foi-lhe dito que a urze quando nasce é o lápis que risca a roxo a linha do montado e divide em horizonte o Céu e o resto do mundo; foi-lhe dito que a geografia duma azinheira termina em cabelos de fogo e que seus braços espreguiçados ao calor são o descanso da terra
falaram-lhe que as ribeiras soltas tinham vida e que cada gota cheirava a suor e lágrimas presas à lâmina pujante duma enxada na semente; alguém lhe disse que os riachos eram de sabão e que emanavam cânticos de mulheres selvagens protegendo os filhos debaixo dos aventais lavados
contaram-lhe que as tardes eram só os dias longos enrolados no vento maestro das searas espigadas só à espera do ouro para alimentarem os alforges; disseram-lhe que os açudes do rio eram o sisal que cingia o trigo secado e embalado nos braços de uma ceifeira quase morta pelo cansaço
foi-lhe dito que os espinhos da esteva são aves e deles brotam flores alvas formando as paredes das moradas plantadas no meio do caminho; foi-lhe dito que à planície menstruada de papoilas se chamava sangue quente no barro ao lume misturado com pobreza e cheiro a poejo pisado
falaram-lhe que nos montados se corre descalço e que dos pés brotam os beijos quentes da lavra debulhando a canção analfabeta das planícies; contaram-lhe que do entendimento das estações se acalentam as monções da eira e do vento sul com a esperança de uma meia sardinha no pão
disseram-lhe das mãos que se entrelaçam no frio e que das palavras entreabertas no postigo sobra o odor a infusas de chuva e pés de hortelã; foi-lhe dito que a fortuna das gentes é o canto dorido e das gargantas dos frutos nascidos vive o quebranto tragado no cucharro que partilha a lavoura de cem
alguém lhe disse que as camisas de preto eram véus e os chapéus o respeito pela cara caiada de Deus que das feridas da terra protegia a fome do povo; foi-lhe dito que o passado não retorna nos calos das mãos que o velho se tornou saudade na charneca do sonho e que de Alentejo só a memória de quem já viveu tudo.