Foto de Светлана Дракина
Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!
Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.
Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.
Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?
IRENE LISBOA
Irene do Céu Vieira Lisboa nasceu no dia 25 de Dezembro de 1892 e faleceu a 25 de Novembro de 1958. Foi escritora, professora e pedagoga.
quarta-feira, outubro 16, 2013
domingo, setembro 22, 2013
A MULHER NUA
A Mulher NuaHumana fonte bela,
repuxo de delícia entre as coisas,
terna, suave água redonda,
mulher nua: um dia,
deixarei de te ver,
e terás de ficar
sem estes assombrados olhos meus,
que completavam tua beleza plena,
com a insaciável plenitude do seu olhar?
(Estios; verdes frondas,
águas entre as flores,
luas alegres sobre o corpo,
calor e amor, mulher nua!)
Limite exacto da vida,
perfeito continente,
harmonia formada, único fim,
definição real da beleza,
mulher nua: um dia,
quebrar-se-á a minha linha de homem,
terei que difundir-me
na natureza abstracta;
não serei nada para ti,
árvore universal de folhas perenes,
concreta eternidade!
Juan Ramón Jiménez, in "La Mujer Desnuda"
Tradução de José BentoFoto de Vabalas
sábado, agosto 31, 2013
PINTURA ABSTRACTA
PINTURA ABSTRACTA
Eu, genial pintor me imaginava,
Pintando teu perfil, o teu regaço,
Enquanto que ao alcance do meu braço...
Teu corpo juvenil, p'ra mim posava.
A minha insana mente desenhava
Tua gentil figura, de um só traço,
E em sonhos, envolvi-te num abraço...
Mais forte do que as cores com que pintava.
Sorrias-me em ondas de ternura,
Incentivando a pueril loucura
Em que eu, alucinado me perdia,
Posaste para mim, a noite inteira,
Amei, como se fosse a vez primeira...
Só acordei do sonho... era já dia !
ORLANDO FERNANDES
segunda-feira, agosto 12, 2013
OS ANOS SÃO DEGRAUS
OS ANOS SÃO DEGRAUS
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
Só Deus pode fechá-la,
Pode abri-la.
São vários os degraus; alguns sombrios,
Outros ao sol, na plena luz dos astros,
Com asas de anjos, harpas celestiais.
Alguns, quilhas e mastros
Nas mãos dos vendavais.
Mas tudo são degraus; tudo é fugir
À humana condição.
Degrau após degrau,
Tudo é lenta ascensão.
Senhor, como é possível a descrença.
Imaginar, sequer, que ao fim da Estrada
Se encontre após esta ansiedade imensa
Uma porta fechada
E mais nada?
FERNANDA DE CASTRO
terça-feira, julho 30, 2013
SAUDADE
SAUDADE
Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono
Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono
MIA COUTO
Foto de Hamanov Vladimir
sexta-feira, julho 19, 2013
AMOR
Amor
o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.
as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.
entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.
hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.
as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.
entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.
hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"
Foto de Sergey Ryzhkov
segunda-feira, julho 08, 2013
POEMA DA DESPEDIDA
Poema da despedida
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
MIA COUTO
Foto de Sergey Ryzhkov
sábado, junho 08, 2013
AINDA TE NECESSITO ...
AINDA TE NECESSITO ... Ainda não estou preparado para perder-te Não estou preparado para que me deixes só. Ainda não estou preparado pra crescer e aceitar que é natural, para reconhecer que tudo tem um princípio e tem um final. Ainda não estou preparado para não te ter e apenas te recordar. Ainda não estou preparado para não poder te olhar ou não poder te falar. Não estou preparado para que não me abraces e para não poder te abraçar. Ainda te necessito. E ainda não estou preparado para caminhar por este mundo perguntando-me: Porquê? Não estou preparado hoje nem nunca o estarei. AINDA TE NECESSITO. Pablo Neruda
sábado, maio 18, 2013
QUEM ERA ?
QUEM ERA ?
Em volta olhei... a ver se oculto via
Alguém que de meus olhos se ocultava:
Voz carinhosa o coração ouvia...
Voz carinhosa ao coração falava...
Voltei a olhar... e vi que me enganava !
Mas sempre o mesmo engano me iludia :
Voz carinhosa ao coração falava...
Voz carinhosa o coração ouvia...
Ansiosa, então, e sempre e mais olhando,
Sem nada ver, meu Bem, certeza eu tive
De que eras tu e a tua voz falando :
Tu - minha Vida ! Tu - minha Esperança !
Falando na saudade que em mim vive,
Vivendo no Amor e na Lembrança.
Maria Isabel da Camara Quental
Foto de Aleksandr D.
quarta-feira, abril 10, 2013
quinta-feira, março 21, 2013
AMORES PROIBIDOS
Onde está quem amamos quando amamos
outro corpo de fogo em movimento?
Pra que abismo corremos, pra que enganos,
quando as promessas são poeira ao vento?
De que matéria alheia mal tentamos
fugir quando a verdade mora dentro
de alguém a cujo céu nos entregamos
numa noite de sonho e de tormento?
Ainda somos humanos se traímos
por instinto um amor de tantos anos
e só àquele instante obedecemos?
Ainda somos humanos? Ou seremos
a febre que há no sangue quando vimos
de súbito morrer num corpo e vamos
em busca do inferno que merecemos?
Talvez por um momento então sejamos
sonâmbulos fantasmas do que fomos
reflectidos num espelho que não vemos
Ou talvez nesse corpo descubramos
a memória da alma que perdemos
pra sempre no momento em que transpomos
a fronteira dos gestos quotidianos
e ao sabor de um desejo destruímos
todas as intenções, todos os planos,
em nome dos prazeres mais supremos
na noite em que deixamos de ser donos
do nosso próprio corpo e abandonamos
angústias e remorsos e partimos
em busca da manhã que não sabemos
Onde está quem amamos quando somos
mais do que humanos? Mais? Ou muito menos?
FERNANDO PINTO DO AMARAL
Foto de Ognyan Geshev
segunda-feira, fevereiro 11, 2013
CORAÇÃO SEM IMAGENS
Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem as imagens ?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me
ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.
Raul de Carvalho (n. de Alvito - 1920-1984)
Foto de Igor V Kapustin
quarta-feira, janeiro 30, 2013
C O R P O
CORPO
Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto de Andrey Voytsehkov
Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro vivido
Contra a pureza inteira dos teus ombros.
Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.
Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.
Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Foto de Andrey Voytsehkov
sexta-feira, dezembro 21, 2012
sexta-feira, dezembro 14, 2012
VENDAVAL
Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê;
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minh'alma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, ó vento; do chão da existência,
De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes mais escura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!
Fernando Pessoa
Foto de john Aavitsland
quarta-feira, novembro 21, 2012
MÁGOA
Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração,
eu que julgara eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,
sou, apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.
Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a, e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis...
Hoje, o que sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser tão desgraçada,
é pena, de ter sido tão feliz.
Virgínia Victorino
FOTO de Hamanov Vladimir
quinta-feira, novembro 01, 2012
INSTANTE
Se nos olhos te beijarem esta noite,
se estremeceres com um doce suspirar,
e se por inusitado instante,
no teu peito ardente e ofegante
não te adormecer esse desejo,
se sentires nos lábios o sabor de um beijo,
é porque algum poema meu
navega no rio aceso do teu corpo.
Descobrindo trajectos sedutores,
caminhos nunca imaginados,
segredos nunca desvendados,
sonhos de ternura e fantasia.
E se vens comigo na viagem
plena de amor e de coragem,
a noite desabrocha em poesia.
Sinto então esta imparável ânsia,
a sensação profunda e suprema,
de não haver qualquer distância
entre a tua boca e o meu poema.
ALBINO SANTOS
(in Diálogo de Sombras")
Foto de Dieter Plogmann
sexta-feira, outubro 05, 2012
CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE
Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...
Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...
E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...
E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.
Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.
Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!
E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
MÁRIO QUINTANA
segunda-feira, setembro 24, 2012
QUANDO TE VI
A manhã era clara, refulgente.
Uma manhã dourada. Tu passaste.
Abriu mais uma flor em cada haste.
Teve mais brilho o sol, fez-se mais quente.
E eu inundei-me dessa luz ardente.
Depois não sei mais nada. Olhei ... Olhaste ...
E nunca mais te vi ... - Raro contraste -
A madrugada transformou-se em poente.
Luz que nasceu e apenas cintilou !
Deixou-me triste assim que se apagou,
às vezes fecho os olhos; vejo-a ainda ...
E há tanto sol dourando esses trigais !
Olhaste, olhei, fugiste ... Ai nunca mais,
nunca mais tive outra manhã tão linda !
VIRGÍNIA VITORINO
(n. Alcobaça, em 13 de Agosto de 1895 - 1967) Poetisa e dramaturga .
domingo, setembro 16, 2012
A CASA FICOU POR CONSTRUIR ...
A casa ficou por construir
Cheguei tarde
E o ardor mútuo não impede
Que os nossos caminhos
Sejam diferentes
A casa ficou por construir
As várias salas
Os longos corredores
O quarto mais tranquilo
Com seu leito
A janela rasgada
Donde te veria surgir
Todos os dias
A lareira que nos protegeria
Do que a vida tem de enregelado
O suceder das estações acompanhando
O acumular dos anos e a confiança
Que um amor profundo dissemina
Vivo num cacifo solitário
No outro lado do oceano
Longe tão longe donde tu nasceste
Mas a casa
Nossa
Ficou por construir
Pássaro ferido
Sou um hóspede
No teu coração
Alberto de Lacerda
quinta-feira, setembro 06, 2012
sexta-feira, agosto 31, 2012
POEMA DE AMOR
Esculpi-te na água
De todas as nascentes.
Nas raízes das árvores, nas folhas e nos frutos,
Nos troncos mais firmes
E nas copas brancas.
Esculpi-te nos ventos que vão para sempre
E nos que regressam à rosa quebrada
Carregados de cores.
Esculpi-te nas rosa-dos-ventos.
Esculpi-te no fogo diurno.
No avesso do fogo.
Esculpi-te na terra.
Esculpi-te na sombra, no silêncio...
--Levantaram-se chamas.
CRISTOVAM PAVIA
terça-feira, agosto 21, 2012
DEIXA O OLHAR DO MUNDO
Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
Teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
Todo o afeto que sentes se mostrasse?
Basta de enganos!
Mostra-me sem medo
Aos homens, afrontando-os face a face:
Quero que os homens todos, quando eu passe,
Invejosos, apontem-me com o dedo.
Olha: não posso mais!
Ando tão cheio
Deste amor, que minh'alma se consome
De te exaltar aos olhos do universo...
Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
E, fatigado de calar teu nome,
Quase o revelo no final de um verso.
(Olavo Bilac)
domingo, agosto 19, 2012
ESTOU MAIS PERTO DE TI PORQUE TE AMO
Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.
Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
Porque tu estás em mim mas ausente de mim.
Nessa noite sei apenas dos teus gestos
E procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.
Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.
JOAQUIM PESSOA
terça-feira, julho 31, 2012
LEMBRANÇAS DO LUGAR
Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!
Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...
Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...
Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...
Afonso Estebanez
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!
Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...
Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...
Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...
Afonso Estebanez
terça-feira, julho 24, 2012
MAR DE MIM ....
Quem me dera mar, ser teu irmão;
Ter por limite as linhas da distância;
Depois, poder voltar à minha infância
Num veleiro chamado coração.
Quem me dera mar, tua ambição;
Teu correr nas marés, tua fragrância,
Copiar-te das ondas a elegância,
Roubar teus tons de azul... p'ra uma canção!
Depois, espreguiçar-me em marés-cheias,
Beijar de qualquer praia, as areias,
Alternar um mar chão, com tempestade,
Cantar canções de amor com as sereias,
Enlear-me, inconsciente, em suas teias,
P'ra sepultar no mar... minha ansiedade !
ORLANDO FERNANDES
(In Nova Antologia de Poetas Alentejanos)
Foto de Petros L
sexta-feira, julho 20, 2012
Lúcida, a manhã canta na tua voz de prata,
Meu amor perdido que a saudade aquece.
Na cidade exangue donde eu vim poeta
Lembro a voz do vento que hoje me entristece...
Lembro as tuas faces, meu amor ausente,
Que a lembrança guarda no seu fumo triste,
Que paisagens novas me fizeram pobre
Nesta alma exausta que hoje em mim existe.
Ó sol, meu padrinho, flor do céu !
Que alegria, amor, quando o sol perdoa.
Há gemidos novos na paisagem nova
Meu amor perdido que em minha alma soa.
ANTUNES DA SILVA, Canções do Vento
Lú
quinta-feira, julho 12, 2012
TROVAS
Não é um sonho o teu corpo,
nem ilusão o que em mim sente
quando penso em ti, e o que penso
faz o que sinto mais presente.
É tão real o que digo disto
que me dizes quando falas,
e te ouço dizer o que eu digo
nesse instante em que te calas.
E esta imagem que possuo,
se ta roubei, foi porque a deste
sem que a pedisse, ao pedi-la
no gesto com que a ofereceste.
Por isso digo que sou teu,
e tu és minha, sem o dizer,
apenas no sonho que trocamos
deste amor que nos faz viver.
NUNO JÚDICE
In O Estado dos Campos
Foto de Alexander Motylev
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AS PALAVRAS
AS PALAVRAS . São como cristal as palavras. Algumas, um punhal um incêndio. Outras orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Insegu...
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