
domingo, maio 08, 2011
sexta-feira, maio 06, 2011
A DANÇA

Não te amo como se fosses uma rosa ou um topázio
Ou a flecha de cravos, que o fogo lança.
Amo-te como certas coisas escuras devem ser amadas,
Em segredo, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floresce e carrega,
Escondida dentro de si, a luz de todas as flores.
E, graças ao teu amor, escura no meu corpo
Vive a densa fragrância que cresce da terra.
Amo-te sem saber como ou quando ou de onde.
Amo-te tal como és, sem complexos nem orgulhos.
Amo-te assim porque não sei outro caminho além deste
Onde não existo eu nem tu.
Tão perto que a tua mão no meu peito é a minha mão.
Tão perto que, quando fechas os olhos, adormeço.
PABLO NERUDA
Foto de Nadezda Koldyshev
sábado, abril 23, 2011
ADEUS
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
EUGÉNIO DE ANDRADE
terça-feira, abril 12, 2011
ABRI A MINHA JANELA...

Abri minha janela ao vento norte
A ver se o frio me acordava
De um sonho em que eu próprio duvidava.
- No céu brilhavam estrelas mais que nunca.
Em vão, desde então, eu procurei
Lembrar o seu olhar, a sua imagem
Tão bela, tão perfeita, mais miragem.
- No céu brilhavam estrelas mais que nunca.
Ruy Cinatti
Foto Aleksandr Talyuka
domingo, março 27, 2011
UM GRANDE AMOR

"Um grande amor não cabe em nenhum verso,
como a vida não cabe num jardim,
como não cabe Deus no Universo
nem o meu coração dentro de mim.
A noite é mais pequena do que o luar,
e é mais vasto o perfume do que a flor.
É a onda mais alta do que o mar.
Não cabe em nenhum verso um grande amor.
Dizer em verso aquilo que se pensa,
ideia de poeta, ideia louca.
Não é bastante a frase mais extensa,
diz mais o beijo do que diz a boca.
Ninguém deve contar o seu segredo.
Versos de amor, só se os fizer assim:
como os pássaros cantam no arvoredo,
como as flores se beijam no jardim.
Que verso incomparável, infinito,
feito de sol, de misterioso brilho,
poderia dizer o que, num grito,
diz a mulher quando lhe nasce um filho?
E quando sobre nós desce a tristeza,
como desce a penumbra sobre o dia,
uma lágrima triste e sem beleza,
diz mais do que a palavra nua e fria.
Redondilha de amor... Para fazê-la,
desse-me Deus a tinta do luar,
a candeia suspensa de uma estrela
e o tinteiro vastíssimo do mar."
FERNANDA DE CASTRO
(1900 - 1994)
Foto de Hamanov Vladimir
terça-feira, março 22, 2011
ESQUECER

Longos dias de sonho e de repouso...
Ócio e doçura... Sinto, nestes dias,
Meu corpo amolecer, voluptuoso,
Num desfalecimento de energias.
A ler o meu poeta doloroso
E a fumar, passo as horas fugidias.
Entre um cigarro e um verso vaporoso
Sou todo evocações e nostalgias.
Quando por tudo a claridade morre
E sobre as folhas do jardim doente
A tinta branca do luar escorre,
A minha alma, a mercê de velhas mágoas,
É um pássaro ferido mortalmente
Que vai sendo arrastado pelas águas.
RIBEIRO COUTO
Foto de Artur Miljus
terça-feira, março 01, 2011
HORIZONTE

Um dia ficamos sem voz
e há um vento que leva a poeira
das nossas vidas cada vez mais
longe
Um dia fica apenas esse rosto
o mais amado rosto ainda à procura
do verão que nunca vimos
da espuma das promessas ou das últimas
lágrimas
Um dia despedimo-nos de um sonho
e o mundo é um murmúrio quase mudo
um resto de ocidente luminoso
no horizonte azul vermelho roxo negro
Fernando Pinto do Amaral
Foto de culpeck tom
sábado, janeiro 15, 2011
CANÇÃO DO VIOLEIRO

Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração ´stá deserto,
´Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela se foi ao por da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Como as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! Triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
CASTRO ALVES
Pintura de Andrian Bersenev
segunda-feira, janeiro 10, 2011
CANTIGA

Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.
Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.
Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.
À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
João Cabral do Nascimento (Poeta português, nascido no Funchal -1887-1978)
Foto de Alexey Yuzhakov
terça-feira, janeiro 04, 2011
LIBERTAÇÃO

Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.
Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.
Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.
Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.
Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.
Nem as espranças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter.
David Mourão-Ferreira
Foto de Eduard Alt
terça-feira, dezembro 28, 2010
"POEMA"
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
terça-feira, dezembro 14, 2010
VAZIO

Pedra a pedra, esvazio este lugar onde outrora
nos encontrámos. Deixo-o limpo de versos e de
sílabas, seco de lágrimas e de suor, silencioso
como o espaço de onde as aves se ausentaram.
Depois, pedra a pedra, construo a memória
em que te vou guardar. Ergo-a desse campo
onde te abracei, sobre folhas e flores, ouvindo
a música do vento por entre ramos e sombras.
«Mas para que a queres?» perguntas-me. «Sem
mim, sem o calor da minha voz, sem o corpo
que amaste?» E pedra a pedra volto a esvaziar
tudo, como se estivesses aqui, sem nada encontrar.
Nuno Júdice
In O Estado dos Campo
Foto de Tatiana Ershova
quarta-feira, dezembro 01, 2010
TUDO ME LEVA A TI; ASSIM, ESTA TARDE...

Tudo me leva a ti; assim, esta tarde
aberta ao céu azul que sucedeu
ao irado negrume da tormenta,
sob esta luz que, mais do que vespertina,
me parece ofuscante e matinal,
quando atravesso o vale
e volto a Jerte, sem conhecer a razão,
seguindo não sei bem que raro impulso,
curva a curva, bem sabes, leito acima,
até às mesmas nascentes da vida.
É tudo igual, porém também diferente,
e me remete para ti. E as cascatas,
e os talhões e o rio e as cerejeiras
parecem ser olhados pelos teus olhos
e através deles ainda me falas
e voltas a explicar-me o importante:
sentir-se aqui feliz e rodeado
de quanto qualquer homem necessita:
a luz, o campo, a árvore, a montanha,
coisas, talvez, vulgares ou anacrónicas
mas que nos confortam e nos salvam;
os seres e as forças desse mundo
solar onde vivias;
onde, para meu bem, comigo vives.
Álvaro Valverde (Plasencia, Espanha, 1959)
Tradução de Ruy Ventura (Portalegre,1973)
Foto de Vladimir Kulichenko
quinta-feira, novembro 11, 2010
SI TÚ ME OLVIDAS

Quiero que sepas
Quero que saibas
una cosa.
uma coisa.
Tú sabes cómo es esto:
Tu sabes como é isto:
si miro
se olho
la luna de cristal, la rama roja
a lua de cristal, a folhagem vermelha
del lento otoño en mi ventana,
do lento outono em minha janela,
si toco
se toco
junto al fuego
junto ao fogo
la impalpable ceniza
a impalpável cinza
o el arrugado cuerpo de la leña,
ou o enrugado corpo da lenha,
todo me lleva a ti,
tudo me leva a ti,
como si todo lo que existe,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metales,
aromas, luz, metais,
fueran pequeños barcos que navegan
fossem pequenos barcos que navegam
hacia las islas tuyas que me aguardan.
para as ilhas tuas que me aguardam.
Ahora bien,
Agora bem,
si poco a poco dejas de quererme
se pouco a pouco deixas de querer-me
dejaré de quererte poco a poco.
deixarei de querer-te pouco a pouco.
Si de pronto
Se de repente
me olvidas
me esqueces
no me busques,
não me procures,
que ya te habré olvidado.
que eu já terei te esquecido.
Si consideras largo y loco
Se consideras excessivo e louco
el viento de banderas
o vento de bandeiras (*)
que pasa por mi vida
que passa por minha vida
y te decides
e te decides
a dejarme a la orilla
a deixar-me à margem
del corazón en que tengo raíces,
do coração em que tenho raízes,
piensa
pensa
que en ese día,
que nesse dia,
a esa hora
a essa hora
levantaré los brazos
erguerei os braços
y saldrán mis raíces
e sairão minhas raízes
a buscar otra tierra.
a procurar outra terra.
Pero
Mas
si cada día,
se cada dia,
cada hora
cada hora
sientes que a mí estás destinada
sentes que a mim estás destinada
con dulzura implacable.
com doçura implacável.
Si cada día sube
Se cada dia sobe
una flor a tus labios a buscarme,
uma flor a teus lábios a buscar-me,
ay amor mío, ay mía,
ai amor meu, ai minha,
en mí todo ese fuego se repite,
em mim todo esse fogo se repete,
en mí nada se apaga ni se olvida,
em mim nada se apaga nem se esquece,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
meu amor alimenta-se de teu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
e enquanto vivas estará em teus braços
sin salir de los míos.
sem sair dos meus.

(*) "Viento de banderas" - metáfora usada por Neruda significando um acontecimento que passa mas que deixa marcas.
Poema transcrito do Blog Paixão e Romance.
Foto de Tomasz
quinta-feira, outubro 14, 2010
HIPÉRION E DIOTIMA

Às vezes, quando a noite se prolonga
na espessa madrugada, abrindo as veias,
e podemos ouvir, sem grande esforço,
o secreto ruído das asas
dos anjos pelo céu,
é um bom exercício contemplar
um rosto que se amou, fixar-lhe os traços
até sabermos reconstituir
cada pequeno pormenor,
cada poro da pele outra vez nossa,
cada olhar liquefeito, cada antigo
sorriso onde ardiam as maiores
ilusões deste mundo.
Agora que experimento fazer isso,
utilizo o teu rosto: ele atravessa
a cegueira das noites em que não dormimos,
o espelho embaciado dos meus olhos,
o cristal sempre intacto dos mais belos
sonhos.
Podes ficar aqui? Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,
eternidades para te esquecer.
Por favor, não te esfumes no meu sono,
nesse pântano lento onde me afundo
entre o lodo já turvo dos lençóis
e as lágrimas tão ácidas do dia
que há-de nascer, que já nasceu sem ti,
como se o próprio sol quisesse castigar
a minha vida com a tua morte.
Fernando Pinto do Amaral
Foto de Nina Efremova
terça-feira, outubro 12, 2010
ÂNSIA

Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma
As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo
Mia Couto
Foto de Berenice Kauffmann Abud
sábado, outubro 09, 2010
ROMANCE INGÉNUO DE DUAS LINHAS PARALELAS

Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.
Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.
Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra linha
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
«Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim...»
Diz a outra: « Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!»
Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.
E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.
Assim nestas poucas linhas
fica uma estória banal
com linhas e entrelinhas,
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente.
José Fanha
(Eu sou português aqui )
Foto de Igor L.
quinta-feira, setembro 30, 2010
QUANDO SURGES NA NOITE ...

Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...
Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.
Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...
Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada !
Geraldo Bessa Victor
1917/1990
Foto de Ilya Rashap
terça-feira, setembro 21, 2010
LEMBRANÇAS DO LUGAR

Querida, vê no pranto que extravasa
o coração quando a lembrança aflora...
Os gerânios... As rosas... Como atrasa
o tempo entre o crepúsculo e a aurora!
Há sonhos que ainda vagam pela casa
em meu rústico albergue da memória...
E ainda um lírio que a min’alma vaza
de saudade do amor que ainda chora...
Nos beirais da varanda as andorinhas
bailam, querida, e as ninfas seminuas
das ribeiras em flor bailam sozinhas...
Beirando a vida nos beirais das ruas,
tu vives de sentir saudades minhas
e eu morro de sentir saudades tuas...
Afonso Estebanez
Foto de Shubina Olga
quarta-feira, setembro 15, 2010
ESCREVO O TEU NOME

Escrevo o teu nome e um pássaro levanta-se da terra -
sobre o seu voo contariam os teus olhos mil histórias
que eu escutaria com o mesmo silêncio admirado
com que na boca cai um beijo ou a noite atira o amor
para cima das camas. Mas o lápis rola subitamente
sobre a mesa e pára a sepultar as palavras que nunca
te direi - porque o rio não regressa à cidade que primeiro
beijou, nem o navio ruma jamais ao porto que o viu largar.
Maria do Rosário Pedreira
In O Canto do Vento nos Ciprestes
Foto de Vigen Hakhverdyan
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