domingo, julho 30, 2017
AO IDEAL
AO IDEAL
A quem como a ti amei eu, ó sombra amada !
Atraí-te a mim, pra dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra, e corpo tu.
Todavia, os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si;
pra eles és sempre o eterno "fora-de-mim".
Ah, estes olhos põem-me fora de mim !
De : F. Nietzsche
Friedrich Wilhelm Nietzsche - alemão- 15 Outubro 1844 -- 25 Agosto 1900 - foi um filósofo, crítico cultural, poeta, filólogo.
Foto de Ilya Rashap
sábado, julho 29, 2017
RETRATO
RETRATO
.
Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
.
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Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.
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NUNO JÚDICE
In Pedro Lembrando Inês, 2002
In Pedro Lembrando Inês, 2002
quinta-feira, julho 20, 2017
ENVELHECER
ENVELHECER
Boa noite, velhice, vens tão cedo!
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo…
Tens tão meigo sorriso e um ar tão ledo;
Nos teus cabelos como a prata é linda!
Ao meu teto, velhice, sê bem-vinda!
Fica à vontade. Não me fazes medo.
E ela assim me falou, em tom amigo:
- Estranha me supões, mas, em verdade,
Há muito tempo que, ao teu lado, eu sigo.
Mas, da vida na estúrdia alacridade,
Não me viste viver, seguir contigo…
Eu sou, amigo, a tua mocidade.
Bastos Tigre
Poeta Brasileiro
1882/1957
Foto de Khanina
segunda-feira, julho 17, 2017
Nomeei-te no meio dos meus sonhos ...
Nomeei-te no meio dos meus sonhos
Chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor
Ruy Belo
1933-1978
Foto de Kapitan Nemo
domingo, julho 16, 2017
CATILINA
Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.
.
De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.
.
Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.
.
E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.
.
Sofia de Mello Breyner
.
Foto de Reda Danaf
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.
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De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu – coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.
.
Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.
.
E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pr’além do nó de angústia mais convulso.
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Sofia de Mello Breyner
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Foto de Reda Danaf
sexta-feira, julho 14, 2017
SÚPLICA
Súplica
A provar que hei perdido a segurança
Desde, Senhora, que cheguei a ver-vos,
Ao juízo recusam-se-me os nervos,...
E sucede-me insólita mudança.
Tremo por mim, pesar que a linda e mansa
Face vossa me induza a vir dizer-vos
Esta infinita insânia de querer-vos
E na alma quanto sinto de esperança.
Apiedai-vos de mim, cuja loucura
Em toda parte só divisa abrolhos
Depois de ter o olhar de leve posto
Em vosso airoso talhe, em vossa alvura,
Nas duas noites que mostrais nos olhos,
Nas duas rosas que trazeis no rosto.
Aníbal Teófilo
Poeta Brasileiro
1873/1915
Foto SS STUDIO
A provar que hei perdido a segurança
Desde, Senhora, que cheguei a ver-vos,
Ao juízo recusam-se-me os nervos,...
E sucede-me insólita mudança.
Tremo por mim, pesar que a linda e mansa
Face vossa me induza a vir dizer-vos
Esta infinita insânia de querer-vos
E na alma quanto sinto de esperança.
Apiedai-vos de mim, cuja loucura
Em toda parte só divisa abrolhos
Depois de ter o olhar de leve posto
Em vosso airoso talhe, em vossa alvura,
Nas duas noites que mostrais nos olhos,
Nas duas rosas que trazeis no rosto.
Aníbal Teófilo
Poeta Brasileiro
1873/1915
Foto SS STUDIO
sexta-feira, julho 07, 2017
ESPERA
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê passar o silêncio
Navegação antiquíssima e solene.
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa
É então que se vê passar o silêncio
Navegação antiquíssima e solene.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Pintura de Iman-Maleki
domingo, julho 02, 2017
UNS LINDOS OLHOS, VIVOS, BEM RASGADOS
UNS LINDOS OLHOS, VIVOS, BEM RASGADOS
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Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados,
um garbo senhoril, nevada alvura;
metal de voz que enleva de doçura,
dentes de aljôfar, em rubi cravados;
.
fios de ouro, que enredam meus cuidados,
alvo peito, que cega de candura;
mil prendas e (o que é mais que formosura)
uma graça que rouba mil agrados;
.
mil extremos de preço mais subido
encerra a linda Márcia, a quem of’reço
um culto que nem dela ‘inda é sabido;
.
tão pouco de mim julgo que a mereço,
que enojá-la não quero de atrevido
co’as penas que por ela em vão padeço.
.
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Uns lindos olhos, vivos, bem rasgados,
um garbo senhoril, nevada alvura;
metal de voz que enleva de doçura,
dentes de aljôfar, em rubi cravados;
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fios de ouro, que enredam meus cuidados,
alvo peito, que cega de candura;
mil prendas e (o que é mais que formosura)
uma graça que rouba mil agrados;
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mil extremos de preço mais subido
encerra a linda Márcia, a quem of’reço
um culto que nem dela ‘inda é sabido;
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tão pouco de mim julgo que a mereço,
que enojá-la não quero de atrevido
co’as penas que por ela em vão padeço.
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FILINTO ELYSIO
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Filinto Elysio era o nome arcádico por que ficou conhecido o P.e Francisco Manuel do Nascimento, nascido em Lisboa a 23 de Dezembro de 1734 e falecido em Paris a 25 de Fevereiro de 1819. Teve de se exilar para fugir à Inquisição, devido às suas ideias liberais e iluministas. Esteve quatro anos em Haia (Holanda), antes de se fixar em Paris. Se, em Lisboa, fora professor da Marquesa de Alorna (Alcipe), na capital francesa travou conhecimento com o grande poeta romântico Lamartine. Levou uma vida difícil como tradutor, mas poetou infatigavelmente.
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Foro de Novikov
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Filinto Elysio era o nome arcádico por que ficou conhecido o P.e Francisco Manuel do Nascimento, nascido em Lisboa a 23 de Dezembro de 1734 e falecido em Paris a 25 de Fevereiro de 1819. Teve de se exilar para fugir à Inquisição, devido às suas ideias liberais e iluministas. Esteve quatro anos em Haia (Holanda), antes de se fixar em Paris. Se, em Lisboa, fora professor da Marquesa de Alorna (Alcipe), na capital francesa travou conhecimento com o grande poeta romântico Lamartine. Levou uma vida difícil como tradutor, mas poetou infatigavelmente.
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Foro de Novikov
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sábado, junho 24, 2017
O TEU RETRATO
O TEU RETRATO
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Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabelos;
Com a tua coragem fez castelos
Que pôs, como defesa, à beira-mar.
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Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!
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Do céu de Portugal fez a tua alma!
E ao ver-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!
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Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descansa
O triste fim da minha mocidade!
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ANTÓNIO NOBRE (1867-1900)
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Foto de Aleksandr Krivickij
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quinta-feira, junho 22, 2017
UM CAMPO BATIDO PELA BRISA
A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho “um pensamento despido”;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.
Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
Fernando Assis Pacheco
Foto de Denis Bogomolov
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.
A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho “um pensamento despido”;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.
Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
Fernando Assis Pacheco
Foto de Denis Bogomolov
sábado, junho 03, 2017
A UMA MULHER DO MEU PAÍS
A UMA MULHER DO MEU PAÍS
.
Abre as asas, tu que não desistes
de encontrar as asas nos teus braços
e com eles descobrires novos espaços.
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Abre as asas, tu que não desistes
de rasgar, no tempo, o calendário
que preenche, em cada dia, o teu diário.
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Abre as asas, tu que não desistes
de mostrar que és viva, e continuas
percorrendo, serena, as mesmas ruas.
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Abre as asas, tu que não desistes
de mudar a face da cidade
em ímpetos de arrojo e de vontade.
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Abre as asas, tu que não desistes
de enfrentar o sol que te encandeia
e quebra a tua última cadeia.
..
Abre as asas, amor, e segue em frente,
voa sempre, voa sempre, sem cansaço,
e ensina a voar toda esta gente
que continua especada olhando o espaço.
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FERNANDO PEIXOTO
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Pintura de Rob Efferan
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domingo, maio 21, 2017
RAZÕES DE AMOR
Razões de amor...
I
Gosto desse teu ar tristonho,
desse olhar de melancolia,
mesmo nos momentos de prazer e de sonho,
ou nos instantes de amor e de alegria...
Gosto dessa tua expressão de ternura
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...
tão suave e feminina,
desse olhar de ventura
com um brilho úmido a luzir num profundo langor...
Desse teu olhar de meiguice que me cativa e domina,
tu que dás sempre a impressão de quem precisa
de proteção e amor...
Desse teu ar de menina, desse teu ar
que te faz mais mulher
ao meu olhar...
que te faz mais mulher
ao meu olhar...
Gosto de tua voz, tranquila, do tom manso
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...
com que falas, como se acariciasses
até as palavras que dizes;
de tua presença, que é assim como um quieto remanso,
um pedaço de sombra onde me abrigo
quando somos felizes...
Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...
quando te aperto contra mim e te sinto
minha
(inteiramente nua)
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...
II
Gosto de ti
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde
onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso
onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias,
brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos
para as minhas alegrias;
de teu ventre – uma enseada
– porto sem cais e sem mar –
branca areia à espera da onda
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
que em vaivém vai se espraiar;
de teus quadris, instrumento
de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram
as brancas asas do sexo;
– do teu corpo só de alvuras
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
– das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos
de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem
que só de carícias tecem
esses desejos da gente...
Gosto de ti
desesperadamente;
desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde
aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos
em teus pequeninos pés)
– gosto de ti, feiticeira,
tal como tu és...
(J.G. de Araújo Jorge)
Foto de Sergey Ryzhkov
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quarta-feira, maio 10, 2017
DIA E NOITE ...
Dia
E noite
Corri pela cidade
Percorri ruas e avenidas
Becos, largos, vielas e jardins
Cambaleando, por fim sentei-me num banco
Pensativo, nervoso, indignado, pesaroso, arreliado, arrependido, teimoso
Recomecei a caminhada na tua direcção
Não queria perder-te outra vez
Corri mais esforço final
O nevoeiro cerrado
Escondeu-te bem
E noite
Corri pela cidade
Percorri ruas e avenidas
Becos, largos, vielas e jardins
Cambaleando, por fim sentei-me num banco
Pensativo, nervoso, indignado, pesaroso, arreliado, arrependido, teimoso
Recomecei a caminhada na tua direcção
Não queria perder-te outra vez
Corri mais esforço final
O nevoeiro cerrado
Escondeu-te bem
terça-feira, maio 09, 2017
A NEGRA
A NEGRA
.
Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,
.
Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.
.
Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.
.
No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.
.
Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;
.
Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.
.
Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.
.
Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.
.
CAETANO DE COSTA ALEGRE
.
Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,
.
Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.
.
Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.
.
No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.
.
Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;
.
Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.
.
Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.
.
Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.
.
CAETANO DE COSTA ALEGRE
(26 de Abril de 1864 - 18 de Abril de 1890)
Poeta narural de S. Tomé e Príncipe.
.
Negra, by Marie-Guillemine Benoist (1768-1826)
.
Negra, by Marie-Guillemine Benoist (1768-1826)
.
sexta-feira, maio 05, 2017
"AMO-TE ! "
"Amo-te !" Cinco
letras pequeninas,
Um poema de amor e felicidade !
Não queres mandar-me esta palavra apenas ?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade ...
Florbela Espanca
Florbela Espanca
quarta-feira, maio 03, 2017
O AMOR
O AMOR
.
Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria...
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Foto de Cat Free
.
Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria...
Clara que sem descanso esculpirei.
E noite onde sem fim me afundarei.
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Foto de Cat Free
domingo, abril 30, 2017
AMAR-TE É COMO ...
Amar-te é como ir pela manhã
A uma roseira em flor
e recolher
a mais pura, a mais fresca,
a mais louçã
das perfumadas rosas que tiver;
Ou como, a rir,
morder uma romã
Ou a sonhar colher um malmequer ...
A uma roseira em flor
e recolher
a mais pura, a mais fresca,
a mais louçã
das perfumadas rosas que tiver;
Ou como, a rir,
morder uma romã
Ou a sonhar colher um malmequer ...
É como caminhar por uma estrada
novinha ... ainda por inaugurar
E desenhar os pés descalços na geada,
de leve, para não a macular.
E é prosseguir assim a caminhada
sem destino ... nem pressa de chegar
novinha ... ainda por inaugurar
E desenhar os pés descalços na geada,
de leve, para não a macular.
E é prosseguir assim a caminhada
sem destino ... nem pressa de chegar
...É, numa vinha, à hora do sol-pôr,
Espremer um cacho de uvas sazonado
E embriagar-me depois com o licor
delicioso do vinho derramado
A chiar no barro cheio de frescor
da taça esguia do teu corpo amado
Espremer um cacho de uvas sazonado
E embriagar-me depois com o licor
delicioso do vinho derramado
A chiar no barro cheio de frescor
da taça esguia do teu corpo amado
ANTÓNIO MELENAS
Foto de Oleg Belevtsev
sexta-feira, abril 28, 2017
O tempo, subitamente solto ...
o tempo,
subitamente solto
pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade
a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei
antes de te conhecer.
eram os teus olhos,
labirintos de água,
terra, fogo, ar,
que eu amava
quando imaginava
que amava.
era a tua, a tua voz
que dizia as palavras da vida.
era o teu rosto.
era a tua pele.
antes de te conhecer,
existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim,
dentro de mim,
eras tu a claridade.
.
José Luís Peixoto
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Foto de Vladimir Isaev
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quarta-feira, abril 26, 2017
DESEJO
Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;
Se a fronte pura e serena
Brilhasse dinspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;
Se a voz fosse harmoniosa
Como dharpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;
E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;
E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!
Casimiro de Abreu
Foto de Alexander Motylev
sábado, abril 22, 2017
CANTIGA PARA NÃO MORRER
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Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
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Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
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Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
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FERREIRA GULLAR
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Foto de Сергей
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EM TUAS ÁGUAS ...
EM TUAS ÁGUAS ... Em tuas águas navego Em ti resumo o périplo da minha volta ao mundo. Fora de ti, não há saída ou rumo...
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foto de Jean Jacques André Saudade é querer viver o já vivido, Querer amar e ter amado já… Sentindo o coração anoitecido, Querer beijar a lu...
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