quarta-feira, maio 16, 2018

O ÚLTIMO POEMA



O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

MANOEL BANDEIRA



domingo, abril 29, 2018

DOCE ILUSÃO



Doce ilusão que foges perseguida
Como gazela tímida e medrosa
Ou como nuvem pelo céu batida
Ao sopro de uma aragem silenciosa:

Levas contigo, ó pomba gloriosa !
A esvoaçar em busca de guarida,
O meu amor, a desmaiada rosa !
Levas contigo o coração e a vida.

E nunca mais, no exílio onde agonizo,
A melindrosa flor do teu sorriso
Há-de ostentar as pétalas vermelhas ...

Mas na estância feliz que eu não devasso
Encontrarás meus beijos, pelo espaço,
Em busca de teus lábios, como abelhas.

ANTÓNIO FEIJÓ

quarta-feira, abril 11, 2018

FLASHBACK



Podia ser aí. Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.
.
Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.
.
Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

.
NUNO JÚDICE

terça-feira, março 13, 2018

O QUE DEIXO POR LEGADO


Molda-se por dentro
a chave com que me abro.

Já não
sei do meu princípio.

De nascença
não sou de alma, mas de pedra.

Eis o que deixo:
de todos os tamanhos, os sonhos
de todas as cores, os amores.

Se achardes magra a herança
em meus versos buscai
uns poucos e inábeis milagres,
palavras que acreditava inventar
e que era a mim que inventavam.

Não terei, no fim,
senão uma única morada:
a luz que nasce nos olhos teus.




MIA COUTO 



Foto de Aleksandr Krivickij 

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

A NOITE É TRISTE ...



A noite é triste ...
 - faz lembrar a lua
Perdida além na vastidão do espaço
Naquela rua aquietada, nua,
Guitarras gemem quando nela passo ...

Guitarras gemem músicas sombrias,
Penas de alguém que se perdeu no mar ...
Músicas - máguas, sombras - sinfonias,
Notas doridas
- ondas a quebrar ...

Notas doridas de um amor ausente ...
Na rua escura, quando nela passo,
Acorda a vida
- languidez silente,
Canção perdida no tempo e no espaço ...

DANIEL FILIPE

domingo, fevereiro 18, 2018

SONHO DOMADO


Sei que é preciso sonhar

Campo sem orvalho, seca
a frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

THIAGO DE MELLO


In Mormaço na Floresta, 1981

Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha, 30 de março de 1926) é um poeta e tradutor brasileiro.

Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

CANÇÃO DE AMOR



Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito.
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto.
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou.
Amo-te como amo aquilo que te dou.

Amo-te como um vinho antigo
Um mosto doce.
Amo-te como a Primavera
Que te trouxe.
Quero-te como se te amasse por encanto.
Só sei amar-te assim
Como se fosse a mim.

E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti
constantemente.
A um tempo só:
O futuro e o passado no presente.
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor
Sem deixar de ser paixão

FERNANDO TAVARES RODRIGUES

sábado, fevereiro 10, 2018

NESTE DIA DE MAR E NEVOEIRO



Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto


São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses


Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse




Sophia de Mello Breyner Andresen


Foto de Dimitr Stoyanov

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

CISMAR


Ai! quando de noite, sozinha à janela
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? no céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuraram...
As folhas sussurram:
Amar!

ALVARES DE AZEVEDO

quinta-feira, janeiro 25, 2018

TU HABITAS EM MIM


TU HABITAS EM MIM
.
Tu habitas em mim, eu sinto-te fremir,
Balsâmico frescor, em cada fibra minha.
Caminho iluminado duns olhos a sorrir
E não me importa a vida medíocre, mesquinha.
.
Basta-me a tua alma eleita, meu amor,
P´ra me sentir erguer duma existência inerme:
- Transmites uma força, induzes um calor
Que sinto aflorar em ondas à epiderme.
.
E eu que vegetava (amarga letargia
Que submerge a alma em vagas de não-ser)
Rebento com furor os elos da apatia
E gozo a alegria imensa de viver.
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António Almeida
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Foto de Aleksandr Krivickij
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terça-feira, janeiro 02, 2018

OS AMANTES DE NOVEMBRO




Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes são sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados tão engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma estátua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

ALEXANDRE O`NEILL

Art - Pintura de Kristodulakis

O ÚLTIMO POEMA

O último poema Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais Que fosse a...