domingo, abril 15, 2012

O SEU NOME É MUITO PRÓPRIO DELA




O seu nome é GRAcioso e muito próprio dela:
Respira um vago tom de música inocente;
E lembra a placidez de um lago transparente;
Recorda a emanação tranquila duma estrela.

Lembra um título bom, que logo nos revela
A ideia do poema. E todo o mundo sente
Não sei que afinidade entre o seu ar dolente,
a sua morbidezza, e o próprio nome dela.

E chego acreditar - ingenuamente o digo -
Que havia um nome em branco, e Deus pensa consigo
Em traduzi-lo enfim numa expressão qualquer:

De forma que a mulher suave e GRAciosa
Faz parte deste nome um tanto cor-de-rosa,
E este nome gentil faz parte da mulher.

GUILHERME DE AZEVEDO


Pintura de Iman Maleki

Guilherme Avelino Chave de Azevedo (1839-1882) nasceu em Santarém e faleceu em Paris. Estudou Humanidades no liceu de Santarém, tendo fundado e dirigido o jornal O Alfageme (1871). Fixa-se em Lisboa, onde se junta à Geração de 70, participando nas Conferências do Casino. Colaborou na Lanterna Mágica e no Álbum das Glórias, este último ilustrado com caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro. Sendo correspondente jornalístico do Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, parte em 1880 para Paris, onde viria a falecer. As influências poéticas sofridas vão de Lamartine a Victor Hugo, mostrando a sua poesia algumas semelhanças com a de Cesário Verde. Obras poéticas: Aparições (1867), Radiações da Noite (1871) e A Alma Nova (1874). Em colaboração com Guerra Junqueiro, escreveu Viagem à Roda da Parvónia
Origem: Projecto Vercial 





quinta-feira, abril 12, 2012

A D E U S


Mon coeur, encore plein d'elle, errait sur son visage Et ne Ia trouvait plus. MUSSET.


 Porém de súbito acordou do ergástulo
O precito, que ali jazia há pouco...
E o pensamento habituado às trevas
Atirado na luz... — pássaro louco!

Vi de repente o passado
Erguer-se em face de mim...
A rir... a rir, como espectro,
De uma ironia sem fim.

 A orquestra, as luzes, o teatro, as flores
Tu no meio da festa que fulgura
Tu! sempre a mesma! a mesma! Tu! meu Deus!
Não morri neste instante de loucura ...

 Quebra-te pena maldita
Que não podes escrever
A horror de angústias e mágoas
Que então me viste sofrer.

 A mesma fronte que amei outrora!
O mesmo riso que me vira um dia!
O mesmo olhar que me perdera a vida!
A mesma, a mesma, por quem eu morria!

 Que saudades que eu tenho do passado,
Da nossa mocidade ardente e amante!
Meu Deus! Eu dera o resto de existência
Por um momento assim... por um instante.

 Mas não! entre nós o abismo
Se estende negro e fatal...
— Jamais! — é palavra escrita
No céu, na terra, no val.

 Eu — já não tenho mais vida!
Tu — já não tens mais amor!
Tu — só vives para os risos.
 Eu — só vivo para a dor.

 Tu vais em busca da aurora!
Eu em busca do poente!
Queres o leito brilhante!
Eu peço a cova silente!

 Não te iludas! O passado
P'ra sempre quebrado está!
Desce a corrente do rio...
E deixa-o sepulto lá!

 Viste-me... E creste um momento
Qu'inda me tinhas amor!.
Pobre amiga! Era lembrança,
Era saudade... era dor!

 Obrigado! Mas na terra
Tudo entre nós se acabou!
Adeus! ... É o adeus extremo...
A hora extrema soou.

Quis te odiar, não pude. — Quis na terra
Encontrar outro amor. — Foi-me impossível.
Então bendisse a Deus que no meu peito
Pôs o germe cruel de um mal terrível.

 Sinto que vou morrer! Posso, portanto,
A verdade dizer-te santa e nua,
Não quero mais teu amor! Porém minh'alma
Aqui, além, mais longe, é sempre tua.



 CASTRO ALVES


 Foto de Vlad Belin

terça-feira, abril 03, 2012

VIVO NA ESPERANÇA DE UM GESTO

Vivo na esperança de um gesto 

 Que hás-de fazer. 

 Gesto, claro, é maneira de dizer, 

 Pois o que importa é o resto 

 Que esse gesto tem de ter. 

 Tem que ter sinceridade 

 Sem parecer premeditado; 

 E tem que ser convincente, 

 Mas de maneira diferente 

 Do discurso preparado. 

 Sem me alargar, não resisto 

 À tentação de dizer 

 Que o gesto não é só isto... 

 Quando tu, em confusão, 

 Sabendo que estou à espera, 

 Me mostras que só hesitas 

 Por não saber começar, 

 Que tentações de falar! 

 Porque enfim, como adivinhas, 

 Esse gesto eu sei qual é, 

Mas se o disser, já não é... 


 REINALDO FERREIRA 


 Foto de Vyacheslav Sokhin

sexta-feira, março 30, 2012

ESTRELA DA TARDE




Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia 

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia 

Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia 

Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia 


 Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia 

E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria 

Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia 

Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia 


 Meu amor, meu amor 

Minha estrela da tarde 

Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde 

Meu amor, meu amor 

Eu não tenho a certeza 

Se tu és a alegria ou se és a tristeza 

Meu amor, meu amor 

Eu não tenho a certeza 


 Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram 

Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram 

Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram 

E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram 


 Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram 

Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam 

Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram 

E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram 


 Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto 

É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto 

Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto 

Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto 


 Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto! 


 ARY DOS SANTOS 

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 7 de Dezembro de 1937 -- 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e diseur de poesia português. 


Foto de Sergey Ryzhkov

sábado, março 24, 2012

FADO SONETO






Cada manhã era a véspera da surpresa,
de silêncio em silêncio anunciada.
De encanto se tecia e de tristeza
essa noite cada vez mais desejada.



Do teu corpo prometido ainda o cheiro,
do teu ventre revelado ainda a chama.
A saudade do que foi um dia inteiro
na moldura do que foi a nossa cama.



Cada minuto um punhal impaciente,
cada gesto uma carícia antecipada,
cada suspiro um excesso de ar eloquente.



E a surpresa da surpresa desejada:
o sabor desse teu corpo adolescente
de mulher em cada beijo renovada.



FERNANDO TAVARES RODRIGUES

Professor universitário, sociólogo e escritor, Fernando Jácome de Castro Tavares Rodrigues (1954 - 2006) nasceu em Lisboa, no dia 7 de Março de 1954. Faleceu em Lisboa a 1 de Março de 2006.


Pintura de Iman Maleki

segunda-feira, março 12, 2012

POEMA DA CULPA






Eu a amei, e era de outro, que também a queria.
Perdoai a ela, Senhor, porque a culpa é minha.
Depois de haver beijado seus cabelos de trigo,
nada importa à culpa, pois não importa o castigo.

Foi um pecado desejá-la, Senhor, e, no entanto
meus lábios estão doces por esse amor amargo.
Ela foi como uma água calada que corria…
Se é culpa ter sede, toda a culpa é minha.

Perdoai a ela, Senhor, tu que destes a ela
sua frescura de chuva e esplendor de estrela.
Sua alma era transparente como um vaso vazio:
eu o enchi de amor. Todo o pecado é meu.

Mas, como não amá-la, se tu fizestes que fosse
pertubadora e fragante como a primavera?
Como não havê-la amado, se era como o orvalho
sobre a erva seca e ávida da estiagem?

Tratarei de rechaçá-la, Senhor, inutilmente,
como um sulco que tenta rechaçar a semente.
Era de outro. Era de outro que não a merecia,
e por isso, em seus braços, seguia sendo minha.

Era de outro, Senhor, mas há coisas sem dono:
as rosas e os rios, e o amor e o sonho.
E ela me deu seu amor como se dá uma rosa
como quem dá tudo, dando tão pouca coisa…

Uma embriaguês estranha nos venceu pouco a pouco:
ela não foi culpada, Senhor… nem eu tampouco
A culpa é toda tua, porque a fizestes bela
e me destes os olhos para mirá-la.

Sim. Nossa culpa é tua, se é uma culpa amar
e se é culpado o rio quando corre até o mar.
É tão bela, Senhor, e é tão suave, e tão clara,
que seria pecado maior se não a amasse.

E por isso, perdoa-me, Senhor, porque é tão bela,
que tu, que fizestes a água, e a flor, e a estrela,
tu, que ouves o lamento desta dor sem nome,
tu tambem a amarias, se pudesses ser homem.

JOSÉ ANGEL BUESA

in eupassarin

Foto de Juan Velasco

quinta-feira, março 08, 2012

POEMA MELANCÓLICO A NÃO SEI QUE MULHER





Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.



Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...


MIGUEL TORGA


Pintura de Tamara Lempicka

segunda-feira, março 05, 2012

A DIMENSÃO DO TEMPO







Porque não pára o tempo

quando estás ao meu lado?

É tão curto o tempo para te ouvir ...


Depois há os teus olhos

em que paro

nesta longa viagem ao interior da tua sedução

e de onde não me apetece partir...


Ah se eu pudesse suster os relógios

ficaríamos assim

de mãos dadas por toda a eternidade


um período demasiado exíguo

para a dimensão enorme do tempo deste amor.


FERNANDO PEIXOTO


Foto de Vyacheslav Sokhin

sábado, março 03, 2012

AUTO-RETRATO





Eu sou … aquilo que sou – nem mais nem menos,
Alguém que vai vivendo ... bem e mal...
Um ser que vai soltando amargos trenos
Na ânsia de fugir a ser banal,

De não se definir nos epicenos
(Difusa luz que aspira a ser fanal!).
Alguém que o muito amar, letal veneno,
Tornou em triste vate do seu mal.

Deambulando oníricos roteiros,
Numa evasão aos rumos prisioneiros
Que a vida nos limita, coactiva,

Eu, que sou Eu, resista quem resista,
Quero manter o dom desta conquista
De ser quem sou, aonde quer que viva.

ANTÓNIO DE ALMEIDA


Pintura de William Bouguereau

sexta-feira, março 02, 2012

ROTAÇÃO





É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.

NUNO JÚDICE

Foto de Сергей Михеев

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

NÃO TE ENTENDO CORAÇÃO





Mas se não amo, nem posso,
Que pode então isto ser?
Coração, se já morreste,
Porque te sinto bater?
Ai, desconfio que vives
Sem tu nem eu o saber.

Porque a olho quando a vejo?
Porque a vejo sem a olhar?
Porque longe dos meus olhos
Me andam os seus a lembrar?
Porque levo tantas horas
Nela somente a pensar?

Porque tímido lhe falo,
E dantes não era assim?
Porque mal a voz lhe escuto
Não sei o que sinto em mim?
Porque nunca um não me acode
Em tudo que ela diz sim?

Porque estremeço contente
Quando ela me estende a mão,
E se aos outros faz o mesmo
Porque é que não gosto e não?
Deveras que não me entendo,
Nem te entendo, coração.

Ou me enganas, ou te engano;
Se isto amor não pode ser,
Não atino, não conheço
Que outro nome possa ter;
Ai, coração, que vivemos
Sem tu nem eu o saber.

JOÃO DE LEMOS

João de Lemos Seixas Castelo Branco, (Peso da Régua, 1819 — 1890), foi jornalista, poeta e dramaturgo.

quarta-feira, fevereiro 22, 2012

EU ONTEM VI -TE ...





Eu ontem vi-te...
Andava a luz
do teu olhar,
que me seduz,
a divagar
em torno de mim.
E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor.
De medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.


ANGELO DE LIMA

Poeta natural do Porto

1872-1921


Foto de Olga Filatoff

sábado, fevereiro 18, 2012

FRÉMITO DO MEU CORPO A PROCURAR-TE





Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas ...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas ...

FLORBELA ESPANCA


Foto de Sergey Ryzhkov

domingo, fevereiro 12, 2012

ETERNIDADE






Será a tua cama
a minha cama
aquela onde revolvo
um sono acidentado?

Onde dormes de lado
ou vigias
o modo alheio que a madrugada
abre

Será tua a proposta
deste encontro
ou será meu este amor
que arde?

Uma flor de fogo
que incendeia
a nossa cama antes do fim
da tarde

Se é tua a dúvida
e minha esta certeza
daquilo que despimos
e na cama tarda?

O vestido descendo pelas ancas
sendo
da sede o que segura
e na seda aguarda

Será tua a vitória
e minha esta derrota
de não poder segurar-te
a vida inteira?

Por mais que queira
a eternidade guarda
o tempo que por ela
já se esgueira


MARIA TERESA HORTA


Foto de Nataly Ugolnikova

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

LEMBRANÇA





Flor tão pura da madrugada,
Tive-a nas mãos!
Deixei-a ir
No vendaval…

Eu ia cego
Na ínvia estrada,
Envolto em sombras
E pesadelos…
Eu ia pálido
E já vencido.
Ela passou
E pôs as mãos
Na minha alma,
E descerrou
Ao meu olhar
- Ó luz tão bela -
O sol da vida.

Grácil flor
Nasceu um dia
Na minha estrada.
Cingi-a ao peito:
E as minhas chagas
Ela beijou!

Foi um instante.

Deixei-a ir…

E fiquei só.


LUIS AMARO

Foto de Ricardo Labastier

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

SONETO DE DEVOÇÃO





Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez... _ mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

VINICIUS DE MORAES

Foto de Tani Shepitko

domingo, janeiro 29, 2012

DO DESENCONTRO






do desencontro

pela janela entreaberta
da infância
espio a vida
pelo lado de dentro
em busca dos sonhos
que não encontrei
nas noites que vivi
no lado de fora

ADEMIR ANTÓNIO BACCA

Foto da net

quarta-feira, janeiro 25, 2012

CONFIDÊNCIA





Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

MIA COUTO

Foto Luca Faz

sábado, janeiro 21, 2012

HORAS DE SAUDADE




Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho!

Por onde trilhas — um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...


CASTRO ALVES

Foto de Sergey Kurochkin

quinta-feira, janeiro 12, 2012

TENHO SAUDADES DO TEU CORPO




Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

ANTÓNIO PATRÍCIO

1878-1930

Escritor e diplomata português, natural do Porto. Frequentou a Escola Naval, acabando no entanto por se formar em Medicina, em 1908. Proclamada a República, foi cônsul na Corunha, em Cantão, Manaus, Bremen e outras cidades, vindo a falecer pouco depois de nomeado ministro de Portugal em Pequim.


Foto de Eduard Alt

sexta-feira, dezembro 02, 2011

DAS PAIXÕES - DAS VIAGENS





DAS PAIXÕES

a nudez do teu corpo
é idéia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
ressuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.





DAS VIAGENS

viajo
no teu corpo
caminhos
nunca imaginados

delírios
de náufrago à deriva
em noite de temporal.

viajo em ti
sonhos de uma ternura
nunca sentida.

Poemas de ADEMIR ANTONIO BACCA
(Poeta, Escritor, Jornalista, Brasileiro)


Fotos de Jean-François Bauret

quarta-feira, novembro 30, 2011

LONGE DE TI




Quando longe de ti eu vegeto,
Nessas horas de largos instantes,
O ponteiro, que passa os quadrantes,
Marca séculos, se esquece de andar.
Fito o céu — é uma nave sem lâmpada.
Fito a terra — é uma várzea sem flores.
O universo é um abismo de dores,
Se a madona não brilha no altar.


Então lembro os momentos passados.
Lembro então tuas frases queridas,
Como o infante que as pedras luzidas
Uma a uma desfia na mão.
Como a virgem que as jóias de noiva
Conta alegre a sorrir de alegria,
Conto os risos que deste-me um dia
E que eu guardo no meu coração.


Lembro ainda o lugar onde estavas...
Teu cabelo, teu rir, teu vestido...
De teu lábio o fulgor incendido...
Destas mãos a beleza ideal...
Lembro ainda em teus olhos, querida,
Este olhar de tão lânguido raios,
Este olhar que me mata em desmaios
Doce, terno, amoroso, fatal!...


Quando a estrela serena da noite
Vem banhar minha fronte saudosa,
Julgo ver nessa luz misteriosa,
Doce amiga, um carinho dos teus!
E ao silêncio da noite que anseia
De volúpia, de anelos, de vida.
Eu confio o teu nome, querida,
Para as brisas levarem-no aos céus.


De ti longe minh’alma vegeta,
Vive só de saudade e lembrança,
Respirando a suave esperança
De viver como escravo a teus pés,
De sonhar teus menores desejos,
De velar em teus sonhos dourados,
"Mais humilde que os servos curvados!
"Inda mais orgulhoso que os reis"!




Ó meu Deus! Manda às horas que fujam,
Que deslizem em fio os instantes...
E o ponteiro que passa os quadrantes
Marque a hora em que a posso fitar!
Como Tântalo à sede morria,
Sem achar o conforto preciso...
Morro à míngua, meu Deus, de um sorriso!
Tenho sede, Senhor, de um olhar.

CASTRO ALVES

"Vulgarmente melodramático na desgraça, simples e gracioso na ventura, o que constituía o genuíno clima poético de Castro Alves era o entusiasmo da mocidade apaixonada pelas grandes causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa, e acima de todas a campanha contra a escravidão."
Manuel Bandeira



Foto de Sergey Ryzhkov

quinta-feira, novembro 24, 2011

NO MEU CÉU AO CREPÚSCULO...





No meu céu ao crepúsculo tu és como uma nuvem
e a tua cor e forma são tal e qual as quero.
Tu és minha, tu és minha, mulher de lábios doces
e vivem na tua vida os meus infinitos sonhos.

A lâmpada da minha alma ruboriza-te os pés,
o acre vinho meu é mais doce em teus lábios,
ó segadora da minha canção ao entardecer,
como te sentem minha os meus sonhos solitários!

Tu és minha, tu és minha, vou gritando na brisa
da tarde, e o vento arrasta a minha voz viúva.
Caçadora do fundo dos meus olhos, o teu roubo
estanca como a água o teu olhar nocturno.

Na rede da minha música estás presa, meu amor,
e as minhas redes de música são largas como o céu.
Nasce-me a alma à beira dos teus olhos de luto.
Nos teus olhos de luto começa o país do sonho.


PABLO NERUDA

"Vinte Poemas de Amor" Parte IV

Foto de Ognyan Geshev

domingo, novembro 20, 2011

IMPETUOSO, O TEU CORPO É COMO UM RIO




Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

EUGÉNIO DE ANDRADE

Foto da net

quarta-feira, novembro 16, 2011

DEIXA-ME AMAR-TE





Deixa-me amar-te em meus silêncios,
Na calmaria do teu coração que me acolhe,
E de onde se desprendem meus sonhos,
Em voos etéreos de plena liberdade.

Deixa-me amar-te em minha solidão,
Ainda que meus labirintos te confundam,
E que teus fios generosos de compreensão
Emaranhem-se no tapete dos meus enigmas.

Deixa-me amar-te sem qualquer explicação
Na ternura das tuas mãos que me sorriem,
Escrevendo desejos em versos despidos
Na minha tez morena que te cobre e descobre.

Deixa-me amar-te em meus segredos,
Para que desvendes o que também desconheço,
A alma dos meus abismos onde anoiteço.
E meus olhos adormecem embalados pelo mistério.

Deixa-me amar-te em tuas demoras, longas horas.
Em que meu corpo se veste de céu à tua espera,
E minhas mãos em frenesi acendem estrelas
Para alumiar-te, ainda que ausente estejas…

FERNANDA GUIMARÃES

Imagem de Jacob Collins

sexta-feira, novembro 11, 2011

JURO






Por tua culpa, Mulata,
Meu coração
Anda à toa
Sem saber onde se acoite.
Perdeu-se na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.

Por tua culpa, só tua culpa,
Pois sei que foi causa disso
O feitiço
Do teu corpo.

Mas... Deus é grande
E... talvez
Ainda voltes outra vez
A abrasar-te em desejos,
Quianda dos meus amores.

Nesse dia
Hei-de cobrir o teu corpo
Com um vestido de beijos
E um manto de carícias.
Hei-de esmagar contra a minha
A tua boca vermelha.

Será nesse dia, então
Que terei onde me acoite,
Mesmo na escuridão
Dos teus olhos cor da noite.


AIRES DE ALMEIDA SANTOS(Angola)

Pintura de Nide Bacellar

quinta-feira, novembro 03, 2011

QUANDO ESTIVERES TRISTE






Quando estiveres triste,
Amor,
e não souberes porquê ...


E o mundo inteiro
à tua volta pareça desabar ...


Quando
te apetecer gritar ...


Quando
inexplicavelmente só
te sintas
em meio à multidão


e, perdida,
não saibas que fazer ...


Quando
te sentires vazia
como um balão furado,
amarfanhada
como um vestido
de baile
após o Carnaval ...


Quando
estiveres confusa,
indecisa,
angustiada,
como, sem mo dizeres,
eu sei que estás, por vezes...

Então, Amor
basta que venhas
junto a mim
e no meu peito
confiadamente
repouses tua fronte.
para eu conhecer toda a tristeza
que os teus olhos mudos
me dirão.


Não te farei perguntas
nem direi
as palavras idiotas
que, longe de ajudar,
só ferem, nessa altura.


Apenas te prenderei
pela cintura
e em silêncio,
longamente,
afagarei os teus cabelos,


até que a angústia
de todo te abandone
e não te sintas só,


porque eu estou contigo
sempre,
meu Amor.



ANTÓNIO MELENAS


Foto de Sergey Ryzhkov

quarta-feira, outubro 26, 2011

PRIMEIRO DIA DE OUTONO





Primeiro dia de Outono.
Primeira névoa de mágoa
Nos meus olhos rasos, mudos
De tristeza e de abandono
Onde o sonho é nostalgia...

O sol enfraqueceu - está doente;
E a paisagem parece adormecida
Na sua diluída rebeldia.

Um desalento vago, uma incerteza
Cinge o teu gesto sóbrio de quem busca
Uma nova ilusão para vencer...
A natureza mostra o derradeiro
Sorriso nos jardins... Tudo esmorece
Na graça deste lindo anoitecer!

Não ponhas essa dúvida na fronte,
Não entristeças, ri - foge ao compasso
Das longas atitudes lentas;
Reforça mais o teu riso
E pensa que na vida quem é forte
Retarda as intenções mortais da própria morte.

Outono! A sombra é a luz
Em prece de saudade!
Abre a janela e vê
se o mundo não disfarça
Os seus motins de sangue
neste silêncio d'oiro
Que vem do infinito...

Não falas? E porquê?

Tudo isto que eu te digo
E o mais que no meu peito me fica por dizer,
Amor, pode ser triste,
Mas olha que é verdade
E tem razão de ser!

ANTÓNIO BOTTO

quinta-feira, outubro 20, 2011

NEL MEZZO DEL CAMIN ...




Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

OLAVO BILAC

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 — Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918) foi um jornalista e poeta brasileiro, membro fundador da Academia Brasileira de Letras.


Foto de Maksim Serdyukov

quarta-feira, outubro 19, 2011

AQUELES QUE ME TÊM MUITO AMOR




Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

FLORBELA ESPANCA

Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo).

1894/1930

Foto de Annemarie Heinrich

domingo, outubro 16, 2011

JEITO DE AMAR







O meu amor por ti é feito de renúncia
pois teu olhar já não poisa em mim.
Todo o carinho tem na boca uma pronúncia
para que tu difiras meu afecto assim

Eras a minha esperança e fé,
tudo o que sempre quis,
mas olhas-me como és, em amnésia,
alheio a mim e ao meu sorriso feliz.

Teus lábios não tocam a minha carne
nem a dançar rocei em ti meu corpo veemente;
de ti, apenas um parco olhar vago,
de dedos mornos sobre a minha mão quente.

Meu coração entrega-se em delírio
a um amor que a terra pisa
porém esta paixão é um martírio
que friamente medes e analisas.

Eis o conflito que a razão sublima
com meu desejo dou também a minha alma
se aos poucos ficas com tudo o que tinha
o que fará com que meu coração se acalme?

Que se fine a vida que eu procuro em vão
num voo leve, azul da cor do mar,
se um dia eu perder este jeito de te amar.

OTILIA MARTEL

(Menina Marota – Um Desnudar de Alma)

Foto de Sergey Ryzhkov

quarta-feira, setembro 28, 2011

ESTA NOITE ...






Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar


ANTÓNIO SEM


Foto de Martin Zurmuehle

sábado, setembro 10, 2011

NOITE DE VIAGEM





Amei a tua inquietação; e disseste-me que
te amei sem saber porquê, que as marés anunciavam
o luar que não chegou, que não foi preciso
olhar o fundo transparente das palavras
para que a sua verdade nos tocasse, que a tua mão
colheu o fruto da primeira árvore sem que nada
o impedisse.

Amei-te sem ter a certeza da manhã, sem ouvir
o vento que fez bater as janelas num eco do passado,
sem correr as cortinas do mundo para que
ninguém nos visse, sem apagar do teu rosto
o brilho da vida, enquanto as aves dormiam,
e o licor do sonho se derramava sobre os corpos
que cortavam a noite.

Mas ao seguir o seu rumo, o azul
floresceu das cinzas, a música despontou
dos silêncios da madrugada, e os teus olhos
amanheceram quando me disseste que
te amei, sem saber porquê.

NUNO JÚDICE


Foto de Sergey Ryzhkov

quinta-feira, setembro 08, 2011

UMA BRISA...




"Uma brisa ergue-se no interior da terra e chega a mim, à consciência de mim: o meu rosto, os meus lábios, o meu corpo tocado por essa brisa. Caminho por entre essa brisa a passar por mim, como se atravessasse uma multidão invisível. A brisa, ao tocar os meus olhos, transforma-se em lágrimas que descem frias pelo meu rosto. Os meus lábios. Sinto-as e sinto a memória das vezes que chorei o desespero parado, mais triste, de lágrimas que descem lentamente pelo rosto. O tempo passa por mim como qualquer coisa que passa por mim sem que a consiga imaginar e as lágrimas, que eram apenas a brisa a tocar os meus olhos, começam a ser lágrimas de desespero verdadeiro. Paro no passeio. O mundo pára. E lembro-me de ti como uma faca, uma faca profunda, a lâmina infinita de uma faca espetada infinitamente em mim."

JOSÉ LUIS PEIXOTO; excerto de "Lunar"


Foto de Piotr Kowalik

sábado, setembro 03, 2011

QUANDO EU MORRER...





Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro

do que tu - não deixes fechar-me os olhos,

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.


E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se então tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo.


Eu, Marco Pólo,


farei a nebulosa travessia,

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca



nele o mar inteiro, o porto, a ria...

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.







Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.



Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco

sem remos e sem velas, pelo charco

azul, do céu, cansado de lá estar.



E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora



assim, mente. E se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino!




(Alvaro Feijó)



Álvaro de Castro e Sousa Correia Feijó (1916-1941)

Poeta, nascido a 5 de Julho de 1916, em Viana do Castelo, morreu, a 9 de Março de 1941, quando ainda não completara os vinte e cinco anos de idade. A sua obra poética, imbuída de um erotismo juvenil e de simbologias viradas para antigas vivências assume características revolucionárias, tendo sido publicada em revistas como: Sol Nascente, O Diabo, Altitude e Seara Nova e, postumamente, no Novo Cancioneiro.

Foto de Sonja Hunecken

segunda-feira, agosto 29, 2011

COMO SE AMA....




Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas


GONÇALVES DIAS




Gonçalves Dias (Caxias MA 1823 - Baixo dos Atins MA 1864) estudou Direito em Coimbra, Portugal, entre 1840 e 1844; lá ocorreu sua estréia literária, em 1841, com poema dedicado à coroação do Imperador D. Pedro II no Brasil. Em 1843, escreveria o famoso poema Canção do Exílio. De volta ao Brasil, foi nomeado Professor de Latim e secretário do Liceu de Niterói, e iniciou atividades no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Nos anos seguintes, aliou a intensa produção literária com o trabalho como colaborador de vários periódicos, professor do Colégio Pedro II e pesquisador do IHGB, que o levou a fazer várias viagens pelo interior do Brasil e para a Europa. Em 1846, a publicação de Primeiros Cantos o consagraria como poeta; pouco depois publicaria Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848) e Últimos Cantos (1851). Suas Poesias Completas seriam publicadas em 1944. Considerado o principal poeta da primeira geração do Romantismo brasileiro, Gonçalves Dias ajudou a formar, com José de Alencar, uma literatura de feição nacional, principalmente com seus poemas de temática indigenista e patriótica.



Foto de Eric Kellerman Photography


segunda-feira, agosto 22, 2011

SÓ TU FALTASTE...





Só tu faltaste

Inesperada e mansa
a chuva começou a descer
sobre a cidade.
E a cidade ficou deserta, num instante.

E então,
eu que tinha um encontro marcado
com a chuva
com a cidade
e contigo,
corri a esse encontro
em que a cidade me esperava
e a chuva não faltou.

E eu a recebi no rosto
como uma bênção. E a cidade
ganhou magia, pronta
para ti.

Mas TU faltaste ....
E a magia se foi.

E tarde
Se pôs triste, feia,
escura, molhada,
como são, sem ti,
as tardes de chuva.

Como, sem ti,
São, afinal, as tardes
e as manhãs
E as noites

De todos os dias


António Melenas


Foto de António Carreteiro - Olhares

domingo, agosto 21, 2011

O ENAMORADO DA VIDA





Eu sou um enamorado da Vida!
Para sentir melhor o céu na minha casa,
Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.
Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,
A lua desce a mim numa carícia estranha.
Bebo as estrelas de mais perto... Abraço
Todo o corpo do céu num simples movimento.
E, quando chove, sinto a torrente das chuvas
Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,
Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

Eu sou um enamorado da Vida!
Amo-a por tudo quanto ela me pode dar:
A água fresca da fonte, a carícia da sombra,
E até a calma silenciosa e mansa
Desse crepúsculo que baixa devagar.
Em cada mão de folha a minha boca bebe
O orvalho da manhã como um suave licor.
E abro os pulmões, sorvendo em tudo o que me envolve
Essa onda de volúpia e de êxtase e perfume
Que vem do amor e que me leva para o amor

Eu sou um enamorado da Vida!
Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer
Colinas, penetrar o coração dos vales,
Relinchando feliz como um potro selvagem
Que solta as crinas no ar para melhor correr;
Ou retesar as asas brancas de gaivota
E atirar-me na fúria incrível das procelas;
Beber em haustos toda a glória do mar alto,
Rolar no bojo dos batéis desarvorados
Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas

Vida! Quero viver todas as tuas horas,
As que prendi na mão e as que nunca alcancei.
Ser um pouco de ti no espelho das paisagens
Para, quando morrer, levar dentro dos olhos
A beleza imortal de tudo quanto amei.

OLEGÁRIO MARIANO

(Olegário Mariano Carneiro da Cunha (Recife, 24 de março de 1889 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1958) foi um poeta, político e diplomata brasileiro.)

Foto de Igor Melekestsev


segunda-feira, agosto 15, 2011

BASTAVA-NOS AMAR. E NÃO BASTAVA.







Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.


JOAQUIM PESSOA


Foto de Berenice Kauffman

quarta-feira, agosto 10, 2011

NOCTURNO





Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!"

ANTERO DO QUENTAL

terça-feira, julho 26, 2011

ESVELTA SURGE !





Esvelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexíveis e o seio fremente...
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! — para o expor à Morte...
Mas que ora — a infame! — não se te anteponha.

A hidra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,
Com os cabelos escorrendo água,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.

CAMILO PESSANHA (1867 - 1926)

(John William Waterhouse)

terça-feira, julho 12, 2011

ROSAS VERMELHAS







Gemem as pombas cor de linho uma saudade infinda, dentro da noite.

No céu distante e curvo, choram as estrelas o pranto da
madrugada, e a lua, cor de neve, canta em surdina no leque das palmeiras...

— Por que partiste?

Vem, doce amiga, vem coroar-te de rosas, rosas vermelhas, purpurinas,
rosas cor de carne de coração

Vem, que minha tenda enflora-te a vida com rosas de Shiraz,
trazidas, só para ti, de longe, muito longe...

Vês?

Dormem na distância, sob a luz verde dos astros, os rebanhos de EI Rei...

Esta é a hora em que os pastores descobrem as morenas perfumadas...

- Vem!

Sentiremos, febris, na púrpura dos lábios, a maciez das rosas
e o perfume da noite...
Empunha tua taça de ametista e ouro
e desfolha as pétalas de tua flor,
docemente,
num êxtase sublime...

Virgem morena de Ofir,
há perfumes e licores
e um leito de rosas
para teu corpo de tâmara dourada...
Vem abrir a Fonte do Sonho
de águas cristalinas
ao beduino que morre de amor,
sozinho,
nos caminhos apagados do deserto,
onde só medram cardos e espinhos.


M. DE MONTE MAGGIORE



Fotos da net







sexta-feira, julho 08, 2011

SONETO DE DESPEDIDA





Uma lua no céu apareceu
Cheia e branca; foi quando, emocionada
A mulher a meu lado estremeceu
E se entregou sem que eu dissesse nada.


Larguei-as pela jovem madrugada
Ambas cheias e brancas e sem véu
Perdida uma, a outra abandonada
Uma nua na terra, outra no céu.


Mas não partira delas; a mais louca
Apaixonou-me o pensamento; dei-o
Feliz - eu de amor pouco e vida pouca


Mas que tinha deixado em meu enleio
Um sorriso de carne em sua boca
Uma gota de leite no seu seio.

VINICIUS DE MORAES

terça-feira, junho 28, 2011

CAIS DO TEMPO






É de tempo o cais
onde te espero
há quanto tempo?
Não sei!
há tantas vidas
que ficaram por aí
esmaecidas
esperanças que aninhei
dores que não quero...
é de tempo o cais
onde te aguardo
de tempo
duma espera sem final
dum tempo silente, sepulcral
sem laivos de anil
ou sol
um tempo pardo...
mas se acaso um dia
amor ausente
acostares a este cais
onde te espero
ó manhã de luz
resplandescente
será de transcendência
o que te quero!...


MARIA MAMEDE

(in No Cais do Tempo)



Foto de George Mashkovtse

sexta-feira, junho 24, 2011

EU NÃO VOLTAREI







Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária.
Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma.

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas.

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens.

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.


JUAN RAMÓN JIMÉNEZ (1881 – 1958)
(Prémio Nobel da Literatura 1965)


Foto de Svetlana Melik-Nubarova

terça-feira, junho 21, 2011

O JARDIM E A NOITE





Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
Calaram-se os meus sonhos perdidos.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entre a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.

Sophia de Mello Breyner Andresen, “Cem poemas de Sophia”

Foto de Balkhovitin Dmitrij

quinta-feira, junho 16, 2011

PERGUNTA-ME







Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta -me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


MIA COUTO

Raiz de Orvalho e outros poemas
Editorial Caminho, lisboa, 1999


Foto de AVDEEV IGOR

domingo, maio 29, 2011

A ESMOLA DE DULCE






E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
- Senhora dai-me u’a esmola – e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,
Estendendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos lábios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.


AUGUSTO DOS ANJOS


Imagem: Pygmalion, 1781 by Louis Lagrenee


O INCÊNDIO

O Incêndio - "Ao convento! ao convento!" - Uiva de longe o vento. É noite. E a multidão, descalça, esfome...