domingo, maio 29, 2011

A ESMOLA DE DULCE






E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
- Senhora dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,
Estendendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos lábios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.


AUGUSTO DOS ANJOS


Imagem: Pygmalion, 1781 by Louis Lagrenee


sexta-feira, maio 27, 2011

AUSÊNCIA




Quero dizer-te uma coisa simples:
a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.
São estas as formas do amor,
podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples
também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre
o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

NUNO JÚDICE

Foto deJeremy Smith

quarta-feira, maio 25, 2011

PRETEXTOS PARA FUGIR DO REAL




A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar

Por isso fecho os olhos

(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)

Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio

Experimento um silêncio

Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

Assobio às pequenas esperanças
Que vêm lamber-me os dedos

Perco-me no teu retrato
Horas seguidas

E ao trote do ciúme deito contas
Deito contas à vida.

Alexandre O’Neill


Foto de Aleksandr Talyuka

terça-feira, maio 24, 2011

E TUDO ERA POSSÍVEL







Na minha juventude antes de ter saído

da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio e era tudo florido

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer


RUY BELO


Foto de Aerts Remi

segunda-feira, maio 16, 2011

AGORA É TARDE...





Agora é tarde para novo rumo
Dar ao sequioso espírito; outra via
Não terei de mostrar-lhe e à fantasia
Além desta em que peno e me consumo.

Aí, de sol nascente a sol a prumo,
Deste ao declínio e ao desmaiar do dia,
Tenho ido empós do ideal que me alumia,
A lidar com o que é vão, é sonho, é fumo.

Aí me hei de ficar até cansado
Cair, inda abençoando o doce e amigo
Instrumento em que canto e a alma me encerra;

Abençoando-o por sempre andar comigo
E bem ou mal, aos versos me haver dado
Um raio do esplendor de minha terra.

ALBERTO DE OLIVEIRA

(Poeta Brasileiro 1857-1937)

Foto de Johny Hemelsoen

domingo, maio 08, 2011

SEGREDO




Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


FERNANDO PINTO DO AMARAL

Foto de Ilya Rashap

sexta-feira, maio 06, 2011

A DANÇA




Não te amo como se fosses uma rosa ou um topázio
Ou a flecha de cravos, que o fogo lança.
Amo-te como certas coisas escuras devem ser amadas,
Em segredo, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floresce e carrega,
Escondida dentro de si, a luz de todas as flores.
E, graças ao teu amor, escura no meu corpo
Vive a densa fragrância que cresce da terra.
Amo-te sem saber como ou quando ou de onde.
Amo-te tal como és, sem complexos nem orgulhos.
Amo-te assim porque não sei outro caminho além deste
Onde não existo eu nem tu.
Tão perto que a tua mão no meu peito é a minha mão.
Tão perto que, quando fechas os olhos, adormeço.

PABLO NERUDA


Foto de Nadezda Koldyshev

sábado, abril 23, 2011

ADEUS





Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

EUGÉNIO DE ANDRADE

terça-feira, abril 12, 2011

ABRI A MINHA JANELA...





Abri minha janela ao vento norte

A ver se o frio me acordava

De um sonho em que eu próprio duvidava.

- No céu brilhavam estrelas mais que nunca.

Em vão, desde então, eu procurei

Lembrar o seu olhar, a sua imagem

Tão bela, tão perfeita, mais miragem.

- No céu brilhavam estrelas mais que nunca.


Ruy Cinatti


Foto Aleksandr Talyuka

domingo, março 27, 2011

UM GRANDE AMOR





"Um grande amor não cabe em nenhum verso,
como a vida não cabe num jardim,
como não cabe Deus no Universo
nem o meu coração dentro de mim.

A noite é mais pequena do que o luar,
e é mais vasto o perfume do que a flor.
É a onda mais alta do que o mar.
Não cabe em nenhum verso um grande amor.

Dizer em verso aquilo que se pensa,
ideia de poeta, ideia louca.
Não é bastante a frase mais extensa,
diz mais o beijo do que diz a boca.

Ninguém deve contar o seu segredo.
Versos de amor, só se os fizer assim:
como os pássaros cantam no arvoredo,
como as flores se beijam no jardim.

Que verso incomparável, infinito,
feito de sol, de misterioso brilho,
poderia dizer o que, num grito,
diz a mulher quando lhe nasce um filho?

E quando sobre nós desce a tristeza,
como desce a penumbra sobre o dia,
uma lágrima triste e sem beleza,
diz mais do que a palavra nua e fria.

Redondilha de amor... Para fazê-la,
desse-me Deus a tinta do luar,
a candeia suspensa de uma estrela
e o tinteiro vastíssimo do mar."

FERNANDA DE CASTRO

(1900 - 1994)


Foto de Hamanov Vladimir


terça-feira, março 22, 2011

ESQUECER








Longos dias de sonho e de repouso...
Ócio e doçura... Sinto, nestes dias,
Meu corpo amolecer, voluptuoso,
Num desfalecimento de energias.

A ler o meu poeta doloroso
E a fumar, passo as horas fugidias.
Entre um cigarro e um verso vaporoso
Sou todo evocações e nostalgias.

Quando por tudo a claridade morre
E sobre as folhas do jardim doente
A tinta branca do luar escorre,

A minha alma, a mercê de velhas mágoas,
É um pássaro ferido mortalmente
Que vai sendo arrastado pelas águas.

RIBEIRO COUTO

Foto de Artur Miljus

terça-feira, março 01, 2011

HORIZONTE







Um dia ficamos sem voz
e há um vento que leva a poeira
das nossas vidas cada vez mais
longe

Um dia fica apenas esse rosto
o mais amado rosto ainda à procura
do verão que nunca vimos
da espuma das promessas ou das últimas
lágrimas

Um dia despedimo-nos de um sonho
e o mundo é um murmúrio quase mudo
um resto de ocidente luminoso
no horizonte azul vermelho roxo negro


Fernando Pinto do Amaral


Foto de culpeck tom

sábado, janeiro 15, 2011

CANÇÃO DO VIOLEIRO




Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração ´stá deserto,
´Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

Ela se foi ao por da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta triste,
Mais triste é meu coração.

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

E eu disse: a senhora volta
Como as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! Triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?

Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

CASTRO ALVES

Pintura de Andrian Bersenev

segunda-feira, janeiro 10, 2011

CANTIGA





Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.


João Cabral do Nascimento (Poeta português, nascido no Funchal -1887-1978)


Foto de Alexey Yuzhakov

terça-feira, janeiro 04, 2011

LIBERTAÇÃO





Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.

Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.

Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.

Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.

Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.

Nem as espranças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter.



David Mourão-Ferreira



Foto de Eduard Alt


terça-feira, dezembro 28, 2010

"POEMA"





Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

terça-feira, dezembro 14, 2010

VAZIO






Pedra a pedra, esvazio este lugar onde outrora
nos encontrámos. Deixo-o limpo de versos e de
sílabas, seco de lágrimas e de suor, silencioso
como o espaço de onde as aves se ausentaram.


Depois, pedra a pedra, construo a memória
em que te vou guardar. Ergo-a desse campo
onde te abracei, sobre folhas e flores, ouvindo
a música do vento por entre ramos e sombras.


«Mas para que a queres?» perguntas-me. «Sem
mim, sem o calor da minha voz, sem o corpo
que amaste?» E pedra a pedra volto a esvaziar
tudo, como se estivesses aqui, sem nada encontrar.


Nuno Júdice

In O Estado dos Campo



Foto de Tatiana Ershova


quarta-feira, dezembro 01, 2010

TUDO ME LEVA A TI; ASSIM, ESTA TARDE...





Tudo me leva a ti; assim, esta tarde

aberta ao céu azul que sucedeu

ao irado negrume da tormenta,

sob esta luz que, mais do que vespertina,

me parece ofuscante e matinal,

quando atravesso o vale

e volto a Jerte, sem conhecer a razão,

seguindo não sei bem que raro impulso,

curva a curva, bem sabes, leito acima,

até às mesmas nascentes da vida.

É tudo igual, porém também diferente,

e me remete para ti. E as cascatas,

e os talhões e o rio e as cerejeiras

parecem ser olhados pelos teus olhos

e através deles ainda me falas

e voltas a explicar-me o importante:

sentir-se aqui feliz e rodeado

de quanto qualquer homem necessita:

a luz, o campo, a árvore, a montanha,

coisas, talvez, vulgares ou anacrónicas

mas que nos confortam e nos salvam;

os seres e as forças desse mundo

solar onde vivias;

onde, para meu bem, comigo vives.


Álvaro Valverde (Plasencia, Espanha, 1959)

Tradução de Ruy Ventura (Portalegre,1973)


Foto de Vladimir Kulichenko



quinta-feira, novembro 11, 2010

SI TÚ ME OLVIDAS





Quiero que sepas
Quero que saibas

una cosa.
uma coisa.


Tú sabes cómo es esto:
Tu sabes como é isto:

si miro
se olho

la luna de cristal, la rama roja
a lua de cristal, a folhagem vermelha

del lento otoño en mi ventana,
do lento outono em minha janela,

si toco
se toco

junto al fuego
junto ao fogo

la impalpable ceniza
a impalpável cinza

o el arrugado cuerpo de la leña,
ou o enrugado corpo da lenha,

todo me lleva a ti,
tudo me leva a ti,

como si todo lo que existe,
como se tudo o que existe,

aromas, luz, metales,
aromas, luz, metais,

fueran pequeños barcos que navegan
fossem pequenos barcos que navegam

hacia las islas tuyas que me aguardan.
para as ilhas tuas que me aguardam.


Ahora bien,
Agora bem,

si poco a poco dejas de quererme
se pouco a pouco deixas de querer-me

dejaré de quererte poco a poco.
deixarei de querer-te pouco a pouco.


Si de pronto
Se de repente

me olvidas
me esqueces

no me busques,
não me procures,

que ya te habré olvidado.
que eu já terei te esquecido.


Si consideras largo y loco
Se consideras excessivo e louco

el viento de banderas
o vento de bandeiras (*)

que pasa por mi vida
que passa por minha vida

y te decides
e te decides

a dejarme a la orilla
a deixar-me à margem

del corazón en que tengo raíces,
do coração em que tenho raízes,

piensa
pensa

que en ese día,
que nesse dia,

a esa hora
a essa hora

levantaré los brazos
erguerei os braços

y saldrán mis raíces
e sairão minhas raízes

a buscar otra tierra.
a procurar outra terra.


Pero
Mas

si cada día,
se cada dia,

cada hora
cada hora

sientes que a mí estás destinada
sentes que a mim estás destinada

con dulzura implacable.
com doçura implacável.

Si cada día sube
Se cada dia sobe

una flor a tus labios a buscarme,
uma flor a teus lábios a buscar-me,

ay amor mío, ay mía,
ai amor meu, ai minha,

en mí todo ese fuego se repite,
em mim todo esse fogo se repete,

en mí nada se apaga ni se olvida,
em mim nada se apaga nem se esquece,

mi amor se nutre de tu amor, amada,
meu amor alimenta-se de teu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
e enquanto vivas estará em teus braços

sin salir de los míos.
sem sair dos meus.






(*) "Viento de banderas" - metáfora usada por Neruda significando um acontecimento que passa mas que deixa marcas.

Poema transcrito do Blog Paixão e Romance.

Foto de Tomasz

quinta-feira, outubro 14, 2010

HIPÉRION E DIOTIMA





Às vezes, quando a noite se prolonga
na espessa madrugada, abrindo as veias,
e podemos ouvir, sem grande esforço,
o secreto ruído das asas
dos anjos pelo céu,
é um bom exercício contemplar
um rosto que se amou, fixar-lhe os traços
até sabermos reconstituir
cada pequeno pormenor,
cada poro da pele outra vez nossa,
cada olhar liquefeito, cada antigo
sorriso onde ardiam as maiores
ilusões deste mundo.


Agora que experimento fazer isso,
utilizo o teu rosto: ele atravessa
a cegueira das noites em que não dormimos,
o espelho embaciado dos meus olhos,
o cristal sempre intacto dos mais belos
sonhos.


Podes ficar aqui? Não vás embora,
precisarei de mais alguns minutos,
horas, dias, semanas, meses, anos,
eternidades para te esquecer.
Por favor, não te esfumes no meu sono,
nesse pântano lento onde me afundo
entre o lodo já turvo dos lençóis
e as lágrimas tão ácidas do dia
que há-de nascer, que já nasceu sem ti,
como se o próprio sol quisesse castigar
a minha vida com a tua morte.

Fernando Pinto do Amaral




Foto de Nina Efremova

O INCÊNDIO

O Incêndio - "Ao convento! ao convento!" - Uiva de longe o vento. É noite. E a multidão, descalça, esfome...