sábado, junho 24, 2017

O TEU RETRATO



O TEU RETRATO
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Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.
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Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!
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Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!
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Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!
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ANTÓNIO NOBRE (1867-1900)
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Foto de Aleksandr Krivickij
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quinta-feira, junho 22, 2017

UM CAMPO BATIDO PELA BRISA

A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho “um pensamento despido”;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.


Fernando Assis Pacheco


Foto de Denis Bogomolov

sábado, junho 03, 2017

A UMA MULHER DO MEU PAÍS



A UMA MULHER DO MEU PAÍS
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Abre as asas, tu que não desistes
de encontrar as asas nos teus braços
e com eles descobrires novos espaços.

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Abre as asas, tu que não desistes
de rasgar, no tempo, o calendário
que preenche, em cada dia, o teu diário.

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Abre as asas, tu que não desistes
de mostrar que és viva, e continuas
percorrendo, serena, as mesmas ruas.

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Abre as asas, tu que não desistes
de mudar a face da cidade
em ímpetos de arrojo e de vontade.

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Abre as asas, tu que não desistes
de enfrentar o sol que te encandeia
e quebra a tua última cadeia.
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Abre as asas, amor, e segue em frente,
voa sempre, voa sempre, sem cansaço,
e ensina a voar toda esta gente
que continua especada olhando o espaço.
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FERNANDO PEIXOTO
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Pintura de Rob Efferan

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