quinta-feira, novembro 30, 2017

BRINCADEIRA




Brinca comigo à procura
de uma estrela noutro céu
Brinca e lava a noite escura
com os sonhos que Deus te deu

Começa devagarinho
– por favor, não tenhas medo,
que o meu coração fez ninho
dentro do teu em segredo

Acorda os anjos que dormem
com a luz do teu sorriso
Faz com que não se conformem
e saiam do paraíso

Deixa-os entrar de repente
no teu quarto, a esta hora
em que a verdade mais quente
é o sono que te devora

Brinca comigo às escuras,
ensina-me o que não sei
Onde estás? Porque procuras
o coração que te dei?

Fernando Pinto do Amaral

domingo, novembro 26, 2017

QUANTAS VEZES TE ESPEREI NESTE LUGAR ...






Quantas vezes te esperei neste lugar
quantas vezes pensei que não chegavas
quantas vezes senti a rebentar
o coração se ao longe te avistava.

Quantas vezes depois de teres chegado
nos colámos no beijo que tardava
quantas vezes trementes e calados
nos entregámos logo sem palavras.

Quantas vezes te quis e te inventei
quantas vezes morri e já não sei.

Torquato da Luz

Foto Remi Aerts

quarta-feira, novembro 22, 2017

QUASE NADA





Tenho-te aqui ao meu lado;
se quiser tenho na mão 
teus cabelos negros, negros;
acaricio o teu rosto
com trejeitos meigos, sábios.
Se quiser beijo os teus lábios;
se quiser tenho o teu corpo
esbelto, de ébano loiro...
Tudo em ti me faz lembrar
que tenho um lindo tesoiro!
Não é preciso falar,
que é bela a nossa paixão,
sobre o chão
à luz da vela!

Se eu quisesse confessava
que eras agora o meu mundo.
Gosto de ti!
Sei que é pouco!
Sendo pouco,
É quase tudo! 

Humberto Sotto Mayor

Foto de Svetlana Melik-Nubarova

terça-feira, novembro 21, 2017

MEU ANJO, ESCUTA



Meu anjo, escuta: quando junto à noite
Perpassa a brisa pelo rosto teu,
Como suspiro que um menino exala;
Na voz da brisa quem murmura e fala
Brando queixume, que tão triste cala
No peito teu?
Sou eu, sou eu, sou eu!

Quando tu sentes lutuosa imagem
D'aflito pranto com sombrio véu,
Rasgado o peito por acerbas dores;
Quem murcha as flores
Do brando sonho? — Quem te pinta amores
Dum puro céu?
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém te acorda do celeste arroubo,
Na amenidade do silêncio teu,
Quando tua alma noutros mundos erra,
Se alguém descerra
Ao lado teu
Fraco suspiro que no peito encerra;
Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguém se aflige de te ver chorosa,
Se alguém se alegra co'um sorriso teu,
Se alguém suspira de te ver formosa
O mar e a terra a enamorar e o céu;
Se alguém definha
Por amor teu,
Sou eu, sou eu, sou eu!


GONÇALVES DIAS
(poeta e teatrólogo brasileiro. 1823/1864)


Foto de Anton Postnikov

domingo, novembro 19, 2017

CANÇÃO DE ENGANAR A TRISTEZA



Se a tristeza um dia
te encontrar triste sózinho
trata bem dela
porque a tristeza quer carinho
E fala sobre a beleza
com tanta delicadeza
Por não ter nenhum carinho
que ela só existe
por não ter nenhum carinho
E dá-lhe um amor tão lindo
que quando ela se for indo
ela vai contente
de ter tido o teu carinho

Vinícius de Moraes


sábado, novembro 11, 2017

CARTA A ÂNGELA - CARLOS OLIVEIRA




Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e de sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos Alberto Serra de Oliveira (n.em Belém do Pará a 10 de Ago 1921, m. em Lisboa a 1 Jul de 1981)

quarta-feira, novembro 08, 2017

NU




Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –

Brilham. Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua...

Manoel Bandeira


Foto de Tailer Derden

UN SOUVENIR HEUREUX




UN SOUVENIR HEUREUX


Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
ALFRED DE MUSSET




Ó musa, por que vieste
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?


Não sabes o quanto dói
Uma lembrança que rói
A fibra que adormeceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minh'alma viveu.



Eu vejo ainda a janela
Onde, à tarde, junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d'enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair?



Minh'alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperança...
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali, amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi,
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios, onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!



Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver...
Tão doce, que em mim sentia
Que minh'alma se esvaía...
E eu pensava ali morrer!

ÁLVARES DE AZEVEDO
1831/1852

domingo, novembro 05, 2017

A CURVA DOS TEUS OLHOS...





A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume, 
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso de um manancial de auroras
Abandonado sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Eluard 
(1895-1952)

sábado, novembro 04, 2017

FRESCO VERGEL ...



Fresco vergel que o vento
da madrugada enflora:

As mãos são como foices
que vão ceifando a aurora.


Disperso, o amor recorda
a vida toda.

RAUL DE CARVALHO.
In Poesia.

O ÚLTIMO POEMA

O último poema Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse a...