terça-feira, dezembro 14, 2010

VAZIO






Pedra a pedra, esvazio este lugar onde outrora
nos encontrámos. Deixo-o limpo de versos e de
sílabas, seco de lágrimas e de suor, silencioso
como o espaço de onde as aves se ausentaram.


Depois, pedra a pedra, construo a memória
em que te vou guardar. Ergo-a desse campo
onde te abracei, sobre folhas e flores, ouvindo
a música do vento por entre ramos e sombras.


«Mas para que a queres?» perguntas-me. «Sem
mim, sem o calor da minha voz, sem o corpo
que amaste?» E pedra a pedra volto a esvaziar
tudo, como se estivesses aqui, sem nada encontrar.


Nuno Júdice

In O Estado dos Campo



Foto de Tatiana Ershova


quarta-feira, dezembro 01, 2010

TUDO ME LEVA A TI; ASSIM, ESTA TARDE...





Tudo me leva a ti; assim, esta tarde

aberta ao céu azul que sucedeu

ao irado negrume da tormenta,

sob esta luz que, mais do que vespertina,

me parece ofuscante e matinal,

quando atravesso o vale

e volto a Jerte, sem conhecer a razão,

seguindo não sei bem que raro impulso,

curva a curva, bem sabes, leito acima,

até às mesmas nascentes da vida.

É tudo igual, porém também diferente,

e me remete para ti. E as cascatas,

e os talhões e o rio e as cerejeiras

parecem ser olhados pelos teus olhos

e através deles ainda me falas

e voltas a explicar-me o importante:

sentir-se aqui feliz e rodeado

de quanto qualquer homem necessita:

a luz, o campo, a árvore, a montanha,

coisas, talvez, vulgares ou anacrónicas

mas que nos confortam e nos salvam;

os seres e as forças desse mundo

solar onde vivias;

onde, para meu bem, comigo vives.


Álvaro Valverde (Plasencia, Espanha, 1959)

Tradução de Ruy Ventura (Portalegre,1973)


Foto de Vladimir Kulichenko



quinta-feira, novembro 11, 2010

SI TÚ ME OLVIDAS





Quiero que sepas
Quero que saibas

una cosa.
uma coisa.


Tú sabes cómo es esto:
Tu sabes como é isto:

si miro
se olho

la luna de cristal, la rama roja
a lua de cristal, a folhagem vermelha

del lento otoño en mi ventana,
do lento outono em minha janela,

si toco
se toco

junto al fuego
junto ao fogo

la impalpable ceniza
a impalpável cinza

o el arrugado cuerpo de la leña,
ou o enrugado corpo da lenha,

todo me lleva a ti,
tudo me leva a ti,

como si todo lo que existe,
como se tudo o que existe,

aromas, luz, metales,
aromas, luz, metais,

fueran pequeños barcos que navegan
fossem pequenos barcos que navegam

hacia las islas tuyas que me aguardan.
para as ilhas tuas que me aguardam.


Ahora bien,
Agora bem,

si poco a poco dejas de quererme
se pouco a pouco deixas de querer-me

dejaré de quererte poco a poco.
deixarei de querer-te pouco a pouco.


Si de pronto
Se de repente

me olvidas
me esqueces

no me busques,
não me procures,

que ya te habré olvidado.
que eu já terei te esquecido.


Si consideras largo y loco
Se consideras excessivo e louco

el viento de banderas
o vento de bandeiras (*)

que pasa por mi vida
que passa por minha vida

y te decides
e te decides

a dejarme a la orilla
a deixar-me à margem

del corazón en que tengo raíces,
do coração em que tenho raízes,

piensa
pensa

que en ese día,
que nesse dia,

a esa hora
a essa hora

levantaré los brazos
erguerei os braços

y saldrán mis raíces
e sairão minhas raízes

a buscar otra tierra.
a procurar outra terra.


Pero
Mas

si cada día,
se cada dia,

cada hora
cada hora

sientes que a mí estás destinada
sentes que a mim estás destinada

con dulzura implacable.
com doçura implacável.

Si cada día sube
Se cada dia sobe

una flor a tus labios a buscarme,
uma flor a teus lábios a buscar-me,

ay amor mío, ay mía,
ai amor meu, ai minha,

en mí todo ese fuego se repite,
em mim todo esse fogo se repete,

en mí nada se apaga ni se olvida,
em mim nada se apaga nem se esquece,

mi amor se nutre de tu amor, amada,
meu amor alimenta-se de teu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
e enquanto vivas estará em teus braços

sin salir de los míos.
sem sair dos meus.






(*) "Viento de banderas" - metáfora usada por Neruda significando um acontecimento que passa mas que deixa marcas.

Poema transcrito do Blog Paixão e Romance.

Foto de Tomasz

quinta-feira, outubro 14, 2010

HIPÉRION E DIOTIMA





Às vezes, quando a noite se prolonga
na espessa madrugada, abrindo as veias,
e podemos ouvir, sem grande esforço,
o secreto ruído das asas
dos anjos pelo céu,
é um bom exercício contemplar
um rosto que se amou, fixar-lhe os traços
até sabermos reconstituir
cada pequeno pormenor,
cada poro da pele outra vez nossa,
cada olhar liquefeito, cada antigo
sorriso onde ardiam as maiores
ilusões deste mundo.


Agora que experimento fazer isso,
utilizo o teu rosto: ele atravessa
a cegueira das noites em que não dormimos,
o espelho embaciado dos meus olhos,
o cristal sempre intacto dos mais belos
sonhos.


Podes ficar aqui? Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,
eternidades para te esquecer.
Por favor, não te esfumes no meu sono,
nesse pântano lento onde me afundo
entre o lodo já turvo dos lençóis
e as lágrimas tão ácidas do dia
que há-de nascer, que já nasceu sem ti,
como se o próprio sol quisesse castigar
a minha vida com a tua morte.

Fernando Pinto do Amaral




Foto de Nina Efremova

terça-feira, outubro 12, 2010

ÂNSIA




Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo

Mia Couto



Foto de Berenice Kauffmann Abud


sábado, outubro 09, 2010

ROMANCE INGÉNUO DE DUAS LINHAS PARALELAS






Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.

Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»

Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»

Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.

José Fanha

(Eu sou português aqui )



Foto de Igor L.

quinta-feira, setembro 30, 2010

QUANDO SURGES NA NOITE ...






Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...

Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.

Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...

Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada !


Geraldo Bessa Victor

1917/1990


Foto de Ilya Rashap


terça-feira, setembro 21, 2010

LEMBRANÇAS DO LUGAR






Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!

Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...

Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...

Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...


Afonso Estebanez


Foto de Shubina Olga

quarta-feira, setembro 15, 2010

ESCREVO O TEU NOME




Escrevo o teu nome e um pássaro levanta-se da terra -
sobre o seu voo contariam os teus olhos mil histórias
que eu escutaria com o mesmo silêncio admirado
com que na boca cai um beijo ou a noite atira o amor
para cima das camas. Mas o lápis rola subitamente

sobre a mesa e pára a sepultar as palavras que nunca
te direi - porque o rio não regressa à cidade que primeiro
beijou, nem o navio ruma jamais ao porto que o viu largar.


Maria do Rosário Pedreira

In O Canto do Vento nos Ciprestes

Foto de Vigen Hakhverdyan

domingo, setembro 12, 2010

TESTAMENTO





À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,

Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara, Poemas, Sá da Bandeira, 1966

Poeta angolana (Benguela, 1930/Cambambe, 1962), veio para Portugal, onde se licenciou em Medicina pela Universidade de Coimbra.


Foto de Maimun

quarta-feira, setembro 08, 2010

MADRUGADA






Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar! ...

Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
— de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?

Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...

Adolfo Casais Monteiro

Escritor lusófono

Porto-1908/São Paulo-1972

Exilou-se em 1954 para o Brasil, por motivos políticos e por lhe ser proibida a docência em Portugal.

Foto de Mihaell

sábado, setembro 04, 2010

PASSEMOS, TU E EU, DEVAGARINHO





Passemos, tu e eu, devagarinho,
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir...
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas...

De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.



Reinaldo Ferreira
Poemas


Foto de Andrew Belkov

sexta-feira, agosto 27, 2010

A ÚNICA RESPOSTA





Jantáramos os dois pela primeira vez:
amizade ou amor, pouco interessava
desde que ali estivesses. O meu mundo
ia mudando à medida do teu,
a cada gesto vão da vã conversa
antes que fôssemos plo Bairro Alto
e enfim o Lumiar, a tua casa.

Eu podia contar uma história, dizer
como aquele rosto atravessava o meu -mas não,
«nada de narrativas, nunca mais».
Apenas a certeza de estar morto
há tanto tempo, que já não me lembro
de cor nenhuma dos teus olhos. Não,
já não existe o dia nem a noite
e este silêncio deve ser talvez
a única resposta. É bem melhor
ficar à espera de que não regresses.

Fernando Pinto do Amaral

(De A Escada de Jacob - Assírio & Alvim)

Foto de Volga Borytsch

sexta-feira, agosto 20, 2010

AINDA UMA VEZ - ADEUS





O grande amor: Ana Amélia



Retrato de Gonçalves Dias.

" A poesia "Ainda uma vez --adeus,--" bem como as poesias "Palinódia e "Retratação" foram inspiradas por Ana Amélia Ferreira do Vale.
" Gonçalves Dias viu-a pela primeira vez em 1846 no Maranhão. Era uma menina quase, e o poeta, fascinado pela sua beleza e graça juvenil, escreveu para ela as poesias "Seus olhos" e "Leviana". Vindo para o Rio, é possível que essa primeira impressão tenha desaparecido do seu espírito. Mais tarde, porém, em 1851, voltando a S. Luís, viu-a de novo, e já então a menina e moça de 46 se fizera mulher, no pleno esplendor da sua beleza desabrochada. O encantamento de outrora se transformou em paixão ardente, e, correspondido com a mesma intensidade de sentimento, o poeta, vencendo a timidez, pediu-a em casamento à família.
" A família da linda Don`Ana -- como lhe chamavam -- tinha o poeta em grande estima e admiração. Mais forte, porém, do que tudo era naquele tempo no Maranhão o preconceito de raça e casta. E foi em nome desse preconceito que a família recusou o seu consentimento.
" Por seu lado o poeta, colocado diante das duas alternativas: renunciar ao amor ou à amizade, preferiu sacrificar aquela a esta, levado por um excessivo escrúpulo de honradez e lealdade, que revela nos mínimos atos de sua vida. Partiu para Portugal. Renúncia tanto mais dolorosa e difícil por que a moça que estava resolvida a abandonar a casa paterna para fugir com ele, o exprobrou em carta, dura e amargamente, por não ter tido a coragem de passar por cima de tudo e de romper com todos para desposá-la!
" E foi em Portugal, tempos depois, que recebeu outro rude golpe: Don`Ana, por capricho e acinte à família, casara-se com um comerciante, homem também de cor como o poeta e nas mesmas condições inferiores de nascimento. A família se opusera tenazmente ao casamento, mas desta vez o pretendente, sem medir considerações para com os parentes da noiva, recorreu à justiça, que lhe deu ganho de causa, por ser maior a moça. Um mês depois falia, partindo com a esposa para Lisboa, onde o casal chegou a passar até privações.
" Foi aí, em Lisboa, num jardim público, que certa vez se defrontaram o poeta e a sua amada, ambos abatidos pela dor e pela desilusão de suas vidas, ele cruelmente arrependido de não ter ousado tudo, de ter renunciado àquela que com uma só palavra sua se lhe entregaria para sempre. desvairado pelo encontro, que lhe reabrira as feridas e agora de modo irreparável, compôs de um jato as estrofes de "Ainda uma vez -- adeus --" as quais, uma vez conhecidas da sua inspiradora, foram por esta copiadas com o seu próprio sangue."




I


Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!



II


Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!



III


Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!



IV


Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.



V


Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!



VI


Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!



VII


Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?



VIII


Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!



IX


Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!



X


Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
"Ela é feliz (me dizia)
"Seu descanso é obra minha."
Negou-me a sorte mesquinha. . .
Perdoa, que me enganei!



XI


Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!



XII


Enganei-me!... — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!



XIII


Louco, julguei adornar-me
Com palmas d'alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.



XIV


Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!



XV


És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!



XVI


Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!



XVII


Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!



XVIII


Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão.


Gonçalves Dias

Poeta Brasileiro

1823 / 1864

Foto de Irina Savkina

terça-feira, agosto 03, 2010

LÁGRIMA NEGRA



Aperte fortemente a pena ingrata
entre os dedos nervosos e trementes,
e os versos jorram, claros e estridentes,
n'uma cascata, n'uma catarata!

Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lágrimas de prata
como um colar de pérolas pendentes...




Eu canto o sofrimento, a ânsia incontida
de amor, que é a maior ânsia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condena!





E todo o meu sofrer, todo, se pinta
n'este pingo de dor -- pingo de tinta,
lágrima negra que me cai da pena.


Dante Milano

Poeta Brasileiro

1899/1991

sexta-feira, julho 30, 2010

SEPTENTRIONAL






Talvez já te esquecesses, ó bonina,
Que viveste no campo só commigo,
Que te osculei a bocca purpurina,
E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste commigo da Babel,
Mulher como não ha nem na Circassia,
Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
E regámos com prantos uma acacia.

Talvez já te não lembres com desgosto
D'aquellas brancas noites de mysterio,
Em que a lua sorria no teu rosto
E nas lages que estão no cemiterio.

Quando, á brisa outoniça, como um manto,
Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
Se prendiam nas folhas d'um acantho,
Ou nos bicos agrestes dos silvados,

E eu ia desprendel-os, como um pagem
Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
E ouvia murmurar á doce aragem
Uns delirios d'amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
Pousarem borbeletas doudejantes
Nas tuas formosissimas madeixas,
D'aquellas côr das messes lourejantes,

E no pomar, nós dois, hombro com hombro,
Caminhavamos sós e de mãos dadas,
Beijando os nossos rostos sem assombro,
E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
N'um amor grande como um mar sem praias,
Ouviamos os meigos dithyrambos,
Que os rouxinoes teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casaes,
Eu comtigo, abraçado como as heras,
Escondidos nas ondas dos trigaes,
Devolvia-te os beijos que me déras;

Quando, se havia lama no caminho,
Eu te levava ao collo sobre a greda,
E o teu corpo nevado como o arminho
Pesava menos que um papel de sêda...

E foste sepultar-te, ó seraphim,
No claustro das Fieis emparedadas,
Escondeste o teu rosto de marfim
No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tão calado como a Morte,
N'esta velha cidade tão sombria,
Chorando afflictamente a minha sorte
E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade,
Se podéra na terra achar supplicios,
Eu tambem me faria gordo frade
E cobriria a carne de cilicios.

Cesário Verde

In Triplov

Foto de HoryMa

domingo, junho 20, 2010

AO AMOR ANTIGO

Foto de Anna Kondakova



O amor antigo vive de si mesmo,
Não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
Mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
Feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
E por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
Aquilo que foi grande e deslumbrante,
O antigo amor, porém, nunca fenece
E a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
E resplandece no seu canto obscuro,
Tanto mais velho quanto mais amor.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, junho 16, 2010

SOLITÁRIO

Foto de F. Monteiro




Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
- Velho caixão a carregar destroços -

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


Augusto dos Anjos

terça-feira, junho 01, 2010

A CASA

Foto de Maria Emília-Olhares



A Casa

Paredes brancas pátios interiores
as mesas largas as cadeiras quase toscas
despojamento de convento e de deserto
a planície prolonga-se na casa
com seu rigor e sua estética
do necessário
do liso
do elementar.

.
Aristocracia do pobre
com sua manta e com seu cobre.

.
Há um cheiro a pão recém-cortado.

.
A casa alentejana está escrita na planície
como o poema no branco descampado.


Manuel Alegre, in Alentejo e Ninguém

O INCÊNDIO

O Incêndio - "Ao convento! ao convento!" - Uiva de longe o vento. É noite. E a multidão, descalça, esfome...