sexta-feira, agosto 31, 2012

POEMA DE AMOR





Esculpi-te na água
De todas as nascentes.
Nas raízes das árvores, nas folhas e nos frutos,
Nos troncos mais firmes
E nas copas brancas.
Esculpi-te nos ventos que vão para sempre
E nos que regressam à rosa quebrada
Carregados de cores.
Esculpi-te nas rosa-dos-ventos.
Esculpi-te no fogo diurno.
No avesso do fogo.
Esculpi-te na terra.
Esculpi-te na sombra, no silêncio...
--Levantaram-se chamas.


CRISTOVAM PAVIA

terça-feira, agosto 21, 2012

DEIXA O OLHAR DO MUNDO




Deixa que o olhar do mundo enfim devasse

Teu grande amor que é teu maior segredo!

Que terias perdido, se, mais cedo,

Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos!

Mostra-me sem medo

Aos homens, afrontando-os face a face:

Quero que os homens todos, quando eu passe,

Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais!

Ando tão cheio

Deste amor, que minh'alma se consome

De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:

E, fatigado de calar teu nome,

Quase o revelo no final de um verso.

(Olavo Bilac)

domingo, agosto 19, 2012

ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO


Estou mais perto de ti porque te amo. 

Os meus beijos nascem já na tua boca. 

Não poderei escrever teu nome com palavras. 

Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me. 


 Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto. 

Quero a tua boca aberta em minha boca. 

E amo-te como se nunca te tivesse amado 

Porque tu estás em mim mas ausente de mim. 



 Nessa noite sei apenas dos teus gestos 

E procuro o teu corpo para além dos meus dedos. 

Trago as mãos distantes do teu peito. 


 Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte. 

Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim. 

E eu estou perto de ti porque te amo. 


 JOAQUIM PESSOA

terça-feira, julho 31, 2012

LEMBRANÇAS DO LUGAR






Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!

Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...

Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...

Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...

Afonso Estebanez

terça-feira, julho 24, 2012

MAR DE MIM ....







Quem me dera mar, ser teu irmão;
Ter por limite as linhas da distância;
Depois, poder voltar à minha infância
Num veleiro chamado coração.

Quem me dera mar, tua ambição;
Teu correr nas marés, tua fragrância,
Copiar-te das ondas a elegância,
Roubar teus tons de azul... p'ra uma canção!

Depois, espreguiçar-me em marés-cheias,
Beijar de qualquer praia, as areias,
Alternar um mar chão, com tempestade,

Cantar canções de amor com as sereias,
Enlear-me, inconsciente, em suas teias,
P'ra sepultar no mar... minha ansiedade !


ORLANDO FERNANDES

(In Nova Antologia de Poetas Alentejanos)

Foto de Petros L

sexta-feira, julho 20, 2012



Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata,
Meu amor perdido que a saudade aquece.
Na cidade exangue donde eu vim poeta
Lembro a voz do vento que hoje me entristece...

Lembro as tuas faces, meu amor ausente,
Que a lembrança guarda no seu fumo triste,
Que paisagens novas me fizeram pobre
Nesta alma exausta que hoje em mim existe.

Ó sol, meu padrinho, flor do céu !
Que alegria, amor, quando o sol perdoa.
Há gemidos novos na paisagem nova
Meu amor perdido que em minha alma soa.


ANTUNES DA SILVA, Canções do Vento


Pintura de Domenico Feti


quinta-feira, julho 12, 2012

TROVAS






Não é um sonho o teu corpo,
nem ilusão o que em mim sente
quando penso em ti, e o que penso
faz o que sinto mais presente.

É tão real o que digo disto
que me dizes quando falas,
e te ouço dizer o que eu digo
nesse instante em que te calas.

E esta imagem que possuo,
se ta roubei, foi porque a deste
sem que a pedisse, ao pedi-la
no gesto com que a ofereceste.

Por isso digo que sou teu,
e tu és minha, sem o dizer,
apenas no sonho que trocamos
deste amor que nos faz viver.



NUNO JÚDICE

In O Estado dos Campos


Foto de Alexander Motylev




quinta-feira, junho 28, 2012

A TUA BOCA. A TUA BOCA.





A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor de rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.


JOAQUIM PESSOA

In Os olhos de Isa


Foto de Aleksandr Talyuka

quinta-feira, junho 21, 2012

NU





Despi-me na rua do teu corpo
E nu de mim fiquei à tua espera.
Mas que espera um corpo quase morto
Que lhe traga de novo a Primavera ?

Nu de mim, vazio de ti e absorto
Quedei-me nesta dor que desespera,
Sem saber se nasci ou sou aborto
Se sou animal manso ou bruta fera.

Nu de mim estou, porque não sei
Vestir-me do amor que te não dei
Cobrir-te com o amor que me inspiraste.

Nu e sedento estou por não beber
Na fonte dos teus olhos, do teu ser,
A água pura que em sorrisos me enviaste.


NOGUEIRA PARDAL


Pintura de William Bouguereau




quarta-feira, junho 13, 2012

AMOR DE LENDA






Formosa Né! Ó Musa dos meus versos !
Desprende os teus cabelos, que, dispersos,
Caindo sobre as luas dos teus ombros,
Me causes pasmo, admiração, assombros...
Desprende-os ... Vá ! Pareça o teu cabelo
Chuveiro d´ oiro em píncaros de gelo,
Ou, nos marmóreos ombros, loira amada,
A própria luz do sol, cristalizada ...
E vem, original, sem mais enfeite,
Lançar no meu pescoço as mãos de leite,
Com essas madrepérolas das unhas ...
Deixa o mundo falar, as testemunhas ...
Isso que tem !? Amemo-nos sem medo !
Jamais dum grande amor se fez segredo !
És minha ! Deus ungiu da mesma sorte
O teu viver e o meu até à morte !
Hesitas ? ... Vem ! Os dois, se nos amamos,
Cruzemos nossas vidas como os ramos,
Em tudo irmãos, quer na alegria ou luto
E, qual os ramos, dêmos flor e fruto,
Que o nosso amor seja o maior, mais puro,
Na história do passado e do futuro !
E digam todos com razão e espanto :
"Amor de lenda - pois se querem tanto ..."

GENTIL DE VALADARES

25-02-1916 // 17-09-2006


Foto de Dieter Plogmann

segunda-feira, junho 04, 2012

PÁGINA DE DIÁRIO




Assim que, aportando, a primavera


trouxe o rastro de rosas e andorinhas


à janela do quarto onde habito


trouxe também a pomba que, noturna


vigilante velou do parapeito


minha saudade da janela antiga


de um quarto onde dormia, bem-amada

enquanto as pombas lá fora iam ruflando

as asas que abriam a madrugada


MARIA DE LOURDES HORTAS



quinta-feira, maio 31, 2012

SEI QUE O SILÊNCIO MORDE A MINHA BOCA





Sei que o silêncio morde a minha boca.
Hoje, na melancolia de um fim de tarde,
Chamei por uma estrela solitária.
Essa que morreu antes de chamar pelo teu nome.
Sei hoje que a tua ausência
É a voz do silêncio do meu corpo,
O tempo que faltou ao nosso encontro,
Se pudesse ser outro que não eu
Talvez me pudesse despir de antigas mortes
E olhar-te na madrugada súbita dos teus olhos
E dizer-te que amanhã
É sempre o dia em que te procuro.
Amanhã, será sempre o dia em que te digo
"Amo-te" .

PAULO EDUARDO CAMPOS

In "Na serenidade dos rios que enlouquecem"

domingo, maio 27, 2012

SONHOS


Sonho-te 

que sonhando-me 

sonhas-me, 

em teus braços, 

mil beijos 

sussurrados



 Sonho-te 

e sonhando-me 

amo-te 

no rasgar da pele 

buscando 

carícias longas 

entregando-me 


 Sonho-te 

no abraço incontido

 corpo entregue 

vencido 

em noites de vendaval 


 E esse perfume errante

 --- seiva quente --- 

dá vida dá alento 

mesmo que não passando 

de ilusão, 

que se desfaz em nada, 

tal qual nuvem 

em tarde de verão. 


 Sonho-te 

que sonhando-me

sonhas-me... 



 amando-te...

 

 OTÍLIA MARTEL 


 Foto de Julia Nikonchuk

quarta-feira, maio 23, 2012

CANTIGA






Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.


CABRAL DO NASCIMENTO

1897/1978


Foto de Svetlana Melik-Nubarova

sábado, maio 19, 2012

BALADA DO GELO



há nestas noites perdidas
a dor gelada do teu corpo ausente
do abraço das tuas pernas fendidas
desabrochando num sorriso quente.

é a saudade dolorida
das tuas mãos cruéis
que me rasgam a pele ferida,
desenhando no meu corpo
o mapa do teu desejo,
a mordedura da tua boca salgada
percorrendo-me insaciada
na tortura de um longo beijo.

sempre nestas noites perdidas,
a dor gelada do teu corpo ausente,
da prisão das tuas pernas rendidas
desabrochando num gemido quente.

e quando o sol começa a despontar
e eu consigo adormecer,
juro-te, minha querida,
que nunca mais quero acordar.


ANTÓNIO MAGA


Foto de Alexander Eliseev



quarta-feira, maio 16, 2012

MARIA







Todo o passado, para mim, é morto,
e, no futuro, há só esperança infinda
que eu sinto n' alma quando lembro, absorto,
essa mulher divinamente linda.

Queria viver, nas sombras de algum horto,
longe do mundo, o sonho que não finda !
Viver com ela, viver nela, e absorto,
morrer com ela, enamorado ainda !

Que a vida, sem amor, é desventura ;
e, se a não vejo, eu vejo fatalmente,
em toda a parte, a dor que me tortura.

Ah, mas se a vida é o seu amor somente,
porque sinto, meu deus, esta amargura
de a não poder amar eternamente ?


GUILHERME DE FARIA

1907/1929



quinta-feira, maio 10, 2012

MULATA


corpo de mulata 

corpo de batuques e luar 

corpo de serpente 

a enroscar-se na árvore 

corpo de mel e malícia 

onde mãos buscam frementes 

poemas de luz e cor 

onde beijos estremece 

entre seios ponteagudos 

onde o sexo é uma flor 

a oferecer as sementes 

aos quatro cantos do mundo 

corpo esguio e feiticeiro 

por onde passa o amor 

e fica ainda mais belo. 



 MARIA OLINDA BEJA 


 Maria Olinda Beja Martins Assunção, nasceu em Guadalupe em 1946 (São Tomé e Príncipe), sendo porém de nacionalidade portuguesa. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas (Português/Francês) pela Universidade do Porto, Olinda Beja é docente do Ensino Secundário desde 1976. Ensina também Língua e Cultura Portuguesa na Suíça, é assessora cultural da Embaixada de São Tomé e Príncipe e dinamizadora cultural. Publicou os livros de poemas 'Bô Tendê?', 'Leve, Leve', 'No País do Tchiloli', 'Quebra-Mar' e 'Água Crioula', os romances 'A Pedra de Villa Nova', '!5 Dias de Regresso' e 'A Ilha de Izunari' e ainda livros de contos. (nescritas.com)

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS . São como cristal as palavras. Algumas, um punhal um incêndio. Outras orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Insegu...