quinta-feira, julho 12, 2012

TROVAS






Não é um sonho o teu corpo,
nem ilusão o que em mim sente
quando penso em ti, e o que penso
faz o que sinto mais presente.

É tão real o que digo disto
que me dizes quando falas,
e te ouço dizer o que eu digo
nesse instante em que te calas.

E esta imagem que possuo,
se ta roubei, foi porque a deste
sem que a pedisse, ao pedi-la
no gesto com que a ofereceste.

Por isso digo que sou teu,
e tu és minha, sem o dizer,
apenas no sonho que trocamos
deste amor que nos faz viver.



NUNO JÚDICE

In O Estado dos Campos


Foto de Alexander Motylev




quinta-feira, junho 28, 2012

A TUA BOCA. A TUA BOCA.





A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor de rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.


JOAQUIM PESSOA

In Os olhos de Isa


Foto de Aleksandr Talyuka

quinta-feira, junho 21, 2012

NU





Despi-me na rua do teu corpo
E nu de mim fiquei à tua espera.
Mas que espera um corpo quase morto
Que lhe traga de novo a Primavera ?

Nu de mim, vazio de ti e absorto
Quedei-me nesta dor que desespera,
Sem saber se nasci ou sou aborto
Se sou animal manso ou bruta fera.

Nu de mim estou, porque não sei
Vestir-me do amor que te não dei
Cobrir-te com o amor que me inspiraste.

Nu e sedento estou por não beber
Na fonte dos teus olhos, do teu ser,
A água pura que em sorrisos me enviaste.


NOGUEIRA PARDAL


Pintura de William Bouguereau




quarta-feira, junho 13, 2012

AMOR DE LENDA






Formosa Né! Ó Musa dos meus versos !
Desprende os teus cabelos, que, dispersos,
Caindo sobre as luas dos teus ombros,
Me causes pasmo, admiração, assombros...
Desprende-os ... Vá ! Pareça o teu cabelo
Chuveiro d´ oiro em píncaros de gelo,
Ou, nos marmóreos ombros, loira amada,
A própria luz do sol, cristalizada ...
E vem, original, sem mais enfeite,
Lançar no meu pescoço as mãos de leite,
Com essas madrepérolas das unhas ...
Deixa o mundo falar, as testemunhas ...
Isso que tem !? Amemo-nos sem medo !
Jamais dum grande amor se fez segredo !
És minha ! Deus ungiu da mesma sorte
O teu viver e o meu até à morte !
Hesitas ? ... Vem ! Os dois, se nos amamos,
Cruzemos nossas vidas como os ramos,
Em tudo irmãos, quer na alegria ou luto
E, qual os ramos, dêmos flor e fruto,
Que o nosso amor seja o maior, mais puro,
Na história do passado e do futuro !
E digam todos com razão e espanto :
"Amor de lenda - pois se querem tanto ..."

GENTIL DE VALADARES

25-02-1916 // 17-09-2006


Foto de Dieter Plogmann

segunda-feira, junho 04, 2012

PÁGINA DE DIÁRIO




Assim que, aportando, a primavera


trouxe o rastro de rosas e andorinhas


à janela do quarto onde habito


trouxe também a pomba que, noturna


vigilante velou do parapeito


minha saudade da janela antiga


de um quarto onde dormia, bem-amada

enquanto as pombas lá fora iam ruflando

as asas que abriam a madrugada


MARIA DE LOURDES HORTAS



quinta-feira, maio 31, 2012

SEI QUE O SILÊNCIO MORDE A MINHA BOCA





Sei que o silêncio morde a minha boca.
Hoje, na melancolia de um fim de tarde,
Chamei por uma estrela solitária.
Essa que morreu antes de chamar pelo teu nome.
Sei hoje que a tua ausência
É a voz do silêncio do meu corpo,
O tempo que faltou ao nosso encontro,
Se pudesse ser outro que não eu
Talvez me pudesse despir de antigas mortes
E olhar-te na madrugada súbita dos teus olhos
E dizer-te que amanhã
É sempre o dia em que te procuro.
Amanhã, será sempre o dia em que te digo
"Amo-te" .

PAULO EDUARDO CAMPOS

In "Na serenidade dos rios que enlouquecem"

domingo, maio 27, 2012

SONHOS


Sonho-te 

que sonhando-me 

sonhas-me, 

em teus braços, 

mil beijos 

sussurrados



 Sonho-te 

e sonhando-me 

amo-te 

no rasgar da pele 

buscando 

carícias longas 

entregando-me 


 Sonho-te 

no abraço incontido

 corpo entregue 

vencido 

em noites de vendaval 


 E esse perfume errante

 --- seiva quente --- 

dá vida dá alento 

mesmo que não passando 

de ilusão, 

que se desfaz em nada, 

tal qual nuvem 

em tarde de verão. 


 Sonho-te 

que sonhando-me

sonhas-me... 



 amando-te...

 

 OTÍLIA MARTEL 


 Foto de Julia Nikonchuk

quarta-feira, maio 23, 2012

CANTIGA






Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.


CABRAL DO NASCIMENTO

1897/1978


Foto de Svetlana Melik-Nubarova

sábado, maio 19, 2012

BALADA DO GELO



há nestas noites perdidas
a dor gelada do teu corpo ausente
do abraço das tuas pernas fendidas
desabrochando num sorriso quente.

é a saudade dolorida
das tuas mãos cruéis
que me rasgam a pele ferida,
desenhando no meu corpo
o mapa do teu desejo,
a mordedura da tua boca salgada
percorrendo-me insaciada
na tortura de um longo beijo.

sempre nestas noites perdidas,
a dor gelada do teu corpo ausente,
da prisão das tuas pernas rendidas
desabrochando num gemido quente.

e quando o sol começa a despontar
e eu consigo adormecer,
juro-te, minha querida,
que nunca mais quero acordar.


ANTÓNIO MAGA


Foto de Alexander Eliseev



quarta-feira, maio 16, 2012

MARIA







Todo o passado, para mim, é morto,
e, no futuro, há só esperança infinda
que eu sinto n' alma quando lembro, absorto,
essa mulher divinamente linda.

Queria viver, nas sombras de algum horto,
longe do mundo, o sonho que não finda !
Viver com ela, viver nela, e absorto,
morrer com ela, enamorado ainda !

Que a vida, sem amor, é desventura ;
e, se a não vejo, eu vejo fatalmente,
em toda a parte, a dor que me tortura.

Ah, mas se a vida é o seu amor somente,
porque sinto, meu deus, esta amargura
de a não poder amar eternamente ?


GUILHERME DE FARIA

1907/1929



quinta-feira, maio 10, 2012

MULATA


corpo de mulata 

corpo de batuques e luar 

corpo de serpente 

a enroscar-se na árvore 

corpo de mel e malícia 

onde mãos buscam frementes 

poemas de luz e cor 

onde beijos estremece 

entre seios ponteagudos 

onde o sexo é uma flor 

a oferecer as sementes 

aos quatro cantos do mundo 

corpo esguio e feiticeiro 

por onde passa o amor 

e fica ainda mais belo. 



 MARIA OLINDA BEJA 


 Maria Olinda Beja Martins Assunção, nasceu em Guadalupe em 1946 (São Tomé e Príncipe), sendo porém de nacionalidade portuguesa. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) pela Universidade do Porto, Olinda Beja é docente do Ensino Secundário desde 1976. Ensina também Língua e Cultura Portuguesa na Suíça, é assessora cultural da Embaixada de São Tomé e Príncipe e dinamizadora cultural. Publicou os livros de poemas 'Bô Tendê?', 'Leve, Leve', 'No País do Tchiloli', 'Quebra-Mar' e 'Água Crioula', os romances 'A Pedra de Villa Nova', '!5 Dias de Regresso' e 'A Ilha de Izunari' e ainda livros de contos. (nescritas.com)

quinta-feira, maio 03, 2012

NINGUÉM






Embriaguei-me num doido desejo
e adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
não me encontro, não me vejo -
perscruto a imensidade

E fico a tactear na escuridão
ninguém. ninguém
nem eu, tão pouco !

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco


JUDITH TEIXEIRA

domingo, abril 22, 2012

CANÇÃO DO AMOR DISTANTE


Ela não foi, dentre todas, a mais bela, 

mas me deu o amor mais fundo e longo. 

Outras me amaram mais; e, no entanto, 

a nenhuma desejei como a ela. 


 Talvez porque a amei de longe, 

como a uma estrela desde minha janela… 

e a estrela que brilha mais distante 

nos parece que tem mais reflexos. 


 Tive seu amor como uma coisa distante 

como uma praia cada vez mais solitária, 

que unicamente guarda da onda 

uma umidade de sal sobre a areia. 


 Ela esteve em meus braços sem ser minha, 

como a água no cântaro sedento, 

como um perfume que se foi no vento 

e que volta no vento todavia. 


 Me penetrou sua sede insatisfeita 

como um arado sobre a planície, 

abrindo em seu fugaz desprendimento 

a esperança feliz da colheita. 


 Ela foi o próximo no longínquo, 

mas preenchia todo o vazio, 

como o vento nas velas do navio, 

como a luz no espelho quebrado. 


 Por isso ainda penso na mulher, aquela, 

a que me deu o amor mais fundo e longo… 

Nunca foi minha. Não era a mais bela. 

Outras me amaram mais… E, no entanto, 

a nenhuma desejei como a ela. 


 JOSÉ ANGEL BUESA 


 Foto de Juan Velasco

quarta-feira, abril 18, 2012

ACORDANDO


Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta 

Este meu vão sofrer; esta agonia, 

Como sobe cantando a cotovia, 

Para o céu a minh'alma sobe e canta. 


 Canta a luz, a alvorada, a estrela santa, 

Que ao mundo traz piedosa mais um dia... 

Canta o enlevo das cousas, a alegria 

Que as penetra de amor e as alevanta... 


 Mas, de repente, um vento humido e frio 

Sopra sobre o meu sonho: um calafrio 

Me acorda. — A noite é negra e muda: a dor 


 Cá vela, como d'antes, ao meu lado... 

Os meus cantos de luz, anjo adorado, 

São sonho só, e sonho o meu amor! 


 ANTERO DE QUENTAL 


 Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842 — Ponta Delgada, 11 de setembro de 1891) foi um escritor e poeta Português, nascido na Ilha de São Miguel, Açores . 

 A poesia de Antero de Quental apresenta três faces distintas:

 -A das experiências juvenis, em que coexistem diversas tendências; 

-A da poesia militante, empenhada em agir como “voz da revolução”; 

-E a da poesia de tom metafísico, voltada para a expressão da angustia de quem busca um sentido para a existência. A oscilação entre uma poesia de combate, dedicada ao elogio da acção e da capacidade humana, e uma poesia intimista, direcionada para a análise de uma individualidade angustiada, parece ter sido constante na obra madura de Antero, abandonando a posição que costumava enxergar uma sequência cronológica de três fases. 

 Antero atinge um maior grau de elaboração em seus sonetos, considerados por muitos críticos uns dos melhores da língua e comparados aos de Camões e aos de Bocage. Há, na verdade, alguns pontos de contato estilísticos e temáticos entre esses três poetas: os sonetos de Antero têm inegável sabor clássico, quer na adjetivação e na musicalidade equilibrada, quer na análise de questões universais que afligem o homem. (Wikipédia) 


 Foto de Dimitar Variysky

domingo, abril 15, 2012

O SEU NOME É MUITO PRÓPRIO DELA




O seu nome é GRAcioso e muito próprio dela:
Respira um vago tom de música inocente;
E lembra a placidez de um lago transparente;
Recorda a emanação tranquila duma estrela.

Lembra um título bom, que logo nos revela
A ideia do poema. E todo o mundo sente
Não sei que afinidade entre o seu ar dolente,
a sua morbidezza, e o próprio nome dela.

E chego acreditar - ingenuamente o digo -
Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo
Em traduzi-lo enfim numa expressão qualquer:

De forma que a mulher suave e GRAciosa
Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa,
E este nome gentil faz parte da mulher.

GUILHERME DE AZEVEDO


Pintura de Iman Maleki

Guilherme Avelino Chave de Azevedo (1839-1882) nasceu em Santarém e faleceu em Paris. Estudou Humanidades no liceu de Santarém, tendo fundado e dirigido o jornal O Alfageme (1871). Fixa-se em Lisboa, onde se junta à Geração de 70, participando nas Conferências do Casino. Colaborou na Lanterna Mágica e no Álbum das Glórias, este último ilustrado com caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro. Sendo correspondente jornalístico do Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, parte em 1880 para Paris, onde viria a falecer. As influências poéticas sofridas vão de Lamartine a Victor Hugo, mostrando a sua poesia algumas semelhanças com a de Cesário Verde. Obras poéticas: Aparições (1867), Radiações da Noite (1871) e A Alma Nova (1874). Em colaboração com Guerra Junqueiro, escreveu Viagem à Roda da Parvónia
Origem: Projecto Vercial 





quinta-feira, abril 12, 2012

A D E U S


Mon coeur, encore plein d'elle, errait sur son visage Et ne Ia trouvait plus. MUSSET.


 Porém de súbito acordou do ergástulo
O precito, que ali jazia há pouco...
E o pensamento habituado às trevas
Atirado na luz... — pássaro louco!

Vi de repente o passado
Erguer-se em face de mim...
A rir... a rir, como espectro,
De uma ironia sem fim.

 A orquestra, as luzes, o teatro, as flores
Tu no meio da festa que fulgura
Tu! sempre a mesma! a mesma! Tu! meu Deus!
Não morri neste instante de loucura ...

 Quebra-te pena maldita
Que não podes escrever
A horror de angústias e mágoas
Que então me viste sofrer.

 A mesma fronte que amei outrora!
O mesmo riso que me vira um dia!
O mesmo olhar que me perdera a vida!
A mesma, a mesma, por quem eu morria!

 Que saudades que eu tenho do passado,
Da nossa mocidade ardente e amante!
Meu Deus! Eu dera o resto de existência
Por um momento assim... por um instante.

 Mas não! entre nós o abismo
Se estende negro e fatal...
— Jamais! — é palavra escrita
No céu, na terra, no val.

 Eu — já não tenho mais vida!
Tu — já não tens mais amor!
Tu — só vives para os risos.
 Eu — só vivo para a dor.

 Tu vais em busca da aurora!
Eu em busca do poente!
Queres o leito brilhante!
Eu peço a cova silente!

 Não te iludas! O passado
P'ra sempre quebrado está!
Desce a corrente do rio...
E deixa-o sepulto lá!

 Viste-me... E creste um momento
Qu'inda me tinhas amor!.
Pobre amiga! Era lembrança,
Era saudade... era dor!

 Obrigado! Mas na terra
Tudo entre nós se acabou!
Adeus! ... É o adeus extremo...
A hora extrema soou.

Quis te odiar, não pude. — Quis na terra
Encontrar outro amor. — Foi-me impossível.
Então bendisse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.

 Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua,
Não quero mais teu amor! Porém minh'alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.



 CASTRO ALVES


 Foto de Vlad Belin

terça-feira, abril 03, 2012

VIVO NA ESPERANÇA DE UM GESTO

Vivo na esperança de um gesto 

 Que hás-de fazer. 

 Gesto, claro, é maneira de dizer, 

 Pois o que importa é o resto 

 Que esse gesto tem de ter. 

 Tem que ter sinceridade 

 Sem parecer premeditado; 

 E tem que ser convincente, 

 Mas de maneira diferente 

 Do discurso preparado. 

 Sem me alargar, não resisto 

 À tentação de dizer 

 Que o gesto não é só isto... 

 Quando tu, em confusão, 

 Sabendo que estou à espera, 

 Me mostras que só hesitas 

 Por não saber começar, 

 Que tentações de falar! 

 Porque enfim, como adivinhas, 

 Esse gesto eu sei qual é, 

Mas se o disser, já não é... 


 REINALDO FERREIRA 


 Foto de Vyacheslav Sokhin

sexta-feira, março 30, 2012

ESTRELA DA TARDE




Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia 

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia 

Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia 

Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia 


 Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia 

E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria 

Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia 

Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia 


 Meu amor, meu amor 

Minha estrela da tarde 

Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde 

Meu amor, meu amor 

Eu não tenho a certeza 

Se tu és a alegria ou se és a tristeza 

Meu amor, meu amor 

Eu não tenho a certeza 


 Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram 

Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram 

Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram 

E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram 


 Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram 

Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam 

Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram 

E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram 


 Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto 

É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto 

Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto 

Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto 


 Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto! 


 ARY DOS SANTOS 

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7 de Dezembro de 1937 -- 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e diseur de poesia português. 


Foto de Sergey Ryzhkov

sábado, março 24, 2012

FADO SONETO






Cada manhã era a véspera da surpresa,
de silêncio em silêncio anunciada.
De encanto se tecia e de tristeza
essa noite cada vez mais desejada.



Do teu corpo prometido ainda o cheiro,
do teu ventre revelado ainda a chama.
A saudade do que foi um dia inteiro
na moldura do que foi a nossa cama.



Cada minuto um punhal impaciente,
cada gesto uma carícia antecipada,
cada suspiro um excesso de ar eloquente.



E a surpresa da surpresa desejada:
o sabor desse teu corpo adolescente
de mulher em cada beijo renovada.



FERNANDO TAVARES RODRIGUES

Professor universitário, sociólogo e escritor, Fernando Jácome de Castro Tavares Rodrigues (1954 - 2006) nasceu em Lisboa, no dia 7 de Março de 1954. Faleceu em Lisboa a 1 de Março de 2006.


Pintura de Iman Maleki

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS . São como cristal as palavras. Algumas, um punhal um incêndio. Outras orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Insegu...