sexta-feira, novembro 18, 2005

Porque Volto

Foto aérea de ALVITO retirada do livro O CASTELO DE ALVITO com texto de Fialho de Almeida - Edição da Fundação da Casa de Bragança - 1946




Volto,
porque há dias antigos
que ainda nos agarram
com o cheiro da terra lavrada,
onde em cada ano,
enterrávamos os pés e os sonhos.


Volto,
porque os olhos dos pastores,
continuam chorando
estios sem pastagens,
onde na terra gretada
o rosmaninho já secou.


Volto,
porque me doem as recordações
dos lugares perdidos,
onde há nomes de gentes,
que me deixaram marcas,
sulcadas na pele e na alma.


Volto,
porque ainda quero correr,
atrás das cotovias
que cantavam nas eiras,
quando o pão de trigo,
nascia nas mãos dos homens.


Volto,
porque em tardes de sol,
há espaços na planície quente,
onde velas de moinhos decadentes,
ainda gritam o teu nome ao vento,
enquanto moem saudades velhas.


Volto,
porque ouço canções tristes,
que os últimos cantadores,
penduram nas oliveiras abandonadas,
e que se arrastam comigo,
embalando nostalgias
fechadas dentro de mim.


Volto,
porque o verde dos trigais
é da cor da esperança em colheitas,
que possam merecer a pena,
e porque as derradeiras cegonhas,
ainda moram nas torres das igrejas.


Volto,
porque irremediavelmente,
luto por agarrar o tempo,
como outrora tentava
apanhar as rãs assustadas,
que se esgueiravam nos charcos.


Volto,
porque o meu Alentejo,
é o último dos redutos,
onde consigo esconder os sonhos
que ainda trago fechados,
nas minhas mãos desesperadas!



(Orlando Fernandes in Alentejo…e Outros Poemas)





Amigos:

- Como já devem ter reparado tenho postado no "Beja" vários trabalhos de Orlando Fernandes. A razão é simples. Os seus poemas traduzem indubitavelmente o nosso grito de alma de alentejanos obrigados ao exilio. Cada palavra sua é o retrato fiel duma imagem que nos acompanha em todos os momentos. Cada composição é um acontecimento que todos já vivemos. Lendo este Poeta Alentejano custa menos a saudade que nos consome. Obrigado Orlando Fernandes pela partilha do teu talento. Podes crer que muitas vezes os teus poemas são interrompidos na leitura porque os olhos, respondendo ao apelo da saudade, o não permitem.


---Desejo a todos os Amigos um bom fim de semana e prometo visitá-los em seus blogs nos próximos dias. Continuo a recomendar uma visita ao SABIA QUE...? e ao POÉTICUS