quarta-feira, fevereiro 28, 2018

A NOITE É TRISTE ...



A noite é triste ...
 - faz lembrar a lua
Perdida além na vastidão do espaço
Naquela rua aquietada, nua,
Guitarras gemem quando nela passo ...

Guitarras gemem músicas sombrias,
Penas de alguém que se perdeu no mar ...
Músicas - máguas, sombras - sinfonias,
Notas doridas
- ondas a quebrar ...

Notas doridas de um amor ausente ...
Na rua escura, quando nela passo,
Acorda a vida
- languidez silente,
Canção perdida no tempo e no espaço ...

DANIEL FILIPE

domingo, fevereiro 18, 2018

SONHO DOMADO


Sei que é preciso sonhar

Campo sem orvalho, seca
a frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.

THIAGO DE MELLO


In Mormaço na Floresta, 1981

Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha, 30 de março de 1926) é um poeta e tradutor brasileiro.

Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

CANÇÃO DE AMOR



Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito.
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto.
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou.
Amo-te como amo aquilo que te dou.

Amo-te como um vinho antigo
Um mosto doce.
Amo-te como a Primavera
Que te trouxe.
Quero-te como se te amasse por encanto.
Só sei amar-te assim
Como se fosse a mim.

E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti
constantemente.
A um tempo só:
O futuro e o passado no presente.
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor
Sem deixar de ser paixão

FERNANDO TAVARES RODRIGUES

sábado, fevereiro 10, 2018

NESTE DIA DE MAR E NEVOEIRO



Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto


São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses


Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse




Sophia de Mello Breyner Andresen


Foto de Dimitr Stoyanov

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

CISMAR


Ai! quando de noite, sozinha à janela
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? no céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuraram...
As folhas sussurram:
Amar!

ALVARES DE AZEVEDO

Desfolhando

Desfolhando  . Essa boca, pequena, e assim vermelha, que ao botão de uma rosa se assemelha, - quanta vez provocava os meus desejos...