Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia Pablo Neruda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia Pablo Neruda. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, setembro 16, 2021

JÁ NÃO SE ENCANTARÃO OS MEUS OLHOS ...

 



Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.
.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.
.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
.
...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
.
Pablo Neruda
(Chile 1904-1973)

Foto de Karyakin Valeriy

terça-feira, junho 01, 2021

Angela Adonica

 


Angela Adonica

Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.

Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

Pablo Neruda

Pintura de Jacques Louis David

quinta-feira, abril 20, 2017

AO CREPÚSCULO



AO CREPÚSCULO
.
Não...
Depois de te amar eu não posso amar mais ninguém.
De que me importa se as ruas estão cheias de homens esbanjando beleza e promessas ao alcance das mãos;
Se tu já não me queres, é funda e sem remédio a minha solidão.
Era tão fácil ser feliz quando estavas comigo.
Quantas vezes sem motivo nenhum, ouvi teu riso, rindo feliz, como um guizo em tua boca.
E a todo momento, mesmo sem te beijar, eu estava te beijando...
Com as mãos, com os olhos, com o pensamento, numa ansiedade louca.
Nossos olhos, ah meu deus, os nossos olhos...
Eram os meus nos teus e os teus nos meus como olhos que dizem adeus.
Não era adeus no entanto, o que estava vivendo nos meus olhos e nos teus,
Era extase, ternura, infinito langor.
Era uma estranha, uma esquisita mistura de ternura com ternura, em um mesmo olhar de amor.
Ainda ontem, cada instante uma nova espera,
Deslumbramento, alegria exuberante e sem limite.
E de repente... de repente eu me sinto como um velho muro.
Cheio de eras, embora a luz do sol num delírio palpite.
Não, depois de te amar assim,
Como um deus, como um louco,
nada me bastará e se tudo tão pouco,
Eu deveria morrer.
.
PABLO NERUDA
.
Foto de Giada Lysa 

sábado, junho 08, 2013

AINDA TE NECESSITO ...


AINDA TE NECESSITO ... Ainda não estou preparado para perder-te Não estou preparado para que me deixes só. Ainda não estou preparado pra crescer e aceitar que é natural, para reconhecer que tudo tem um princípio e tem um final. Ainda não estou preparado para não te ter e apenas te recordar. Ainda não estou preparado para não poder te olhar ou não poder te falar. Não estou preparado para que não me abraces e para não poder te abraçar. Ainda te necessito. E ainda não estou preparado para caminhar por este mundo perguntando-me: Porquê? Não estou preparado hoje nem nunca o estarei. AINDA TE NECESSITO. Pablo Neruda

quinta-feira, novembro 24, 2011

NO MEU CÉU AO CREPÚSCULO...





No meu céu ao crepúsculo tu és como uma nuvem
e a tua cor e forma são tal e qual as quero.
Tu és minha, tu és minha, mulher de lábios doces
e vivem na tua vida os meus infinitos sonhos.

A lâmpada da minha alma ruboriza-te os pés,
o acre vinho meu é mais doce em teus lábios,
ó segadora da minha canção ao entardecer,
como te sentem minha os meus sonhos solitários!

Tu és minha, tu és minha, vou gritando na brisa
da tarde, e o vento arrasta a minha voz viúva.
Caçadora do fundo dos meus olhos, o teu roubo
estanca como a água o teu olhar nocturno.

Na rede da minha música estás presa, meu amor,
e as minhas redes de música são largas como o céu.
Nasce-me a alma à beira dos teus olhos de luto.
Nos teus olhos de luto começa o país do sonho.


PABLO NERUDA

"Vinte Poemas de Amor" Parte IV

Foto de Ognyan Geshev

sexta-feira, maio 06, 2011

A DANÇA




Não te amo como se fosses uma rosa ou um topázio
Ou a flecha de cravos, que o fogo lança.
Amo-te como certas coisas escuras devem ser amadas,
Em segredo, entre a sombra e a alma.
Amo-te como a planta que não floresce e carrega,
Escondida dentro de si, a luz de todas as flores.
E, graças ao teu amor, escura no meu corpo
Vive a densa fragrância que cresce da terra.
Amo-te sem saber como ou quando ou de onde.
Amo-te tal como és, sem complexos nem orgulhos.
Amo-te assim porque não sei outro caminho além deste
Onde não existo eu nem tu.
Tão perto que a tua mão no meu peito é a minha mão.
Tão perto que, quando fechas os olhos, adormeço.

PABLO NERUDA


Foto de Nadezda Koldyshev

quinta-feira, novembro 11, 2010

SI TÚ ME OLVIDAS





Quiero que sepas
Quero que saibas

una cosa.
uma coisa.


Tú sabes cómo es esto:
Tu sabes como é isto:

si miro
se olho

la luna de cristal, la rama roja
a lua de cristal, a folhagem vermelha

del lento otoño en mi ventana,
do lento outono em minha janela,

si toco
se toco

junto al fuego
junto ao fogo

la impalpable ceniza
a impalpável cinza

o el arrugado cuerpo de la leña,
ou o enrugado corpo da lenha,

todo me lleva a ti,
tudo me leva a ti,

como si todo lo que existe,
como se tudo o que existe,

aromas, luz, metales,
aromas, luz, metais,

fueran pequeños barcos que navegan
fossem pequenos barcos que navegam

hacia las islas tuyas que me aguardan.
para as ilhas tuas que me aguardam.


Ahora bien,
Agora bem,

si poco a poco dejas de quererme
se pouco a pouco deixas de querer-me

dejaré de quererte poco a poco.
deixarei de querer-te pouco a pouco.


Si de pronto
Se de repente

me olvidas
me esqueces

no me busques,
não me procures,

que ya te habré olvidado.
que eu já terei te esquecido.


Si consideras largo y loco
Se consideras excessivo e louco

el viento de banderas
o vento de bandeiras (*)

que pasa por mi vida
que passa por minha vida

y te decides
e te decides

a dejarme a la orilla
a deixar-me à margem

del corazón en que tengo raíces,
do coração em que tenho raízes,

piensa
pensa

que en ese día,
que nesse dia,

a esa hora
a essa hora

levantaré los brazos
erguerei os braços

y saldrán mis raíces
e sairão minhas raízes

a buscar otra tierra.
a procurar outra terra.


Pero
Mas

si cada día,
se cada dia,

cada hora
cada hora

sientes que a mí estás destinada
sentes que a mim estás destinada

con dulzura implacable.
com doçura implacável.

Si cada día sube
Se cada dia sobe

una flor a tus labios a buscarme,
uma flor a teus lábios a buscar-me,

ay amor mío, ay mía,
ai amor meu, ai minha,

en mí todo ese fuego se repite,
em mim todo esse fogo se repete,

en mí nada se apaga ni se olvida,
em mim nada se apaga nem se esquece,

mi amor se nutre de tu amor, amada,
meu amor alimenta-se de teu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
e enquanto vivas estará em teus braços

sin salir de los míos.
sem sair dos meus.






(*) "Viento de banderas" - metáfora usada por Neruda significando um acontecimento que passa mas que deixa marcas.

Poema transcrito do Blog Paixão e Romance.

Foto de Tomasz

quinta-feira, agosto 20, 2009

A NOITE NA ILHA




Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.



Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.



O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

-pão, vinho, amor e cólera -

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.



Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.



Dormi contigo

e, ao acordar, tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.



Pablo Neruda - Os Versos do Capitão

Tradução de Albano Martins

Foto da net


terça-feira, novembro 20, 2007

É assim que te quero, amor...

Foto de Reno




É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.



Pablo Neruda

quarta-feira, agosto 23, 2006

Tu eras também...

Foto de Katrin Tarpke




Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


(Pablo Neruda)

quarta-feira, junho 07, 2006

Não te vás

Foto de Lucaz - Fotografia na net






NÃO TE VÁS

Não te vás por um minuto,
porque nesse minuto terás
ido tão longe,
que eu cruzarei toda a terra
perguntando se voltarás
ou se me deixarás morrendo.





(Pablo Neruda)

sábado, abril 15, 2006

Posso escrever os versos...

foto da net



Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.






Pablo Neruda

Do livro "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

sexta-feira, julho 29, 2005

Amo-te

Foto de Bob Camargo





Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio

ou seta de cravos que propagam o fogo:

amo-te como se amam certas coisas obscuras,

secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem

dentro de si, escondida, a luz das flores

e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo

o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,

amo-te directamente sem problemas nem orgulho:

amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,

tão perto que a tua mão no meu peito é minha,

tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.




(Pablo Neruda)

INÚTIL PAISAGEM de ANTONIO CARLOS JOBIM

  Mas pra quê? Pra que tanto céu? Pra que tanto mar? Pra quê? De que serve esta onda que quebra? E o vento da tarde? De que serve a tarde? I...