domingo, setembro 22, 2013

A MULHER NUA



A Mulher NuaHumana fonte bela, 
repuxo de delícia entre as coisas, 
terna, suave água redonda, 
mulher nua: um dia, 
deixarei de te ver, 
e terás de ficar 
sem estes assombrados olhos meus, 
que completavam tua beleza plena, 
com a insaciável plenitude do seu olhar? 

(Estios; verdes frondas, 
águas entre as flores, 
luas alegres sobre o corpo, 
calor e amor, mulher nua!) 

Limite exacto da vida, 
perfeito continente, 
harmonia formada, único fim, 
definição real da beleza, 
mulher nua: um dia, 
quebrar-se-á a minha linha de homem, 
terei que difundir-me 
na natureza abstracta; 
não serei nada para ti, 
árvore universal de folhas perenes, 
concreta eternidade! 

Juan Ramón Jiménez, in "La Mujer Desnuda" 
Tradução de José Bento
Foto de Vabalas

sábado, agosto 31, 2013

PINTURA ABSTRACTA



PINTURA ABSTRACTA

Eu, genial pintor me imaginava,
Pintando teu perfil, o teu regaço,
Enquanto que ao alcance do meu braço...
Teu corpo juvenil, p'ra mim posava.

A minha insana mente desenhava
Tua gentil figura, de um só traço,
E em sonhos, envolvi-te num abraço...
Mais forte do que as cores com que pintava.

Sorrias-me em ondas de ternura,
Incentivando a pueril loucura
Em que eu, alucinado me perdia,

Posaste para mim, a noite inteira,
Amei, como se fosse a vez primeira...
Só acordei do sonho... era já dia !

ORLANDO FERNANDES

segunda-feira, agosto 12, 2013

OS ANOS SÃO DEGRAUS


OS ANOS SÃO DEGRAUS


Os anos são degraus, a vida a escada
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
Só Deus pode fechá-la,
Pode abri-la.

São vários os degraus; alguns sombrios,
Outros ao sol, na plena luz dos astros,
Com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
Nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
À humana condição.
Degrau após degrau,
Tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença.
Imaginar, sequer, que ao fim da Estrada
Se encontre após esta ansiedade imensa
Uma porta fechada
E mais nada?


FERNANDA DE CASTRO



terça-feira, julho 30, 2013

SAUDADE





SAUDADE

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

MIA COUTO


Foto de Hamanov Vladimir


sexta-feira, julho 19, 2013

AMOR




Amor
o teu rosto à minha espera, o teu rosto 
a sorrir para os meus olhos, existe um 
trovão de céu sobre a montanha. 

as tuas mãos são finas e claras, vês-me 
sorrir, brisas incendeiam o mundo, 
respiro a luz sobre as folhas da olaia. 

entro nos corredores de outubro para 
encontrar um abraço nos teus olhos, 
este dia será sempre hoje na memória. 

hoje compreendo os rios. a idade das 
rochas diz-me palavras profundas, 
hoje tenho o teu rosto dentro de mim. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"


Foto de Sergey Ryzhkov

segunda-feira, julho 08, 2013

POEMA DA DESPEDIDA



Poema da despedida





Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
 os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
 nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

MIA COUTO


Foto de Sergey Ryzhkov


sábado, junho 08, 2013

AINDA TE NECESSITO ...


AINDA TE NECESSITO ... Ainda não estou preparado para perder-te Não estou preparado para que me deixes só. Ainda não estou preparado pra crescer e aceitar que é natural, para reconhecer que tudo tem um princípio e tem um final. Ainda não estou preparado para não te ter e apenas te recordar. Ainda não estou preparado para não poder te olhar ou não poder te falar. Não estou preparado para que não me abraces e para não poder te abraçar. Ainda te necessito. E ainda não estou preparado para caminhar por este mundo perguntando-me: Porquê? Não estou preparado hoje nem nunca o estarei. AINDA TE NECESSITO. Pablo Neruda

sábado, maio 18, 2013

QUEM ERA ?







QUEM ERA ?


Em volta olhei... a ver se oculto via
Alguém que de meus olhos se ocultava:
Voz carinhosa o coração ouvia...
Voz carinhosa ao coração falava...

Voltei a olhar... e vi que me enganava !
Mas sempre o mesmo engano me iludia :
Voz carinhosa ao coração falava...
Voz carinhosa o coração ouvia...


Ansiosa, então, e sempre e mais olhando,
Sem nada ver, meu Bem, certeza eu tive
De que eras tu e a tua voz falando :


Tu -  minha Vida ! Tu  - minha Esperança !
Falando na saudade que em mim vive,
Vivendo no Amor e na Lembrança.


Maria Isabel da Camara Quental


Foto de Aleksandr D.

quinta-feira, março 21, 2013

AMORES PROIBIDOS



 Onde está quem amamos quando amamos
outro corpo de fogo em movimento?
Pra que abismo corremos, pra que enganos,
quando as promessas são poeira ao vento?

De que matéria alheia mal tentamos
fugir quando a verdade mora dentro
de alguém a cujo céu nos entregamos
numa noite de sonho e de tormento?

Ainda somos humanos se traímos
por instinto um amor de tantos anos
e só àquele instante obedecemos?

Ainda somos humanos? Ou seremos
a febre que há no sangue quando vimos
de súbito morrer num corpo e vamos
em busca do inferno que merecemos?

Talvez por um momento então sejamos
sonâmbulos fantasmas do que fomos
reflectidos num espelho que não vemos

Ou talvez nesse corpo descubramos
a memória da alma que perdemos
pra sempre no momento em que transpomos
a fronteira dos gestos quotidianos
e ao sabor de um desejo destruímos
todas as intenções, todos os planos,
em nome dos prazeres mais supremos
na noite em que deixamos de ser donos
do nosso próprio corpo e abandonamos
angústias e remorsos e partimos
em busca da manhã que não sabemos

Onde está quem amamos quando somos
mais do que humanos? Mais? Ou muito menos?



FERNANDO PINTO DO AMARAL


Foto de Ognyan Geshev

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

CORAÇÃO SEM IMAGENS







Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem as imagens ?


Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.


Preciso habituar-me
ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.


Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.


Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.


Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.


Posso passar sem as imagens
assim como posso 
passar sem ti.


E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho (n. de Alvito - 1920-1984)

Foto de Igor V Kapustin




quarta-feira, janeiro 30, 2013

C O R P O


CORPO

 Corpo serenamente construído 
Para uma vida que depois se perde 
Em fúria e em desencontro vivido 
Contra a pureza inteira dos teus ombros. 


 Pudesse eu reter-te no espelho 
Ausente e mudo a todo outro convívio 
Reter o claro nó dos teus joelhos 
Que vão rasgando o vidro dos espelhos. 


 Pudesse eu reter-te nessas tardes 
Que desenhavam a linha dos teus flancos 
Rodeados pelo ar agradecido. 


 Corpo brilhante de nudez intensa 
Por sucessivas ondas construído 
Em colunas assente como um templo. 



 Sophia de Mello Breyner Andresen 


Foto de Andrey Voytsehkov

sexta-feira, dezembro 14, 2012

VENDAVAL






Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê;
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, ó vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais escura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!



Fernando Pessoa


Foto de  john Aavitsland

quarta-feira, novembro 21, 2012

MÁGOA




Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração,
eu que julgara eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,

sou, apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a, e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis...

Hoje, o que sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser tão desgraçada,
é pena, de ter sido tão feliz.

Virgínia Victorino

FOTO de Hamanov Vladimir


quinta-feira, novembro 01, 2012

INSTANTE




Se nos olhos te beijarem esta noite,
se estremeceres com um doce suspirar,
e se por inusitado instante,
no teu peito ardente e ofegante
não te adormecer esse desejo,
se sentires nos lábios o sabor de um beijo,
é porque algum poema meu
navega no rio aceso do teu corpo.

Descobrindo trajectos sedutores,
caminhos nunca imaginados,
segredos nunca desvendados,
sonhos de ternura e fantasia.
E se vens comigo na viagem
plena de amor e de coragem,
a noite desabrocha em poesia.

Sinto então esta imparável ânsia,
a sensação profunda e suprema,
de não haver qualquer distância
entre a tua boca e o meu poema.



ALBINO SANTOS
(in Diálogo de Sombras")


Foto de Dieter Plogmann

sexta-feira, outubro 05, 2012

CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE






Tão bom viver dia a dia...

A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos

Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,

Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos

Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:

Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,

Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança

Das outras vezes perdidas,

Atiro a rosa do sonho

Nas tuas mãos distraídas...


MÁRIO QUINTANA

segunda-feira, setembro 24, 2012

QUANDO TE VI



A manhã era clara, refulgente. 

 Uma manhã dourada. Tu passaste. 

 Abriu mais uma flor em cada haste. 

Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente. 


 E eu inundei-me dessa luz ardente. 

 Depois não sei mais nada. Olhei ... Olhaste ... 

 E nunca mais te vi ... - Raro contraste - 

 A madrugada transformou-se em poente. 


 Luz que nasceu e apenas cintilou ! 

 Deixou-me triste assim que se apagou, 

às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda ... 


 E há tanto sol dourando esses trigais ! 

Olhaste, olhei, fugiste ... Ai nunca mais, 

 nunca mais tive outra manhã tão linda ! 


 VIRGÍNIA VITORINO


(n. Alcobaça, em 13 de Agosto de 1895 - 1967) Poetisa e dramaturga .


domingo, setembro 16, 2012

A CASA FICOU POR CONSTRUIR ...




A casa ficou por construir 

Cheguei tarde 

E o ardor mútuo não impede 

Que os nossos caminhos 

 Sejam diferentes 


 A casa ficou por construir 

As várias salas 

Os longos corredores 

O quarto mais tranquilo 

Com seu leito 


 A janela rasgada 

Donde te veria surgir 

Todos os dias 

A lareira que nos protegeria 

Do que a vida tem de enregelado 


 O suceder das estações acompanhando 

O acumular dos anos e a confiança 

Que um amor profundo dissemina 


 Vivo num cacifo solitário 

No outro lado do oceano 

Longe tão longe donde tu nasceste 


Mas a casa

Nossa 

Ficou por construir 


 Pássaro ferido 

Sou um hóspede 

No teu coração 



 Alberto de Lacerda

sexta-feira, agosto 31, 2012

POEMA DE AMOR





Esculpi-te na água
De todas as nascentes.
Nas raízes das árvores, nas folhas e nos frutos,
Nos troncos mais firmes
E nas copas brancas.
Esculpi-te nos ventos que vão para sempre
E nos que regressam à rosa quebrada
Carregados de cores.
Esculpi-te nas rosa-dos-ventos.
Esculpi-te no fogo diurno.
No avesso do fogo.
Esculpi-te na terra.
Esculpi-te na sombra, no silêncio...
--Levantaram-se chamas.


CRISTOVAM PAVIA

terça-feira, agosto 21, 2012

DEIXA O OLHAR DO MUNDO




Deixa que o olhar do mundo enfim devasse

Teu grande amor que é teu maior segredo!

Que terias perdido, se, mais cedo,

Todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos!

Mostra-me sem medo

Aos homens, afrontando-os face a face:

Quero que os homens todos, quando eu passe,

Invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais!

Ando tão cheio

Deste amor, que minh'alma se consome

De te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:

E, fatigado de calar teu nome,

Quase o revelo no final de um verso.

(Olavo Bilac)

domingo, agosto 19, 2012

ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO


Estou mais perto de ti porque te amo. 

Os meus beijos nascem já na tua boca. 

Não poderei escrever teu nome com palavras. 

Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me. 


 Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto. 

Quero a tua boca aberta em minha boca. 

E amo-te como se nunca te tivesse amado 

Porque tu estás em mim mas ausente de mim. 



 Nessa noite sei apenas dos teus gestos 

E procuro o teu corpo para além dos meus dedos. 

Trago as mãos distantes do teu peito. 


 Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte. 

Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim. 

E eu estou perto de ti porque te amo. 


 JOAQUIM PESSOA

terça-feira, julho 31, 2012

LEMBRANÇAS DO LUGAR






Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!

Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...

Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...

Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...

Afonso Estebanez

terça-feira, julho 24, 2012

MAR DE MIM ....







Quem me dera mar, ser teu irmão;
Ter por limite as linhas da distância;
Depois, poder voltar à minha infância
Num veleiro chamado coração.

Quem me dera mar, tua ambição;
Teu correr nas marés, tua fragrância,
Copiar-te das ondas a elegância,
Roubar teus tons de azul... p'ra uma canção!

Depois, espreguiçar-me em marés-cheias,
Beijar de qualquer praia, as areias,
Alternar um mar chão, com tempestade,

Cantar canções de amor com as sereias,
Enlear-me, inconsciente, em suas teias,
P'ra sepultar no mar... minha ansiedade !


ORLANDO FERNANDES

(In Nova Antologia de Poetas Alentejanos)

Foto de Petros L

sexta-feira, julho 20, 2012



Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata,
Meu amor perdido que a saudade aquece.
Na cidade exangue donde eu vim poeta
Lembro a voz do vento que hoje me entristece...

Lembro as tuas faces, meu amor ausente,
Que a lembrança guarda no seu fumo triste,
Que paisagens novas me fizeram pobre
Nesta alma exausta que hoje em mim existe.

Ó sol, meu padrinho, flor do céu !
Que alegria, amor, quando o sol perdoa.
Há gemidos novos na paisagem nova
Meu amor perdido que em minha alma soa.


ANTUNES DA SILVA, Canções do Vento


Pintura de Domenico Feti


quinta-feira, julho 12, 2012

TROVAS






Não é um sonho o teu corpo,
nem ilusão o que em mim sente
quando penso em ti, e o que penso
faz o que sinto mais presente.

É tão real o que digo disto
que me dizes quando falas,
e te ouço dizer o que eu digo
nesse instante em que te calas.

E esta imagem que possuo,
se ta roubei, foi porque a deste
sem que a pedisse, ao pedi-la
no gesto com que a ofereceste.

Por isso digo que sou teu,
e tu és minha, sem o dizer,
apenas no sonho que trocamos
deste amor que nos faz viver.



NUNO JÚDICE

In O Estado dos Campos


Foto de Alexander Motylev




quinta-feira, junho 28, 2012

A TUA BOCA. A TUA BOCA.





A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor de rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.


JOAQUIM PESSOA

In Os olhos de Isa


Foto de Aleksandr Talyuka

AS PALAVRAS

AS PALAVRAS . São como cristal as palavras. Algumas, um punhal um incêndio. Outras orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Insegu...