quinta-feira, abril 20, 2017
AO CREPÚSCULO
AO CREPÚSCULO
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Não...
Depois de te amar eu não posso amar mais ninguém.
De que me importa se as ruas estão cheias de homens esbanjando beleza e promessas ao alcance das mãos;
Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão.
Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo.
Quantas vezes sem motivo nenhum, ouvi teu riso, rindo feliz, como um guizo em tua boca.
E a todo momento, mesmo sem te beijar, eu estava te beijando...
Com as mãos, com os olhos, com o pensamento, numa ansiedade louca.
Nossos olhos, ah meu deus, os nossos olhos...
Eram os meus nos teus e os teus nos meus como olhos que dizem adeus.
Não era adeus no entanto, o que estava vivendo nos meus olhos e nos teus,
Era extase, ternura, infinito langor.
Era uma estranha, uma esquisita mistura de ternura com ternura, em um mesmo olhar de amor.
Ainda ontem, cada instante uma nova espera,
Deslumbramento, alegria exuberante e sem limite.
E de repente... de repente eu me sinto como um velho muro.
Cheio de eras, embora a luz do sol num delírio palpite.
Não, depois de te amar assim,
Como um deus, como um louco,
nada me bastará e se tudo tão pouco,
Eu deveria morrer.
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PABLO NERUDA
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Foto de Giada Lysa
terça-feira, abril 11, 2017
AGORA ERAS MINHA

O dia estava quente
Quente estavam nossos corpos
Há tanto que aguardávamos aquele momento
Memórias doutros tempos
Que nos preenchiam e excitavam
A meus braços vieste de repente
Nossos lábios se juntaram
Suspiravas colada a mim
Arfava sentindo o teu seio fremente
Nossas mãos dançavam deslizando por altos e baixos
Nesse corpo que recordo a todo o momento
Olhos nos olhos eram desnecessárias palavras
Toda entregue nada te desviava a atenção
Eras feliz naquele momento
Vivias o momento da tua vida
Realizavas o sonho de então
Finalmente possuias quem te amava
Finalmente te possuia por inteiro
Um sorriso, um olhar mais profundo
Um ajeitar de corpos e de novo
Um suspiro, um abraço, um sentir diferente
De tudo que fora até ali
Porque o sonho se materializara
Porque enfim me guardavas dentro de ti
Porque, sim, agora eras minha.
11/04/2010
L.M.
Foto de Eugene Buzuk
segunda-feira, abril 10, 2017
FOI ALI ...
Gostavas de estar ali,
À vontade, liberta , fresca.
Resguardada nas rochas
De olhares indiscretos
Só aos meus permitias que
Desvendassem segredos
Ocultos nesse corpo de deusa.
A meiguice dos teus gestos
O pormenor do teu andar
A elegância do teu corpo
Tudo eu seguia com devoção.
Foi ali, naquela praia isolada
Que numa entrega total
Soubemos o que era amar.
L.M.
13ABR2010
Óleo de William-Adolphe Bouguereau, (1825-1905) pintor acadêmico francês,
segunda-feira, abril 03, 2017
AMOR E MEDO
AMOR E MEDO
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Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
-”Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!”
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Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
-”Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!”
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Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco…
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo…
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco…
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo…
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Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
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O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremeço de cruéis receios.
O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremeço de cruéis receios.
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É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
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Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: – que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: – que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
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A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
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Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…
Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…
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Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!…
Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!…
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Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…
Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…
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Diz: – que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca – sobre um chão de brasas!
Diz: – que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca – sobre um chão de brasas!
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No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
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Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
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Depois… desperta no febril delírio,
- Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?…
Eu te diria: desfolhou-a o vento!…
Depois… desperta no febril delírio,
- Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?…
Eu te diria: desfolhou-a o vento!…
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Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!…
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CASIMIRO DE ABREU
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Foto de Cat Free
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Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!…
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CASIMIRO DE ABREU
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Foto de Cat Free
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domingo, abril 02, 2017
OUVE, TU QUE NÃO ESTÁS NO CÉU
(Prelúdio, em forma de grito, para
um livro de confissões pessoais que
nunca escreverei.)
um livro de confissões pessoais que
nunca escreverei.)
Ouve, tu que não estás no céu:
Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos
- menos eu!
abismos de ternura
onde cabem todos
- menos eu!
Estou farto de palavras de perdão
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal!
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal!
Estou farto desta dor inútil
de chorar por mim nos outros!
de chorar por mim nos outros!
- Eu que nem sequer tenho a coragem de escrever
os versos que me fazem doer!
os versos que me fazem doer!
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José Gomes Ferreira
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foto da net
quinta-feira, março 23, 2017
A PRIMEIRA VEZ ...
Aceitaste o convite.
Encontrámo-nos.
Alguns passos dados
Demos as mãos.
Estremecemos ...
Tu coraste, eu corei.
Olhos nos olhos prosseguimos
As palavras não surgiam ...
Era a primeira vez...
L.M. /06
quinta-feira, março 16, 2017
MARIETA
Marieta
de Castro Alves
Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos… bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.
O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão… cresce, flutua…
Sonha a moça ao relento… Além na rua
preludia um violão na serenata.
Furtivos passos morrem no lajedo…
Resvala a escada do balcão discreta…
Matam lábios os beijos em segredo…
Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! Oh! Palor! Oh! Pranto! Oh! Medo!
Ai! Noites de Romeu e Julieta!…
Castro Alves
foto de Corwin von Kuhwede
quarta-feira, março 08, 2017
O ALBUM
Abri o álbum
Das recordações
Folheei-o
Arrepiado
Percorri as folhas
Olhando os rostos amarelecidos
Revi dias felizes
Sentindo saudades
Balbuceei palavras
Sem sentido
Fiz perguntas
A que ninguém respondeu
Passeei por lugares
Que já não existem
Dei o braço a quem
Já não precisa do meu apoio
Difícil continuar
A virar as folhas
Confundia as imagens
Os tempos, as pessoas
Cerrei os olhos
Fechei o álbum
L.M.
domingo, março 05, 2017
TANTO TEMPO PASSOU ...
Tanto tempo passou ...
foi ontem, há pouco,
na semana passada
ou noutro ano
não sei porque para mim é sempre hoje,
na dúvida, talvez ontem...
Passei por lá
olhando aquelas paredes
entrei
vi aquele quarto
e logo ali te vislumbrei
no olhar que não engana
imagens a galope
trouxeram momentos
que julgava não ter vivido
teriam sido sonhos?
realidades ?
talvez...
A menina que foste
ali estava igualzinha
O tempo
tanto tempo passou
mas tu eras a mesma
para me fazer feliz
LM 04/03/2017
Foto de Mauro Nervi
Área de anexos
quinta-feira, março 02, 2017
NO VERÃO PASSADO ...
Corria pela areia escaldante
Saltitando como pequena ave,
Elegante, sensual e amante
Atraíndo logo um olhar suave.
Atrás e mais sóbrio no andamento,
Seguia ele, sorrisos, esgares.
Já perto um do outro lentamente
Trocaram longos cúmplices olhares.
As palavras foram curtas e poucas.
Chegaram p’ra serem apresentados.
Bem depressa s’encontraram as bocas
Trocando beijos quentes, demorados.
Momentos de luxúria e de prazer
Vividos entre os dois corpos suados
Alheios a olhos que q’riam ver,
Rolavam, loucos, na areia, molhados.
Finalmente chegou a despedida
Presos um no outro e enlaçados
Sonharam a beleza desta vida
Vida dos amantes enamorados.
Espreguiçando-se, qual sereia,
Olhos atravessando o horizonte
Ela riu estendida na areia
Sentindo o sol a bafejar-lhe a fronte.
LM – 27FEV2010
Foto de Pascal Renoux
terça-feira, fevereiro 21, 2017
QUANDO ESTIVERES TRISTE
Quando estiveres triste,
Amor,
e não souberes porquê ...
.
E o mundo inteiro
à tua volta pareça desabar ...
.
Quando
te apetecer gritar ...
.
Quando
inexplicavelmente só
te sintas
em meio à multidão
e, perdida,
não saibas que fazer ...
.
Quando
te sentires vazia
como um balão furado,
amarfanhada
como um vestido
de baile
após o Carnaval ...
.
Quando
estiveres confusa,
indecisa,
angustiada,
como, sem mo dizeres,
eu sei que estás, por vezes...
.
Então, Amor
basta que venhas
junto a mim
e no meu peito
confiadamente
repouses tua fronte.
para eu conhecer toda a tristeza
que os teus olhos mudos
me dirão.
.
Não te farei perguntas
nem direi
as palavras idiotas
que, longe de ajudar,
só ferem, nessa altura.
.
Apenas te prenderei
pela cintura
e em silêncio,
longamente,
afagarei os teus cabelos,
.
até que a angústia
de todo te abandone
e não te sintas só,
.
porque eu estou contigo
sempre,
meu Amor.
.
ANTÓNIO MELENAS
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Foto de Sergey Ryzhkov
HOUVE UMA ILHA EM TI
HOUVE UMA ILHA EM TI
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Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha, Coração.
.
Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei não.
.
Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.
.
A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber, do coração do mar.
.
JOAQUIM PESSOA
.
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Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha, Coração.
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Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei não.
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Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.
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A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber, do coração do mar.
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JOAQUIM PESSOA
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Pintura de William Adolphe Bouguereau
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segunda-feira, fevereiro 20, 2017
PELO SONHO É QUE VAMOS
“PELO SONHO É QUE VAMOS"
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Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
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Sebastião da Gama.
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Foto de Anikin Sergey.
domingo, fevereiro 19, 2017
RECORDANDO
As mãos acariciam o corpo
Como numa tarde já longínqua
Os lábios tocam-se frementes
Como da primeira vez …
Encostas-te sedutora
Com teus olhos atraentes
Teus seios quentes e macios
Trazem consigo o desejo
Um abraço solta os beijos
As bocas se confundem
Os corpos se atraem
Em maravilhoso arrebatamento
Momentos de êxtase aqueles
Que gozo nos deu
Ter-te toda para mim
Ser teu para sempre
LM – 15/02/2010
Foto de Pascal Renoux
Como numa tarde já longínqua
Os lábios tocam-se frementes
Como da primeira vez …
Encostas-te sedutora
Com teus olhos atraentes
Teus seios quentes e macios
Trazem consigo o desejo
Um abraço solta os beijos
As bocas se confundem
Os corpos se atraem
Em maravilhoso arrebatamento
Momentos de êxtase aqueles
Que gozo nos deu
Ter-te toda para mim
Ser teu para sempre
LM – 15/02/2010
Foto de Pascal Renoux
sábado, fevereiro 11, 2017
DESPERTA
Desperta
desperta-me
de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
é rede a tua língua
em sua teia
é vicio as palavras
com que falas
a trégua
a entrega
o disfarce
e lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales.
desperta-me
de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
é rede a tua língua
em sua teia
é vicio as palavras
com que falas
a trégua
a entrega
o disfarce
e lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes
desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vai descobrindo vales.
MARIA TERESA HORTA
Foto de Pascal Renoux
Foto de Pascal Renoux
domingo, janeiro 15, 2017
NAVIO NEGREIRO
'Stamos em pleno mar
Era um sonho dantesco... o tombadilho,
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
.
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.
.
E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa dos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia
E chora e dança ali!
.
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
.
No entanto o capitão manda a manobra
E após, fitando o céu que se desdobra
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."
.
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais!
Qual num sonho dantesco as sombras voam...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanaz!...
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
.
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?... Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!
.
São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
.
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...
.
São mulheres desgraçadas
Como Agar o foi também,
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos
Filhos e algemas nos braços,
N'alma lágrimas e fel.
Como Agar sofrendo tanto
Que nem o leite do pranto
Têm que dar para Ismael...
.
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma das noites nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...
.
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro... ou se é verdade
.
Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
.
E existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto
Que o pavilhão se lave no seu pranto...
.
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra,
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
.
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!...
...Mas é infâmia demais...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!
.
CASTRO ALVES
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Poeta, estudante de Direito
Nasceu:14/03/1847 - na fazenda Cabaceiras, vila de Nossa Senhora da Conceição de Curralinho, hoje Castro Alves, Bahia
Mov. Literário: Romantismo
Faleceu: 06/07/1871 - Salvador -
.
Pintura de Joseph Mallord Willian Turner
terça-feira, janeiro 10, 2017
A TUA MÃO

A TUA MÃO
Beijo essa mão e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco,
bebendo desse cálice o puro vinho
que me liberta sem sair do cerco.
Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que meu desejo se rende;
e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.
Nuno Júdice (O Estado dos Campos)
Foto de A. Obolenski
segunda-feira, dezembro 19, 2016
SE FOSSES ...
Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
– Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!
António Botto
Foto de Aleksandr Krivickij
domingo, dezembro 04, 2016
Cantiga para não morrer de Ferreira Gullar
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
.
Ferreira Gullar
moça branca como a neve,
me leve.
.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
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Ferreira Gullar
Morreu o poeta Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010
Morreu o poeta Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010
Gullar foi poeta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, escritor de memórias e tradutor. Morreu, este domingo, no Rio de Janeiro, aos 86 anos, de pneumonia.
O motivo da morte do poeta brasileiro foi confirmado ao diário Folha de São Paulo, por Maria Amélia Mello, amiga e editora de algumas das obras do autor.
Eleito para um dos lugares de "imortal" da Academia Brasileira das Letras em 2014, o brasileiro, natural de São Luís do Maranhão, conquistou vários prémios, tendo inclusive sido indicado, em 2002, por nove professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal para o Prémio Nobel de Literatura.
De acordo com o 'site' da Academia Brasileira das Letras, o autor descobriu a poesia moderna aos 19 anos, ao ler obras de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, tendo ficado escandalizado com esse tipo de poesia.
Contudo, pouco depois, aderiu a essa poesia moderna e tornou-se num poeta experimental radical.
Participou no surgimento da poesia concreta, mas anos mais tarde, em dissidência, ajudou a criar o neoconcretismo, que valoriza a expressão e a subjetividade em oposição ao concretismo ortodoxo.
Em 1962, afastou-se da vanguarda e ingressou na luta política revolucionária, fazendo parte do partido comunista, escrevendo poemas políticos e participando na luta contra a ditadura militar, implantada no país em 1964.
Ferreira Gullar deixou clandestinamente o país, tendo vivido em Moscovo (Rússia), Santiago do Chile (Chile), Lima (Peru) e Buenos Aires (Argentina) e voltado para o Brasil em 1977.
Segundo a Academia Brasileira das Letras, durante o exílio em Buenos Aires, o autor escreveu "Poema sujo", um longo poema de quase 100 páginas que é considerado a sua obra-prima e que foi traduzido e publicado em várias línguas.
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foto de Jean Jacques André Saudade é querer viver o já vivido, Querer amar e ter amado já… Sentindo o coração anoitecido, Querer beijar a lu...
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Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta Este meu vão sofrer; esta agonia, Como sobe cantando a cotovia, Para o céu a mi...
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Debaixo do lenço azul com sua barra amarela os lindos olhos que tem! Mas o rosto macerado de andar na ceifa e na monda desde manhã a...

















