domingo, julho 02, 2017

UNS LINDOS OLHOS, VIVOS, BEM RASGADOS




UNS LINDOS OLHOS, VIVOS, BEM RASGADOS
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Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados,
um garbo senhoril, nevada alvura;
metal de voz que enleva de doçura,
dentes de aljôfar, em rubi cravados;
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fios de ouro, que enredam meus cuidados,
alvo peito, que cega de candura;
mil prendas e (o que é mais que formosura)
uma graça que rouba mil agrados;
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mil extremos de preço mais subido
encerra a linda Márcia, a quem of’reço
um culto que nem dela ‘inda é sabido;
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tão pouco de mim julgo que a mereço,
que enojá-la não quero de atrevido
co’as penas que por ela em vão padeço.
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FILINTO ELYSIO
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Filinto Elysio era o nome arcádico por que ficou conhecido o P.e Francisco Manuel do Nascimento, nascido em Lisboa a 23 de Dezembro de 1734 e falecido em Paris a 25 de Fevereiro de 1819. Teve de se exilar para fugir à Inquisição, devido às suas ideias liberais e iluministas. Esteve quatro anos em Haia (Holanda), antes de se fixar em Paris. Se, em Lisboa, fora professor da Marquesa de Alorna (Alcipe), na capital francesa travou conhecimento com o grande poeta romântico Lamartine. Levou uma vida difícil como tradutor, mas poetou infatigavelmente.
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Foro de Novikov
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sábado, junho 24, 2017

O TEU RETRATO



O TEU RETRATO
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Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.
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Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!
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Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!
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Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!
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ANTÓNIO NOBRE (1867-1900)
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Foto de Aleksandr Krivickij
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quinta-feira, junho 22, 2017

UM CAMPO BATIDO PELA BRISA

A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho “um pensamento despido”;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.


Fernando Assis Pacheco


Foto de Denis Bogomolov

sábado, junho 03, 2017

A UMA MULHER DO MEU PAÍS



A UMA MULHER DO MEU PAÍS
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Abre as asas, tu que não desistes
de encontrar as asas nos teus braços
e com eles descobrires novos espaços.

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Abre as asas, tu que não desistes
de rasgar, no tempo, o calendário
que preenche, em cada dia, o teu diário.

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Abre as asas, tu que não desistes
de mostrar que és viva, e continuas
percorrendo, serena, as mesmas ruas.

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Abre as asas, tu que não desistes
de mudar a face da cidade
em ímpetos de arrojo e de vontade.

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Abre as asas, tu que não desistes
de enfrentar o sol que te encandeia
e quebra a tua última cadeia.
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Abre as asas, amor, e segue em frente,
voa sempre, voa sempre, sem cansaço,
e ensina a voar toda esta gente
que continua especada olhando o espaço.
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FERNANDO PEIXOTO
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Pintura de Rob Efferan

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domingo, maio 21, 2017

RAZÕES DE AMOR



Razões de amor...

I

Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...

Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...

Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...

Gosto de tua voz, tranquila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...

Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...

Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...

II

Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
(J.G. de Araújo Jorge)

Foto de Sergey Ryzhkov
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quarta-feira, maio 10, 2017

DIA E NOITE ...


Foto de Luis Milhano.


Dia
E noite
Corri pela cidade
Percorri ruas e avenidas
Becos, largos, vielas e jardins
Cambaleando, por fim sentei-me num banco
Pensativo, nervoso, indignado, pesaroso, arreliado, arrependido, teimoso
Recomecei a caminhada na tua direcção
Não queria perder-te outra vez
Corri mais esforço final
O nevoeiro cerrado
Escondeu-te bem
Perdi-te

L.M.

terça-feira, maio 09, 2017

A NEGRA



A NEGRA
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Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,
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Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.
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Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.
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No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.
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Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;
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Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.
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Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.
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Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.
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CAETANO DE COSTA ALEGRE
(26 de Abril de 1864 - 18 de Abril de 1890)
Poeta narural de S. Tomé e Príncipe.
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Negra, by Marie-Guillemine Benoist (1768-1826)
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sexta-feira, maio 05, 2017

"AMO-TE ! "




"Amo-te !" Cinco
letras pequeninas,
Um poema de amor e felicidade !
Não queres mandar-me esta palavra apenas ?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade ...

Florbela Espanca

quarta-feira, maio 03, 2017

O AMOR




O AMOR
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Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria...
Clara que sem descanso esculpirei.

E noite onde sem fim me afundarei.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Foto de Cat Free

domingo, abril 30, 2017

AMAR-TE É COMO ...



Amar-te é como ir pela manhã
A uma roseira em flor
e recolher
a mais pura, a mais fresca,
a mais louçã
das perfumadas rosas que tiver;
Ou como, a rir,
morder uma romã
Ou a sonhar colher um malmequer ...

É como caminhar por uma estrada
novinha ... ainda por inaugurar
E desenhar os pés descalços na geada,
de leve, para não a macular.
E é prosseguir assim a caminhada
sem destino ... nem pressa de chegar

...É, numa vinha, à hora do sol-pôr,
Espremer um cacho de uvas sazonado
E embriagar-me depois com o licor
delicioso do vinho derramado
A chiar no barro cheio de frescor
da taça esguia do teu corpo amado
ANTÓNIO MELENAS

Foto de Oleg Belevtsev


sexta-feira, abril 28, 2017

O tempo, subitamente solto ...


o tempo, 
subitamente solto 
pelas ruas e pelos dias, 
como a onda de uma tempestade 

a arrastar o mundo, 
mostra-me o quanto te amei 
antes de te conhecer. 
eram os teus olhos,

labirintos de água, 
terra, fogo, ar, 
que eu amava 

quando imaginava 
que amava. 
era a tua, a tua voz 
que dizia as palavras da vida. 
era o teu rosto. 
era a tua pele. 

antes de te conhecer, 
existias nas árvores 
e nos montes e nas nuvens 

que olhava ao fim da tarde. 
muito longe de mim, 

dentro de mim, 
eras tu a claridade. 
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José Luís Peixoto

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Foto de Vladimir Isaev
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quarta-feira, abril 26, 2017

DESEJO


Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então! 

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão; 

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução; 

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão; 

Se a fronte pura e serena
Brilhasse dinspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão; 

Se a voz fosse harmoniosa
Como dharpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção; 

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação; 

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!

Casimiro de Abreu


Foto de Alexander Motylev

sábado, abril 22, 2017

CANTIGA PARA NÃO MORRER


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Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 
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Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
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Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
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E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
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FERREIRA GULLAR
 .
Foto de Сергей 

quinta-feira, abril 20, 2017

AO CREPÚSCULO



AO CREPÚSCULO
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Não...
Depois de te amar eu não posso amar mais ninguém.
De que me importa se as ruas estão cheias de homens esbanjando beleza e promessas ao alcance das mãos;
Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão.
Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo.
Quantas vezes sem motivo nenhum, ouvi teu riso, rindo feliz, como um guizo em tua boca.
E a todo momento, mesmo sem te beijar, eu estava te beijando...
Com as mãos, com os olhos, com o pensamento, numa ansiedade louca.
Nossos olhos, ah meu deus, os nossos olhos...
Eram os meus nos teus e os teus nos meus como olhos que dizem adeus.
Não era adeus no entanto, o que estava vivendo nos meus olhos e nos teus,
Era extase, ternura, infinito langor.
Era uma estranha, uma esquisita mistura de ternura com ternura, em um mesmo olhar de amor.
Ainda ontem, cada instante uma nova espera,
Deslumbramento, alegria exuberante e sem limite.
E de repente... de repente eu me sinto como um velho muro.
Cheio de eras, embora a luz do sol num delírio palpite.
Não, depois de te amar assim,
Como um deus, como um louco,
nada me bastará e se tudo tão pouco,
Eu deveria morrer.
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PABLO NERUDA
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Foto de Giada Lysa 

terça-feira, abril 11, 2017

AGORA ERAS MINHA

Foto de Eugene Buzuk
O dia estava quente
Quente estavam nossos corpos
Há tanto que aguardávamos aquele momento
Memórias doutros tempos
Que nos preenchiam e excitavam
A meus braços vieste de repente
Nossos lábios se juntaram
Suspiravas colada a mim
Arfava sentindo o teu seio fremente
Nossas mãos dançavam deslizando por altos e baixos
Nesse corpo que recordo a todo o momento
Olhos nos olhos eram desnecessárias palavras
Toda entregue nada te desviava a atenção
Eras feliz naquele momento
Vivias o momento da tua vida
Realizavas o sonho de então
Finalmente possuias quem te amava
Finalmente te possuia por inteiro
Um sorriso, um olhar mais profundo
Um ajeitar de corpos e de novo
Um suspiro, um abraço, um sentir diferente
De tudo que fora até ali
Porque o sonho se materializara
Porque enfim me guardavas dentro de ti
Porque, sim, agora eras minha.



11/04/2010


L.M.


Foto de Eugene Buzuk

segunda-feira, abril 10, 2017

FOI ALI ...



Gostavas de estar ali,
À vontade, liberta , fresca.
Resguardada nas rochas
De olhares indiscretos
Só aos meus permitias que
Desvendassem segredos
Ocultos nesse corpo de deusa.
A meiguice dos teus gestos
O pormenor do teu andar
A elegância do teu corpo
Tudo eu seguia com devoção.
Foi ali, naquela praia isolada
Que numa entrega total
Soubemos o que era amar.

L.M.

13ABR2010


Óleo de William-Adolphe Bouguereau, (1825-1905) pintor acadêmico francês, 

segunda-feira, abril 03, 2017

AMOR E MEDO




AMOR E MEDO
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Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
-”Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!”
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Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco…
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo…
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Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
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O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremeço de cruéis receios.
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É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
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Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: – que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
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A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
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Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas!…
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Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!…
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Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho…
Vermelha a boca, soluçando um beijo!…
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Diz: – que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca – sobre um chão de brasas!
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No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!
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Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
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Depois… desperta no febril delírio,
- Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?…
Eu te diria: desfolhou-a o vento!…
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Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!…
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CASIMIRO DE ABREU
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Foto de Cat Free
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domingo, abril 02, 2017

OUVE, TU QUE NÃO ESTÁS NO CÉU


(Prelúdio, em forma de grito, para
um livro de confissões pessoais que
nunca escreverei.)
Ouve, tu que não estás no céu:
Estou farto de escavar nos olhos
abismos de ternura
onde cabem todos
- menos eu!
Estou farto de palavras de perdão
que me ferem a boca
dum frio de lágrimas quentes de punhal!
Estou farto desta dor inútil
de chorar por mim nos outros!
- Eu que nem sequer tenho a coragem de escrever
os versos que me fazem doer!
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José Gomes Ferreira
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foto da net

quinta-feira, março 23, 2017

A PRIMEIRA VEZ ...



Aceitaste o convite.
Encontrámo-nos.

Alguns passos dados
Demos as mãos.

Estremecemos ...
Tu coraste, eu corei.

Olhos nos olhos prosseguimos

As palavras não surgiam ...

Era a primeira vez...

L.M. /06

quinta-feira, março 16, 2017

MARIETA




Marieta
de Castro Alves



Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos… bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.


O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão… cresce, flutua…
Sonha a moça ao relento… Além na rua
preludia um violão na serenata.


Furtivos passos morrem no lajedo…
Resvala a escada do balcão discreta…
Matam lábios os beijos em segredo…


Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! Oh! Palor! Oh! Pranto! Oh! Medo!
Ai! Noites de Romeu e Julieta!…


Castro Alves


foto de Corwin von Kuhwede

EM TUAS ÁGUAS ...

EM TUAS ÁGUAS ... Em tuas águas navego Em ti resumo o périplo da minha volta ao mundo. Fora de ti, não há saída ou rumo...