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domingo, junho 20, 2021

OLHAR DE AMOR... e MAR

 



Olhei bem
no fundo dos teus olhos!
Vi onde o mar se acaba,
ressoando dentro de mim
um arquipélago de sonhos
vagueando sem rumo
na sombra dos teus lábios…

Vi a tua volúpia de onda
exultante nos meus braços
quando, no teu sorriso brando,
secretamente me sorriste
entre a espuma e o céu…

Vi sede que não cessa,
transcende e enlouquece,
atrai e arrebata,
que nos faz viver
e de prazer nos mata!

 


Albino Santos

terça-feira, outubro 03, 2017



ESCREVER UM ADEUS
.
"Escrever um adeus nunca é fácil
e senti-lo é bem pior.
Agora, sem o fulgor do teu reflexo
o céu vai perdendo a luz, a vida não tem cor
e a sombra de mim quase não a encontro.
Acho que entrei num horizonte distante
onde as luzes se apagam lentamente
talvez esperando, quem sabe, um pôr de sol."
.
albino santos
( in "Entre Margens/Excerto)

terça-feira, setembro 05, 2017

AS PALAVRAS DEVERIAM TER ASAS ...





As palavras deveriam ter asas,
a cor das borboletas,
o perfume das rosas de Maio.

Não me interessam os verbos
com demasiados tempos e modos

Quero escrever um poema
e ressuscitar em ti a Primavera!

ALBINO SANTOS

quarta-feira, novembro 19, 2014

É TEMPO DE AMAR AINDA MAIS...



É tempo de amar ainda mais
quando a fogueira que em nossa vida ainda não ardeu
desperta a mão da brisa que de novo se acendeu ...

É tempo de amar ainda mais
quando o desejo tem a força da maré que nos agita
e o silêncio que fustiga os nossos lábios tanto grita ...

É tempo de amar ainda mais
quando as nossas mãos se recusam a se soltar
cada vez mais presas ao desejo que queremos saciar ...

É tempo de viver o amor rasgando todos os fantasmas.
É tempo de amar ainda mais, como se a luz não existisse,
ou uma remota e cintilante estrela se extinguisse ...

Não quero viver fugazes instantes de uma tarde de amor,
uma fracção de segundo. Poeira cósmica. Meteorito.
Por ti ... serei o sol a arder no infinito !

ALBINO SANTOS

in " A Evocação do Teu Nome"

Foto de Arian Bahrami



quinta-feira, novembro 01, 2012

INSTANTE




Se nos olhos te beijarem esta noite,
se estremeceres com um doce suspirar,
e se por inusitado instante,
no teu peito ardente e ofegante
não te adormecer esse desejo,
se sentires nos lábios o sabor de um beijo,
é porque algum poema meu
navega no rio aceso do teu corpo.

Descobrindo trajectos sedutores,
caminhos nunca imaginados,
segredos nunca desvendados,
sonhos de ternura e fantasia.
E se vens comigo na viagem
plena de amor e de coragem,
a noite desabrocha em poesia.

Sinto então esta imparável ânsia,
a sensação profunda e suprema,
de não haver qualquer distância
entre a tua boca e o meu poema.



ALBINO SANTOS
(in Diálogo de Sombras")


Foto de Dieter Plogmann

sexta-feira, março 06, 2009

PARABÉNS PARA TI - POEMAS DE ALBINO SANTOS

Foto de Bruno Abreu - Olhares


O Mar expande-me a um infinito horizontal. A Montanha esmaga-me o seu peso na vertical. Perco a essência de mim com primeiro e sinto-me comprimido com a segunda. A pequenez em mim é a mesma por dissolução ou compressão. O êxtase e a humildade, a constante agitação e a imobilidade eterna.

Como o contraste me arrebata!...

I

Não sei se Mar ou se Montanha,
tenho os meus afectos repartidos
por duas paixões que mal sustento,
duas ânsias opostas nos sentidos
dois pólos de atracção no pensamento

II

Mar!
Feito de sal e azul liquefeito
de céu, de gaivotas, vendavais
de abismos profundos e mortais
que o sol escolheu para seu leito,
onde o céu se debruça a ver corais

Onde habitam lendas e sereias,
ninfas nuas e de longas tranças
que alimentam sonhos de crianças,
namorados que se amam nas areias
da imensa praia de águas mansas

Onde posso beber sol e liberdade
longe de angústias e de medos,
sentar-me no colo dos rochedos
perder-me no azul que me invade
e contar ao mar os meus segredos

III

Montanha!
Hino supremo à imortalidade,
arrasadora e telúrica erecção,
feita da substância da eternidade,
onde as pedras parecem ter vontade
de fecundar o seu próprio chão

Imponente e austera grandeza
convertida em arte e formosura,
poesia esculpida em fraga dura
que a força e o poder da natureza
com o passar do tempo mais apura

TU, que acordas o sol na hora de nascer
entre a bruma e o cheiro de jasmim,
no teu perfil agreste, sem ter fim,
repousas a grandeza do teu ser
como eu próprio repouso sobre mim!...


ALBINO SANTOS






Foto de Marta Ferreira - Olhares


Quando a luz amadurece
chegas como quem esquece
os lençóis incandescentes
onde sempre eu anoiteço…
Mas trazes sempre as sementes
da flor com que adormeço…

Assim me vem a noite,
em pequenas chamas
florescendo entre os lábios
e os dedos dóceis…

um a um, suaves,
teus gestos me poisam no peito
como faminto bando de aves…

Línguas de sal na escuridão acesa!


ALBINO SANTOS




Foto de Bela-Olhares


Um poema deve ser silencioso
como uma carícia...
Macio
como o toque dos dedos sobre a pele...
Doce
como um olhar de amor,
abrindo caminho através dos teus olhos...
Imprevisto
como o voo dos pássaros...
Imóvel
como a sombra no tempo...
Suave
como prelúdio de belas melodias...
Tranquilo
como quando tua mão descansa sobre a minha...
Ousado
como as últimas borboletas que adormecem
na erva já ressequida depois do último beijo...

ALBINO SANTOS





Foto de Nuno Manuel Baptista - Olhares

Caminho sobre um murmúrio
de vozes transparentes.
Sou a síntese de todos os ecos
que se projectam
através de mim,
os gritos que calei
para que outros irrompessem!

Na minha memória
vestida de saudade,
respiro o teu corpo
pelo fôlego das palavras
com que faço este poema.
Elas nascem límpidas
e partem depois,
húmidas de desejo...

Molham-se os meus versos,
chove-me a saudade,
inundam-me as noites,
silenciosas,
deliciosamente lascivas
como asas de pássaro
escorrendo o teu orvalho.

Um pingo mais
desse liquido ardor,
e o poema transborda
de amor…

ALBINO SANTOS





Foto de António Carreteiro - Olhares


Se de amor me falasses!
Um dia… abstractamente,
como um leve rumor
ao som de uma serenata!
Mas fala-me somente
palavras de amor,
quando a noite deixar ver
claramente
o sítio onde o teu corpo
se refracta

Se de amor me falasses!
De amor ardente
sem a alma fria
em ti tão abstracta!
Na carícia fugidia
e tão surpreendente,
que trazes nessa boca
irreverente
onde a paixão é sempre mais exacta!

Se de amor me falasses!
Nesta noite incandescente
e tão ingrata!
Do amor que se sente
e tantas vezes se mata!
Da loucura de um beijo
no teu corpo cor de prata,
onde o amor e o desejo
tantas vezes se retrata…


ALBINO SANTOS


terça-feira, julho 08, 2008

ÚLTIMA FRONTEIRA

Foto de Arian Bahrami


Delirando entre sonhos,
verdades, desejos
e loucuras,
entre o toque da caneta no papel
e o teu sorriso,
é tão curta a distância
dos meus braços aos teus.
É tão fácil tocar os nossos lábios.
É tão curto o caminho.

Fico a pensar o que busco em ti,
na cor do silêncio nocturno
enquanto o desejo alastra,
insubmisso,
como se procurasse
um esconderijo urgente.
Como se a penumbra tivesse olhos
e pudesse ver através da noite.

Depois,
deslizas como o vento
propagando sem destino
surpresas e carícias,
suavidade e tumulto.
Tão subtil, tão viva,
azul... sempre azul…
Júbilo da nudez,
insana fantasia
num delírio fulvo de luz.

Encantado gozo
como rios de prosa a versejar
ao longo do teu corpo
transbordando poesia.
Corpos ondulantes
em delírios de amor,
esperando suplicantes
o momento redentor.


ALBINO SANTOS

domingo, junho 01, 2008

ENTRE AS ONDAS E A BRUMA

Foto de Paul Mahder



O meu rumo é o que o mar quiser!
De horizonte ausente
na penumbra silenciosa
atravesso madrugadas
sem fronteiras,
invento rumos, rotas e marés,
desfraldo as velas do sonho
e navego entre ondas de espuma

Deixo o meu mundo para trás
e dissolvo-me em místico nevoeiro,
pois sei que haverá um momento
em que me perderei na bruma,
o sol me queimará o rosto,
e alvas e alterosas ondas
serão nossos lençóis agitados
nas correntes loucas do desejo.

Nos lábios rubros da manhã,
molhados de sal e orvalho
haverá um impulso metafísico
de mergulhar neles num afago,
e neles voar como gaivota,
partindo livre e clandestino
até a um pôr-de-sol eterno…

Oiço-me então no meu silêncio!
Fecho os meus olhos de espanto.
E na avidez de tanto te amar,
descubro no imenso abismo azul
montes de páginas em branco
que haveremos de escrever
em bordados de espuma,
nos revoltos lençóis do oceano
com as cores da nossa paixão!...



Albino Santos

domingo, março 30, 2008

Hoje não quero apenas escrever-te...

Foto de Martin Kovalik



Hoje não quero apenas escrever-te
as mais belas palavras.
Não me basta saber
que lês os meus sonhos
com o desejo escondido em cada página.

Essas palavras são veneno sem antídoto
onde se morre de amor e de saudade!
Enlouquecem a alma,
fazem acordar sensações profundas
na irrealidade de instantes sem tempo…

Rasguemos as folhas, acabemos com a ilusão.
É entre os nossos lábios que a realidade acontece!


Albino Santos

quarta-feira, março 05, 2008

Nas margens do poema

Foto Cátia Peixe-Olhares



Quero-te para além dos meus poemas,
numa imensidão que nos dá vida.
Amar-te nas formas mais supremas,
mergulhar na tua alma enternecida

Quero decifrar no olhar inquietante
os desejos que trazes escondidos
no sorriso doce, sensual e intrigante,
desses lábios rubros, enlouquecidos.

Quero as fantasias ainda não sonhadas
nas labaredas que ardem no teu peito,
que pressinto no teu corpo desejadas
em noites de amor louco no teu leito.

Sonha comigo o sonho que há em ti,
na ternura da noite pela noite acima,
que tudo absorve e concentra em si
e verás quanto amor há em cada rima.


Albino Santos

sexta-feira, outubro 12, 2007

O nosso amor nasceu como um poema

Foto João Camilo-Olhares

"O Amor é a memória que o tempo não mata,
a canção bem-amada, feliz e absurda...
É a música inaudível...
O silêncio que treme e parece ocupar o coração
que freme quando a melodia do canto de
um pássaro parece ficar..."

- Vinícius de Moraes -




O nosso amor nasceu como um poema.
Como se nossas mãos não fossem duas.
Como se o teu corpo fosse o universo,
onde nos teus olhos cintilam outras luas
que enchem de luar estes meus versos.

O nosso amor nasceu como um poema.
Que tanto se excedia. E nos excedendo,
sempre o horizonte mais ficou distante.
Absorvente amor de tal forma absorvendo,
amando o amor talvez mais que o amante.

O nosso amor nasceu como um poema.
Com palavras que a amar se escreveram
em páginas de sonho, beleza e esplendor.
E tantas vezes as palavras se envolveram
que de um poema nasceu o nosso amor.





Albino Santos

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...