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A mostrar mensagens de Setembro, 2016

AS RAÍZES DO NOSSO AMOR

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Amo-te porque tudo em ti me fala de África,  duma forma completa e envolvente.  Negra, tão negramente bela e moça,  todo o teu ser me exprime a terra nossa,  em nós presente. 
Nos teus olhos eu vejo, como em caleidoscópio,  madrugadas e noites e poentes tropicais,  - visão que me inebria como um ópio,  em magia de místicos duendes,  e me torna encantado. (Perguntaram-me: onde vais?  E não sei onde vou, só sei que tu me prendes...) 
A tua voz é, tão perturbadoramente,  a música dolente dos quissanges tangidos  em noite escura e calma,  que vibra nos meus sentidos  e ressoa no fundo da minh'alma. 
Quando me beijas sinto que provo ao mesmo tempo  o gosto do caju, da manga e da goiaba,  - sabor que vai da boca até às vísceras  e nunca mais acaba... 
O teu corpo, formoso sem disfarce,  com teu andar dengoso, par…

PRAIA

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PRAIA

Feliz, quem sabe, o vento. Sem memória,
beijando-me nos lábios, ele abraça
o meu destino às cegas na paisagem.
É sempre nesse instante que regresso
à poalha do céu onde começa
talvez a maldição, talvez o encanto
de invocar-te em silêncio. Porque, eu sei,
entre palavras morre a cor dos sonhos,
o vão pressentimento de estar vivo.

Feliz talvez o vento e no entanto,
arrasta ainda areia e vagas vozes
na praia ao abandono. A luz da tarde
encobriu-se de névoa, só o mar
ficou perto de mim - agora é simples:
as ondas trazem novo o teu sorriso,
movem o seu abismo nos meus olhos,
mas lágrimas nenhumas vão salvar-me o corpo,
a alma, as cinzas, esta vida. 
Fernando Pinto do Amaral

Pintura - Betty Martins


PALAVRAS

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Palavras que se dizem ao ouvido
quando nos queima a febre do desejo
e só ganham sentido
se saírem dos lábios como um beijo.

Palavras murmuradas no calor
da mútua entrega
a deixar claro que o amor
nunca sossega.

Palavras revestidas de veludo
para afagar a vida
e que no meio da corrida
são elas próprias quase tudo.

Torquato da Luz
Pintura de Betty Martins

TER - TE

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Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.

Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.

Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.

Ter-te perto,
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã,
nascem exatamente em ti.

MIGUEL AFONSO ANDERSEN, in “Circum-Navegações” (Raiz perturbada)

Foto de Oleg Obukhov

AMOR AMANTE

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Ah, esse teu perfume que me deixa 
saudade e desperta doce lembrança,

ainda está em minhas mãos…



Ah, esse teu olhar que minh’alma invade

e me desnuda a ser em louco desejo,

e desperta doce lembrança,

ainda está em meu olhar…



Ah, esse teu corpo que se entrega

e se perde na carícia, no beijo,

e que recebe meu corpo quase cego,

e desperta doce lembrança,

ainda sinto ao meu lado…



Ah, esse amor que me consome,

maltrata sufoca e conforta,

é alimento, é vida, sabor de pecado…

faz renascer minh’alma quase morta…



Ah, essa saudade que sinto a

todo instante…

e desperta doce lembrança,

a certeza de que vivo,

de que amo… e sou amante…


Carlos Saad

.
Pintura de Rodica Toth Poiata

ORDEM DO DIA

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ORDEM DO DIA
Homens novos temperados pela guerra,
das fábricas enormes e cinzentas
- rasgai poemas na terra
com as vossas ferramentas! . Homens das oficinas e dos cais,
dos campos e da faina sobre o mar
- porque não ensinais
os poetas a cantar? . Algemados - não importa por que leis -
seja qual for a vossa raça e a vossa casta,
vinde dizer o que sabeis!
- Por agora é quanto basta. . Vinde das minas, dos fornos, das caldeiras,
vergados da descarga do carvão!
Vinde! Porque chegou enfim o dia
de apressar a tarefa inconcluída! . - E a poesia, esta poesia,
é um facho que vai de mão em mão
pelos caminhos da vida. . Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Companheira dos Homens"
Pedro Sidónio de Araújo Muralha (Lisboa, 28 de julho de 1920 - Curitiba, 8 de dezembro de 1982) foi um escritorportuguês. Ainda muito jovem colaborou com revistas e publicações literárias de algum modo associados ao que viria a ser o neo-realismoportuguês (como por exemplo "Mocidade Académica" e "Solução…

A LOUCURA DO POETA

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Que a voz do Poeta não se cale
Que os olhos do Poeta não se fechem

Que os seus versos sejam a sirene

Que alerta toda a gente à sua volta

Que o poema seja o grito inconformado

Dos braços que se erguem na revolta

Contra os braços curvados e a cerviz

Submissa ao peso da opressão

Que o poema seja sempre vertical

Um relâmpago enorme em noite escura

Que o Poema seja uma canção

E rasgue o medo em mil pedaços

Com versos de amor e de ternura

Espalhados por mil bocas e mil braços

Que o Poeta seja mais que um ser humano

E que tanja a lira do seu canto

Elevando a Poesia até ao céu

E que entregue aos homens o seu Fogo

Assumindo o papel de Prometeu..



Quando o Poeta escreve por Amor

A palavra torna-se a armadura

Com que o Homem vence a própria dor

E destrói o vírus da amargura...



É louco, o Poeta? Deixem lá:

O mundo precisa da loucura...



FERNANDO PEIX…

SE UM DIA A JUVENTUDE VOLTASSE

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Se um Dia a Juventude Voltasse
se um dia a juventude voltasse  na pele das serpentes atravessaria toda a memória  com a língua em teus cabelos dormiria no sossego  da noite transformada em pássaro de lume cortante  como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida 
sulcaria com as unhas o medo de te perder...eu  veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza  apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras  porque só aquele que nada possui e tudo partilhou  pode devassar a noite doutros corpos inocentes  sem se ferir no esplendor breve do amor 
depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio  de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos  mas aconteça o que tem de acontecer  não estou triste não tenho projectos nem ambições  guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos  espalho a saliva das vis…

ÁRVORE DE FRUTOS

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Cheiras ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios. Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito. No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido. Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
- António Mendes Cardoso - poeta angolano
Foto de Pascal Renoux