domingo, fevereiro 18, 2018

SONHO DOMADO


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Sei que é preciso sonhar. 
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Campo sem orvalho, seca 
A frente de quem não sonha.
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Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.
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A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.
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Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
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Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.
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É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
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THIAGO DE MELLO
In Mormaço na Floresta, 1981

Amadeu Thiago de Mello (Barreirinha, 30 de março de 1926) é um poeta e tradutor brasileiro.

Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

CANÇÃO DE AMOR



Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito.
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto.
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou.
Amo-te como amo aquilo que te dou.

Amo-te como um vinho antigo
Um mosto doce.
Amo-te como a Primavera
Que te trouxe.
Quero-te como se te amasse por encanto.
Só sei amar-te assim
Como se fosse a mim.

E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti
constantemente.
A um tempo só:
O futuro e o passado no presente.
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor
Sem deixar de ser paixão

FERNANDO TAVARES RODRIGUES

sábado, fevereiro 10, 2018

NESTE DIA DE MAR E NEVOEIRO



Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto


São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses


Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse




Sophia de Mello Breyner Andresen


Foto de Dimitr Stoyanov

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

CISMAR


Ai! quando de noite, sozinha à janela
Co'a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? no céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuraram...
As folhas sussurram:
Amar!

ALVARES DE AZEVEDO

SONHO DOMADO

. Sei que é preciso sonhar.  . Campo sem orvalho, seca  A frente de quem não sonha. . Quem não sonha o azul do voo perde seu poder de pá...