
terça-feira, março 22, 2011
terça-feira, março 01, 2011
HORIZONTE

Um dia ficamos sem voz
e há um vento que leva a poeira
das nossas vidas cada vez mais
longe
Um dia fica apenas esse rosto
o mais amado rosto ainda à procura
do verão que nunca vimos
da espuma das promessas ou das últimas
lágrimas
Um dia despedimo-nos de um sonho
e o mundo é um murmúrio quase mudo
um resto de ocidente luminoso
no horizonte azul vermelho roxo negro
Fernando Pinto do Amaral
Foto de culpeck tom
sábado, janeiro 15, 2011
CANÇÃO DO VIOLEIRO

Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração ´stá deserto,
´Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela se foi ao por da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Como as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! Triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
CASTRO ALVES
Pintura de Andrian Bersenev
segunda-feira, janeiro 10, 2011
CANTIGA

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
João Cabral do Nascimento (Poeta português, nascido no Funchal -1887-1978)
Foto de Alexey Yuzhakov
terça-feira, janeiro 04, 2011
LIBERTAÇÃO

Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.
Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.
Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.
Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.
Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.
Nem as espranças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter.
David Mourão-Ferreira
Foto de Eduard Alt
terça-feira, dezembro 28, 2010
"POEMA"
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
terça-feira, dezembro 14, 2010
VAZIO

Pedra a pedra, esvazio este lugar onde outrora
nos encontrámos. Deixo-o limpo de versos e de
sílabas, seco de lágrimas e de suor, silencioso
como o espaço de onde as aves se ausentaram.
Depois, pedra a pedra, construo a memória
em que te vou guardar. Ergo-a desse campo
onde te abracei, sobre folhas e flores, ouvindo
a música do vento por entre ramos e sombras.
«Mas para que a queres?» perguntas-me. «Sem
mim, sem o calor da minha voz, sem o corpo
que amaste?» E pedra a pedra volto a esvaziar
tudo, como se estivesses aqui, sem nada encontrar.
Nuno Júdice
In O Estado dos Campo
Foto de Tatiana Ershova
quarta-feira, dezembro 01, 2010
TUDO ME LEVA A TI; ASSIM, ESTA TARDE...

Tudo me leva a ti; assim, esta tarde
aberta ao céu azul que sucedeu
ao irado negrume da tormenta,
sob esta luz que, mais do que vespertina,
me parece ofuscante e matinal,
quando atravesso o vale
e volto a Jerte, sem conhecer a razão,
seguindo não sei bem que raro impulso,
curva a curva, bem sabes, leito acima,
até às mesmas nascentes da vida.
É tudo igual, porém também diferente,
e me remete para ti. E as cascatas,
e os talhões e o rio e as cerejeiras
parecem ser olhados pelos teus olhos
e através deles ainda me falas
e voltas a explicar-me o importante:
sentir-se aqui feliz e rodeado
de quanto qualquer homem necessita:
a luz, o campo, a árvore, a montanha,
coisas, talvez, vulgares ou anacrónicas
mas que nos confortam e nos salvam;
os seres e as forças desse mundo
solar onde vivias;
onde, para meu bem, comigo vives.
Álvaro Valverde (Plasencia, Espanha, 1959)
Tradução de Ruy Ventura (Portalegre,1973)
Foto de Vladimir Kulichenko
quinta-feira, novembro 11, 2010
SI TÚ ME OLVIDAS

Quiero que sepas
Quero que saibas
una cosa.
uma coisa.
Tú sabes cómo es esto:
Tu sabes como é isto:
si miro
se olho
la luna de cristal, la rama roja
a lua de cristal, a folhagem vermelha
del lento otoño en mi ventana,
do lento outono em minha janela,
si toco
se toco
junto al fuego
junto ao fogo
la impalpable ceniza
a impalpável cinza
o el arrugado cuerpo de la leña,
ou o enrugado corpo da lenha,
todo me lleva a ti,
tudo me leva a ti,
como si todo lo que existe,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metales,
aromas, luz, metais,
fueran pequeños barcos que navegan
fossem pequenos barcos que navegam
hacia las islas tuyas que me aguardan.
para as ilhas tuas que me aguardam.
Ahora bien,
Agora bem,
si poco a poco dejas de quererme
se pouco a pouco deixas de querer-me
dejaré de quererte poco a poco.
deixarei de querer-te pouco a pouco.
Si de pronto
Se de repente
me olvidas
me esqueces
no me busques,
não me procures,
que ya te habré olvidado.
que eu já terei te esquecido.
Si consideras largo y loco
Se consideras excessivo e louco
el viento de banderas
o vento de bandeiras (*)
que pasa por mi vida
que passa por minha vida
y te decides
e te decides
a dejarme a la orilla
a deixar-me à margem
del corazón en que tengo raíces,
do coração em que tenho raízes,
piensa
pensa
que en ese día,
que nesse dia,
a esa hora
a essa hora
levantaré los brazos
erguerei os braços
y saldrán mis raíces
e sairão minhas raízes
a buscar otra tierra.
a procurar outra terra.
Pero
Mas
si cada día,
se cada dia,
cada hora
cada hora
sientes que a mí estás destinada
sentes que a mim estás destinada
con dulzura implacable.
com doçura implacável.
Si cada día sube
Se cada dia sobe
una flor a tus labios a buscarme,
uma flor a teus lábios a buscar-me,
ay amor mío, ay mía,
ai amor meu, ai minha,
en mí todo ese fuego se repite,
em mim todo esse fogo se repete,
en mí nada se apaga ni se olvida,
em mim nada se apaga nem se esquece,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
meu amor alimenta-se de teu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
e enquanto vivas estará em teus braços
sin salir de los míos.
sem sair dos meus.

(*) "Viento de banderas" - metáfora usada por Neruda significando um acontecimento que passa mas que deixa marcas.
Poema transcrito do Blog Paixão e Romance.
Foto de Tomasz
quinta-feira, outubro 14, 2010
HIPÉRION E DIOTIMA

Às vezes, quando a noite se prolonga
na espessa madrugada, abrindo as veias,
e podemos ouvir, sem grande esforço,
o secreto ruído das asas
dos anjos pelo céu,
é um bom exercício contemplar
um rosto que se amou, fixar-lhe os traços
até sabermos reconstituir
cada pequeno pormenor,
cada poro da pele outra vez nossa,
cada olhar liquefeito, cada antigo
sorriso onde ardiam as maiores
ilusões deste mundo.
Agora que experimento fazer isso,
utilizo o teu rosto: ele atravessa
a cegueira das noites em que não dormimos,
o espelho embaciado dos meus olhos,
o cristal sempre intacto dos mais belos
sonhos.
Podes ficar aqui? Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,
eternidades para te esquecer.
Por favor, não te esfumes no meu sono,
nesse pântano lento onde me afundo
entre o lodo já turvo dos lençóis
e as lágrimas tão ácidas do dia
que há-de nascer, que já nasceu sem ti,
como se o próprio sol quisesse castigar
a minha vida com a tua morte.
Fernando Pinto do Amaral
Foto de Nina Efremova
terça-feira, outubro 12, 2010
ÂNSIA

Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma
As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo
Mia Couto
Foto de Berenice Kauffmann Abud
sábado, outubro 09, 2010
ROMANCE INGÉNUO DE DUAS LINHAS PARALELAS

Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
José Fanha
(Eu sou português aqui )
Foto de Igor L.
quinta-feira, setembro 30, 2010
QUANDO SURGES NA NOITE ...

Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...
Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.
Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...
Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada !
Geraldo Bessa Victor
1917/1990
Foto de Ilya Rashap
terça-feira, setembro 21, 2010
LEMBRANÇAS DO LUGAR

Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!
Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...
Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...
Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...
Afonso Estebanez
Foto de Shubina Olga
quarta-feira, setembro 15, 2010
ESCREVO O TEU NOME

Escrevo o teu nome e um pássaro levanta-se da terra -
sobre o seu voo contariam os teus olhos mil histórias
que eu escutaria com o mesmo silêncio admirado
com que na boca cai um beijo ou a noite atira o amor
para cima das camas. Mas o lápis rola subitamente
sobre a mesa e pára a sepultar as palavras que nunca
te direi - porque o rio não regressa à cidade que primeiro
beijou, nem o navio ruma jamais ao porto que o viu largar.
Maria do Rosário Pedreira
In O Canto do Vento nos Ciprestes
Foto de Vigen Hakhverdyan
domingo, setembro 12, 2010
TESTAMENTO

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
Alda Lara, Poemas, Sá da Bandeira, 1966
Poeta angolana (Benguela, 1930/Cambambe, 1962), veio para Portugal, onde se licenciou em Medicina pela Universidade de Coimbra.
Foto de Maimun
quarta-feira, setembro 08, 2010
MADRUGADA

Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar! ...
Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
— de que não sabemos o motivo?...
Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?
Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...
Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...
Adolfo Casais Monteiro
Escritor lusófono
Porto-1908/São Paulo-1972
Exilou-se em 1954 para o Brasil, por motivos políticos e por lhe ser proibida a docência em Portugal.
Foto de Mihaell
sábado, setembro 04, 2010
PASSEMOS, TU E EU, DEVAGARINHO

Passemos, tu e eu, devagarinho,
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.
Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.
E se a tarde vier, deixá-la vir...
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas...
De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.
Reinaldo Ferreira
Poemas
Foto de Andrew Belkov
sexta-feira, agosto 27, 2010
A ÚNICA RESPOSTA

Jantáramos os dois pela primeira vez:
amizade ou amor, pouco interessava
desde que ali estivesses. O meu mundo
ia mudando à medida do teu,
a cada gesto vão da vã conversa
antes que fôssemos plo Bairro Alto
e enfim o Lumiar, a tua casa.
Eu podia contar uma história, dizer
como aquele rosto atravessava o meu -mas não,
«nada de narrativas, nunca mais».
Apenas a certeza de estar morto
há tanto tempo, que já não me lembro
de cor nenhuma dos teus olhos. Não,
já não existe o dia nem a noite
e este silêncio deve ser talvez
a única resposta. É bem melhor
ficar à espera de que não regresses.
Fernando Pinto do Amaral
(De A Escada de Jacob - Assírio & Alvim)
Foto de Volga Borytsch
sexta-feira, agosto 20, 2010
AINDA UMA VEZ - ADEUS

O grande amor: Ana Amélia
Retrato de Gonçalves Dias.
" A poesia "Ainda uma vez --adeus,--" bem como as poesias "Palinódia e "Retratação" foram inspiradas por Ana Amélia Ferreira do Vale.
" Gonçalves Dias viu-a pela primeira vez em 1846 no Maranhão. Era uma menina quase, e o poeta, fascinado pela sua beleza e graça juvenil, escreveu para ela as poesias "Seus olhos" e "Leviana". Vindo para o Rio, é possível que essa primeira impressão tenha desaparecido do seu espírito. Mais tarde, porém, em 1851, voltando a S. Luís, viu-a de novo, e já então a menina e moça de 46 se fizera mulher, no pleno esplendor da sua beleza desabrochada. O encantamento de outrora se transformou em paixão ardente, e, correspondido com a mesma intensidade de sentimento, o poeta, vencendo a timidez, pediu-a em casamento à família.
" A família da linda Don`Ana -- como lhe chamavam -- tinha o poeta em grande estima e admiração. Mais forte, porém, do que tudo era naquele tempo no Maranhão o preconceito de raça e casta. E foi em nome desse preconceito que a família recusou o seu consentimento.
" Por seu lado o poeta, colocado diante das duas alternativas: renunciar ao amor ou à amizade, preferiu sacrificar aquela a esta, levado por um excessivo escrúpulo de honradez e lealdade, que revela nos mínimos atos de sua vida. Partiu para Portugal. Renúncia tanto mais dolorosa e difícil por que a moça que estava resolvida a abandonar a casa paterna para fugir com ele, o exprobrou em carta, dura e amargamente, por não ter tido a coragem de passar por cima de tudo e de romper com todos para desposá-la!
" E foi em Portugal, tempos depois, que recebeu outro rude golpe: Don`Ana, por capricho e acinte à família, casara-se com um comerciante, homem também de cor como o poeta e nas mesmas condições inferiores de nascimento. A família se opusera tenazmente ao casamento, mas desta vez o pretendente, sem medir considerações para com os parentes da noiva, recorreu à justiça, que lhe deu ganho de causa, por ser maior a moça. Um mês depois falia, partindo com a esposa para Lisboa, onde o casal chegou a passar até privações.
" Foi aí, em Lisboa, num jardim público, que certa vez se defrontaram o poeta e a sua amada, ambos abatidos pela dor e pela desilusão de suas vidas, ele cruelmente arrependido de não ter ousado tudo, de ter renunciado àquela que com uma só palavra sua se lhe entregaria para sempre. desvairado pelo encontro, que lhe reabrira as feridas e agora de modo irreparável, compôs de um jato as estrofes de "Ainda uma vez -- adeus --" as quais, uma vez conhecidas da sua inspiradora, foram por esta copiadas com o seu próprio sangue."
I
Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
II
Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!
III
Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!
IV
Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.
V
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!
VI
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!
VII
Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?
VIII
Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!
IX
Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!
X
Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
"Ela é feliz (me dizia)
"Seu descanso é obra minha."
Negou-me a sorte mesquinha. . .
Perdoa, que me enganei!
XI
Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!
XII
Enganei-me!... — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!
XIII
Louco, julguei adornar-me
Com palmas d'alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.
XIV
Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!
XV
És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!
XVI
Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!
XVII
Adeus qu'eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!
XVIII
Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão.
Gonçalves Dias
Poeta Brasileiro
1823 / 1864
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