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domingo, agosto 02, 2009
domingo, janeiro 18, 2009
ALÉM DA MORTE

ALÉM DA MORTE
Fecho os olhos num sonho que me leva
Às paragens divinas da saudade,
Lá onde a noite é apenas claridade
Dando origem talvez a nova treva.
Fecho os olhos e avisto a Eternidade,
Lá onde um sol fantástico se eleva
Num perpétuo fulgor, sem que descreva
Sua órbita de luz na imensidade.
Fecho os olhos e vejo a minha imagem
Anoitecendo os longes da paisagem,
Como a única sombra que persiste...
Sou eu! sou eu aquele vulto errando!
Sou eu, além da morte ainda sonhando
Na tua graça e neste amor tão triste!...
Anrique Paço d'Arcos
Henrique Belford Corrêa da Silva, com o nome de poeta Anrique Paço d' Arcos, nasceu em 1906, na cidade de Lisboa, vindo a falecer em Luanda, no ano de 1993.
Escritor simples e elegíaco, legou-nos livros de poesia como Versos sem Nome (1923), Divina Tristeza (1925), Mors-Amor (1928), Peregrino da Noite (1931), Cidade Morta (1939), Estrada sem Fim (1947), História de Jesus (1962), Círculos Concêntricos (1965), Voz Nua e Descoberta (1981) e Poesias Completas (1993).
Foto de Dionísio Leitão
sábado, outubro 06, 2007
Aparição

Foto de Melan Chol Ie
Saudosamente, ao luar das minhas mágoas,
Vens para mim na tua graça de ave:
O teu andar, de longe, é brando e suave
Como um cisne vogando à flor das águas.
Vens para mim, ao luar que me entristece,
Em tua alada e mística figura:
Nos teus olhos se abisma a noite escura
E é a luz do luar que neles resplandece.
Há qualquer coisa em ti que me comove
E dá motivo ao meu desassossego:
Minhas falas por ti são as de um cego,
Tenho por ti o olhar de quem não ouve.
Quisera erguer em teu louvor um canto
De divina, quimérica harmonia:
Assim na primavera a cotovia
Festeja o sol que nasce e o seu encanto.
Digo o teu nome aos ventos, no martírio
Da ansiedade febril que me consome:
E logo os ecos rezam o teu nome,
Num êxtase que é irmão do meu delírio.
Grito por ti quando me encontro a sós,
Mentindo à dor de te saber ausente:
Mas vens ao meu amor, saudosamente,
E logo morre o alvor da minha voz.
Saudosamente, ao luar que me deslumbra,
Vens através a noite silenciosa:
E a tua graça, etérea e misteriosa,
É um outro luar surgindo na penumbra.
Anrique Paço d’Arcos
(Poesias Completas)
quarta-feira, julho 18, 2007
ANRIQUE PAÇO D'ARCOS - UM POETA PORTUGUÊS...
foto de Jean Jacques André
Saudade é querer viver o já vivido,
Querer amar e ter amado já…
Sentindo o coração anoitecido,
Querer beijar a luz que o sol lhe dá.
Saudade é ver fugir o bem perdido,
Não podendo ir com ele onde ele vá;
Ai, saudade afinal é ter nascido
Na certeza que a vida acabará!
Horizontes sem fim, novas paisagens…
Saudade é vago espelho onde as imagens
Têm vida para além da realidade.
Saudade é tudo enfim que me rodeia;
Um relevo de passos pela areia;
A morte, a vida, o amor, tudo é saudade…
foto de Gerhardt Thompsonz
Ó meu saudoso olhar, penumbra triste
Que da alma das coisas se enamora,
Onde o riso se extingue e aonde chora
A lágrima de tudo quanto existe.
Ó meu saudoso olhar, relembra agora
Aquela doce luz que um dia viste
Iluminar-te a vida e que persiste
Em deslumbrar-te ainda, como outrora.
Tudo é silêncio e dor; tudo é saudade.
E lembro o meu amor e o seu encanto,
Os seus olhos de estranha claridade.
Ó meu bendito amor! Bendita luz!
Por quem eu dava a vida e tudo quanto
Além da própria vida me seduz!
foto de Sissi
Esta tristeza que me envolve agora
Nem me deixa sequer pensar em mim…
Cai na terra o silêncio; e nesta hora
A minha dor vai descansar enfim.
O sol ao longe todo o céu colora
De nuvens cor de fogo e de rubim;
E as árvores também, como quem ora,
Rumorejam nas sombras do jardim.
E no silêncio desta tarde linda
Paira na terra uma doçura infinda,
Asas leves de sonho e de agonia…
Morrem ao longe as nuvens incendiadas,
Quando o silêncio e a sombra de mãos dadas
Amortalham a luz, ao fim do dia…
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