão infatigável 
procura o interior e o avesso 
da aparência 
porque o tempo em que vivo 
morre de ser ontem 
e é urgente inventar 
outra maneira de navegar 
outro rumo outro pulsar 
para dar esperança aos portos 
que aguardam pensativos 

No húmido centro da noite 
diz o meu nome 
como se eu te fosse estranho 
como se fosse intruso 
para que eu mesmo me desconheça 
e me sobressalte 
quando suavemente 
pronunciares o meu nome 

Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'


Foto de Aleksander Szydlowski

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Estou Mais Perto de Ti porque Te Amo



Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

Foto de Aleksandr Krivickij